Em Gramado, ‘Presos’ tem elenco notável

Em Gramado, ‘Presos’ tem elenco notável

Longa da Costa Rica exibe atores/autores, aqueles com texto próprio e que ajudam a construir a trama

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

14 de agosto de 2015 | 05h00

GRAMADO - E, na sexta noite do 43.º Festival de Gramado, surgiu o melhor curta da competição. Pode até ser que ainda surjam outros – foram projetados mais filmes ontem, e outros mais serão nessa sexta-feira. Mas, por enquanto, Haram, do egípcio de ascendência árabe e italiana (e radicado na Bahia) Max Gaggino, leva o Kikito, pelo menos para o repórter. O filme é sobre uma mulher do Oriente Médio que vive com o marido em Salvador. Os olho são a única coisa que se vê dela, já que o corpo é todo encerrado dentro da burca. A atriz que faz o papel tem um olhar muito expressivo – claro. Envolve-se com a garota do apartamento em frente.

Comunicam-se através das janelas, e não é isso o cinema, uma janela aberta para o entendimento do mundo, e do outro? A música, ao mesmo tempo que estabelece as diferenças culturais, sela a aproximação. Já os longas da quarta-feira à noite não foram tão bons, por mais instigantes que tenham sido. O melhor foi o representante da Costa Rica, Presos, de Esteban Ramírez, na mostra latina. 

O diretor baseou-se num documentário feito por seu pai, décadas atrás (e do qual ele usa imagens). Uma garota de classe média recusa a vida que a mãe lhe aponta e se envolve com um presidiário. No final, tem de tomar uma decisão importante, mas o diretor deixa a cena em aberto. Surgiram interpretações conflitantes sobre o significado daquelas imagens. Como duas (ou mais) pessoas podem ver filmes diferentes a partir das mesmas imagens?

Interessante questão. O melhor de Presos é o elenco. O filme costa-riquenho se inscreve na tendência que tem sido dominante no festival – a dos atores/autores. Anna Muylaert, do concorrente brasileiro Que Horas Ela Volta?, diz que escolhe atores que tenham texto próprio, para que eles a ajudem a construir seu filme. Essa tem sido a tendência de alguns filmes brasileiros e de todos os concorrentes latinos. 

Alguns momentos com Leynar Gómez (o preso) e Natália Arias (a namorada) são muito intensos. Ele tem essa cena em que cobra alguma coisa de outro preso. O cara só o olha. Rola uma lágrima. Ela ocupa sozinho o longo plano final – quase dois minutos de choro e movimento, sem uma palavra. Como os atores conseguem esses milagres? Técnica ou emoção? Técnica e emoção, quem sabe?

De Brasília, veio outro concorrente brasileiro – O Outro Lado do Paraíso, de André Ristum, adaptado do livro de Luiz Fernando Emediato. A construção de Brasília e o golpe militar vistos pelos olhos de um garoto e centrados na relação entre pai e filho. Se o final aberto do filme da Costa Rica gerou inquietude, a narração off (e situações e diálogos reiterativos) do de Brasília também geraram desconforto. 

É inferior ao anterior de Ristum – essa mania que jornalistas têm de ficar comparando –, mas é tecnicamente bem-feito e Zelito Viana, homenageado ontem à noite com o Troféu Eduardo Abelim, assinalou na sua coletiva a facilidade que a geração de imagens em digital fornece a filmes que precisam trabalhar com reconstituição de época. “Um filme como esse (o de Ristum) teria sido muito mais difícil em celuloide.”

Zelito produziu obras emblemáticas de Glauber Rocha e Eduardo Coutinho – Terra em Transe, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, Cabra Marcado para Morrer. Mas tão ou mais importante que o encontro com essas figuras míticas, foi, nos próprios filmes – é autor de documentários e ficções –, seu encontro com índios. “Por viver na natureza, eles têm uma visão diferenciada do mundo e nos levam a reavaliar nossas vivências e valores.”

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