Em Gramado, ‘O Crítico’ desmonta clichês da comédia romântica

'Janeiro 27', documentário sobre a tragédia na Boate Kiss, mostra como o incidente foi produto de uma série de fatores que incluem a negligência de autoridades

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

12 de agosto de 2014 | 19h32

GRAMADO - Foram momentos de encantamento e horror na noite de segunda, 11, aqui no 42.º Festival de Cinema Brasileiro e Latino. O encantamento ficou por conta do concorrente argentino El Crítico/O Crítico, de Hernán Gerschuny, seguido pelo horror do documentário Janeiro 27, de Luiz Alberto Cassol e Paulo Nascimento. O horror não se refere à qualidade do longa. No ano passado, Gramado já recebera, para um abraço solidário, familiares e representantes da associação formada em Santa Maria para lutar pela preservação da memórias das vítimas da boate Kiss e pela responsabilização do crime. O terrível incêndio não ocorreu por acaso. Foi produto de uma série de fatores que incluem a negligência de autoridades que deveriam zelar pela segurança da população.

O documentário colhe depoimentos e busca ressonância em tragédias similares ocorridas na Argentina e nos EUA. A própria formação da associação é um ato de cidadania e um chamado à responsabilidade. O que chocou a maioria do público presente à sessão no Palácio dos Festivais foi uma reação em Santa Maria. Uma tenda-memorial montada no centro da cidade acirra os protestos de comerciantes e outras pessoas no documentário. Querem o fim da choradeira, acham que o movimento da associação baixa o astral. Em nome do desenvolvimento da cidade, querem que os mortos sejam enterrados no inconsciente coletivo – uma segunda morte. É duro – chocante?

Já a ficção argentina é uma delícia de filme que desmonta os clichês de um gênero muito popular, a comédia romântica. Como se faz um filme com um personagem que é arrogante e mal-humorado? Aqui, no mundo real, fora do cinema, fala-se muito no embate entre público e crítica. Num debate sobre a crítica gaúcha dos anos 1960, o crítico do Estado Luiz Zanin Oricchio invocou Lacan. Não existe essa entidade ‘a crítica’. Existem os críticos. O crítico do filme de Guerscuny acabou uma relação e mora de favor. Ele procura uma casa. Encontra essa mulher especial. Durante todo o tempo, nosso homem pensa em francês. É um cinéfilo. Sofre da ‘maladie du cinéma’, a doença do cinema.

Para a sobrinha, ele decodifica os códigos da comédia romântica, e são os mesmos que o diretor vai usar, criticamente, em seu filme. O filme – que deve estrear em novembro, após o Festival do Rio e a Mostra de São Paulo – não seria tão bom sem o aporte dos protagonistas. Rafael Spregelburd como Teller, o crítico, e Dolores Fonzi, como seu objeto de desejo, são excepcionais. Ele é um grande ator de teatro, além de dramaturgo. Ela é mulher (na vida) de Gael García Bernal. Spregelburd é consciente, racional, no próprio métier. Dolores é espontânea, vive o instante. Poderia ter dado tudo errado. Deu certíssimo. A química funcionou. “Para um filme desses, é preciso que o público seja cúmplice do desejo do protagonista masculino, cujo ponto de vista compartilha”, esclarece o diretor. O resultado é realmente charmoso, e encantador.

O festival tem exibido à tarde uma mostra de filmes gaúchos. Só Janeiro 27, por sua relevância social, ganhou sessão à noite. Na segunda, passou Mamaliga Blues, de Celso Tolpolar, que teria feito bela figura no recente Festival de Cinema Judaico de São Paulo. Um homem deixa o Rio Grande do Sul e atravessa o Atlântico para buscar na Europa, mais exatamente, na Moldávia, um túmulo. Uma fotografia é sua única referência. Por meio dessa foto ele busca reconstituir a história de sua família, vítima da diáspora dos progroms antissemitas e, depois, da barbárie nazista. É um belo filme, com uma pegada amadorística, ao mesmo tempo pessoal e universal. Discute a identidade judaica, e o cinema. 

Ontem, foi a vez de O Mercado de Notícias, de Jorge Furtado, já em cartaz nos cinemas, mas que ganhou espaço no festival para ampliar a discussão sobre a imprensa, principalmente política, e num ano de eleições. O clima tem andado quente – nas projeções e debates. Em termos de temperatura, anda úmido, chuvoso até, e muito frio.

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