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Em ‘Fortaleza Hotel’, brasileira e sul-coreana precisam superar entraves da língua para se ajudar

Filme de Armando Praça mostra duas mulheres unidas, apesar das diferenças na comunicação

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

08 de fevereiro de 2022 | 05h00

Numa cena de Fortaleza Hotel, o longa de Armando Praça que está em cartaz nos cinemas de São Paulo, Shin, a sul-coreana que veio ao Brasil para resgatar o corpo do marido que morreu – matou-se – na capital cearense, diz uma coisa importante – “A Coreia não faz mais sentido para mim”. A frase repercute em Pilar, a camareira que a está ajudando. “O Brasil também não faz mais sentido para mim.” Na maior parte do tempo, essas duas mulheres que tentam se comunicar levam uma conversa atravessada, meio inglês, meio mímica. Elas representam dois mundos, duas culturas em choque, e em xeque. 

Já era assim em Greta, o longa anterior de Praça – o enfermeiro gay/Marco Nanini que levava para casa o paciente procurado pela polícia/Démick Lopes. Já era um choque de dois mundos. Lançado no recente Cine Ceará, Fortaleza Hotel venceu os prêmios de melhor atriz (Clébia Sousa, a Pilar) e de melhor ator coadjuvante (Vanderlei Bernardino, o gerente do hotel). Só que, dessa vez, Praça teve de ir ao outro lado do mundo para encontrar a coprotagonista de sua fábula sombria. A viúva sul-coreana torna-se alvo de uma trama urdida por Pilar, que necessita de dinheiro para tentar resgatar a filha, que foi sequestrada. Com a ajuda de uma produtora de lá, encontrou a atriz Lee Young-Lan, que conversa por Zoom com o Estadão

 “Foi uma abordagem muito especial e interessante. Ele veio à Coreia para me conhecer, para me ver no teatro. Aproveitou para fazer pesquisas que ajudaram na criação da personagem.” Lee é predominantemente atriz de teatro e TV. Não é a primeira vez que viaja ao exterior a trabalho. “Fui à Escandinávia para fazer pesquisas com um diretor de teatro. Ele (Armando Praça) me viu num monólogo. A barreira da língua foi levada da realidade para a ficção. Shin não domina a língua. Para acentuar o estranhamento, Armando nos prendeu em casa, Clébia e eu. Essa ideia veio de uma escritora nigeriana – Chimamanda Ngozi Adichie –, que escreveu esse conto sobre duas mulheres de tribos rivais que ficam presas em determinado local por 11 horas.” O conto faz parte do volume No Seu Pescoço, editado no Brasil pela Companhia das Letras. 

Lee não se furta a comentar a popularidade internacional do cinema sul-coreano, principalmente depois dos quatro Oscars atribuídos a Parasita (2019), de Bong Joon-ho. Talvez surpreenda ao dizer que o filme “é meticulosamente construído para provocar determinados efeitos no público”. Deixa subentendido que não é seu favorito. Para ela, apesar das tensões entre Shin e Pilar, o filme é sobre “sororidade”. “A cena em que Pilar conta que teve a filha aos 13 anos remete a uma situação, o abuso, que nós, mulheres, conhecemos no mundo todo.” Na ficção de Fortaleza Hotel, a filha se associa a um rapaz que integra o submundo do crime. É sequestrada para pressionar a mãe.

As palavras não são a única forma de comunicação. Numa cena, bêbadas, Shin e Pilar expressam-se pelo corpo – a dança. Pilar tenta ensinar a Shin os passos do forró embalado com a letra-chiclete do Mastruz com Leite. A coreana responde mostrando à brasileira, no celular, o tango coreano, cultivado nas milongas de Seul. As diferenças estão no centro de Fortaleza Hotel

 

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