Em Gramado, júri concentra Kikitos em cinco filmes nacionais

Fernanda Montenegro ganha prêmio especial pela atuação em 'Infância'

Luiz Carlos Merten / Gramado, O Estado de S. Paulo

17 de agosto de 2014 | 15h31

E o júri de longas nacionais no 42.º Festival de Cinema Brasileiro e Latino claramente rachou. De que outra forma explicar que tenha distribuído os Kikitos das diversas categorias entre quatro filmes - A Despedida, de Marcelo Galvão; Senhores da Guerra, de Tabajara Ruas; Infância, de Domingos Oliveira; e A Luneta do Tempo, de Alceu Valença -, mas na hora de atribuir o Kikito principal, de melhor filme, sacou um quinto da cartola? Estrada 47, de Vicente Ferraz, foi o melhor filme brasileiro em Gramado, 2014. Não é um filme ruim, mas anticlimático. Ferraz explicou no debate que, tendo feito oposição à ditadura militar desde garoto, era contra tudo aquilo de que o regime se apossava, como a campanha da FEB, a Força Expedicionária Brasileira, na Itália.

Mal aparelhados e preparados, os soldados de seu pelotão fictício tornam-se, contra tudo e todos, até contra eles mesmos, heróis. Libertam a cidade italiana dos nazistas, mas veem passar os heróis oficiais, os norte-americanos. É uma bela ideia - criar não heróis, mas resgatar o esforço (uma coisa digna de John Huston) e que o filme recupera de forma um tanto canhestra, como foram atrapalhados aqueles pracinhas. O Kikito de melhor filme poderá dar visibilidade a Estrada 47, e isso tem de ajudar na discussão de um tema (a FEB) que Sylvio Back abordou de forma satírica em Rádio Auriverde, para indignação dos velhos ex-pracinhas.

" SRC="/CMS/ICONS/MM.PNG" STYLE="FLOAT: LEFT; MARGIN: 10PX 10PX 10PX 0PX; O júri atribuiu dois prêmios especiais - para Fernanda Montenegro, que pairou sobre o 42.º Festival de Cinema Brasileiro e Latino como a matriarca Dona Mocinha de Infância, e para Senhores da Guerra, adaptado da parte final do romance de José Antônio Severo. Marcelo Galvão foi o indiscutível melhor diretor, Juliana Paes e Nelson Xavier excepcionais (melhores) atriz e ator. A possível ressalva é que Xavier, por sua extraordinária carreira, talvez devesse ter sido honrado com um prêmio especial, como o de Fernanda - ele já está tão acima do bem e do mal -, o que possibilitaria a subida ao pódio de jovens atores, e alguns deles foram brilhantes. Prêmios como trilha, direção de arte, fotografia e roteiro foram distribuídos entre A Luneta do Tempo, A Despedida e Infância.

O outro júri - dos longas latinos - ignorou o vencedor da crítica, o belo El Crítico, de Hernán Guerschuny, preferindo destacar como melhor filme, diretor e ator (Felipe Dieste) o uruguaio El Lugar del Hijo, de Manuel Nieto, já exibido em São Paulo como O Militante. Produzido por Lisandro Alonso, o filme segue o mesmo procedimento estético/narrativo de Jauja, pelo qual o autor argentino foi premiado em Cannes, em maio. A história segue um rumo e, lá pelo meio, vira outra coisa. Não deve ter sido uma vitória tranquila. Muita gente - entre os críticos, inclusive - reclamou - de El Lugar del Hijo, e não sem certa razão. O filme, por interessante que seja, não brilha como Jauja. As chilenas Paulina García - de Glória - e Valentina Muhr dividiram o Kikito de atriz por Las Analfabetas, de Moisés Sepúlveda. Se não fossem elas, o prêmio provavelmente não seria outorgado. Ao contrário dos filmes brasileiros, não havia muitos papeis femininos de destaque nos concorrentes latinos.

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Com erros e acertos, foi um bom festival, ou um festival que teve bons filmes - nem todos reconhecidos. A seleção brasileira foi melhor que a latina e a Mostra de Cinema Gaúcho, sem direito a prêmio, mostrou dois grandes filmes (os melhores?) - Dromedário no Asfalto, de Gilson Vargas, e Balões, Lembranças e Recortes de Vida, de Frederico Pinto. A par da diversidade estética, um tema esteve em pauta em todas as seleções, e foi a questão do afeto. Ela se traduziu no mais belo momento do festival, aquele que vai ficar de Gramado 2014. Mesmo se amando, os irmãos de Senhores da Guerra encontraram-se em campos opostos do combate. Os irmãos Carvalho, não. Vladimir entregou o Prêmio Eduardo Abelin para Walter. O grande fotógrafo e diretor invocou Eduardo Galeano, O Livro dos Abraços. Diante da imensidão do mar, um garoto, aturdido por tanta e até assustadora beleza, pede ao pai que o ajude a olhar. É o que faz o cinema. É o que fazem diretores de fotografia e autores de filmes. Essa metáfora vai ficar como legado do 42.º festival.

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