Citzencrane Produções Cinematográficas
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Em fase de filmagem, ‘Estômago 2’ terá mais humor e sotaque italiano

Longa resgata personagem vivido por João Miguel em 2007, que agora se envolve com a Máfia

Rodrigo Fonseca, Especial para o Estadão

27 de abril de 2022 | 05h00

Meio curitibano, meio italiano, Estômago 2 - O Poderoso Chef conclui nesta quinta, 28, a primeira fase de sua filmagem, viajando para uma segunda bateria de sets no litoral sul do Lazio, em setembro. Mas viaja sem perder a brasilidade, com o paranaense Marcos Jorge na direção e o baiano João Miguel no papel do mestre-cuca Raimundo Nonato

Em 2007, os dois surpreenderam o cine brasileiro ao mesclar o paladar da dramaturgia carcerária com humor, narrando uma trama bifurcada. Parte dela contava a chegada de Nonato, egresso do Nordeste, a uma metrópole do Sul, nunca nomeada, onde ele virava um ás da culinária e se envolvia com a garota de programa Íria, papel que revelou a atriz Fabiula Nascimento

A outra parte se debruçava sobre a rotina de Nonato numa cadeia, onde ele usava seus talentos na cozinha para ganhar, no tempero, a confiança do chefão do xilindró, Bujiú, vivido por Babu Santana. Agora, 15 anos depois, o cineasta retoma a parceria com João Miguel e com o roteirista Lusa Silvestre (de Medida Provisória) para falar do ingresso do protagonista na máfia.

“Estômago me deu muitas alegrias, 40 prêmios, passagens por Roterdã, pela Berlinale e me deu a chance de dirigir outros filmes e séries, conquistando o público com um personagem que ainda tem potencial dramatúrgico a ser explorado”, disse Jorge ao Estadão, em uma folga dos sets. “Não tive tanta proximidade do João Miguel nesses 15 anos, pois não trabalhamos mais juntos, mas sei o grande ator que ele é. Quando ele leu o roteiro da continuação, percebi que estamos mais maduros e entendemos mais sobre o processo do cinema.”

Máfia

Produzido por Cláudia da Natividade, companheira de Jorge, Estômago 2 - O Poderoso Chef se bifurca em dois tempos da jornada de Nonato para pagar por seus crimes. Num dos segmentos, ele vê Etcétera (Paulo Miklos), criminoso que tomou o lugar de Bujiú no comando do cárcere, ser desafiado por um mafioso italiano, Benedetto Caroglio, vivido por Nicola Siri

No outro segmento, Nonato vai para a Itália, cozinhar para o clã de don Vito Galante. A herdeira dele, Valentina, vai encontrar no brasileiro mais do que um dínamo dos quitutes: ele será uma espécie de consigliere para a moça, numa lógica que evoca O Poderoso Chefão (1972).

“A gente ainda trabalha muito a questão do conflito de poder, como no primeiro filme. Na cadeia, o personagem do Miklos vai encarar a questão da democracia na prisão e notar que seu poder já não é mais absoluto. Na Itália, o conflito também existe, mas é geracional, com Valentina sendo a figura feminina mais forte da trama”, diz Jorge, sem divulgar o elenco europeu. “Não há saudosismo nessa volta. Não ressuscitei personagens. Não queria fazer um filme que fosse comparado ao primeiro. É uma trama bem diferente, com organizações mafiosas em guerra pelo poder. Como em todos os meus filmes, há uma análise social. Quero as pessoas refletindo socialmente sobre a realidade, agora à luz do gângster movie e da comédia à italiana. Mas do meu jeito. Esse segundo filme será mais engraçado do que o primeiro, mas preserva sua dimensão crítica.”

Fenômeno

Visto por cerca de cem mil pagantes em circuito, Estômago virou um fenômeno popular no streaming ao ser lançado na Netflix, ao mesmo tempo que Jorge finalizava a série O Caso Celso Daniel para o Globoplay. “Antes do Estômago, não existia um filme nacional de ficção centrado na culinária brasileira, como um A Festa de Babette ou um Tampopo: Os Brutos Também Comem Spaghetti. A gente inovou nisso. O que me interessa é o novo, buscando um cinema original. E esse filme mostra algo novo do Nonato, que ainda tinha muito a ser explorado. Se o primeiro Estômago falava da condição do migrante, diante do preconceito regional, este segundo, na parte europeia, mostra o Nonato se reinventando, assumindo-se italiano.”

Dividindo-se hoje entre seus projetos como realizador e seu compromisso como curador e programador do Cine Passeio, em Curitiba, Jorge diz que o cenário industrial cinematográfico em que resgata Nonato é diferente da realidade mercadológica de quando Estômago estreou em 20 países. 

“O filme original foi lançado com 13 cópias e somou cerca de 100 mil espectadores. Em 2016, lancei Mundo Cão, que atraiu 30 mil na estreia. Hoje, a maior parte dos filmes brasileiros não consegue fazer 5 mil espectadores. É raro termos um fenômeno como Bacurau, por exemplo”, conclui Jorge. “No cinema mundial, o conceito do ‘filme médio’ sumiu e deu lugar a grandes lançamentos que ocupam 90% das salas exibidoras. O que tento, no Cine Passeio, é valorizar também as produções médias, os pequenos filmes, e apoiar o cinema brasileiro. Sou fã da força que a sala de exibição tem.” 

Veja trailer de Estômago, de 2007:

 

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