Daniela Ramiro/Estadão
Daniela Ramiro/Estadão

Em entrevista ao 'Estado', Cássia Kiss fala da família, projetos e da importância de ver o outro

Atriz está em 'Redemoinho', longa de José Luiz Villamarim

Entrevista com

Cássia Kiss

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2017 | 03h00

Na terça, 31, Cássia Kiss estava em São Paulo na junket de Redemoinho. O belo filme de José Luiz Villamarim estreia no próximo dia 9. Cássia, Dira Paes - que também está no elenco -, o diretor, o roteirista George Moura vieram para os procedimentos de praxe - coletiva, entrevistas individuais e de grupos, e a sessão de público. Cássia chegou atrasada ao cinema, correndo, com cara de quem chorou. “Hoje é o aniversário de minha filha e ela reclamou comigo no telefone. É seu primeiro aniversário após a morte do pai e a mãe não ficou a seu lado. Lhe disse que é assim mesmo, que era importante que eu estivesse aqui (em São Paulo) e que no ano que vem poderemos estar juntas.”

Essa espécie de compreensão foi muito mais que Cássia obteve da própria mãe, que a colocou para fora de casa. “Eu estava empolgada, começando a fazer teatro. Nas vésperas de estreia chegava em casa de madrugada. Minha mãe não entendia. Sei lá o que se passava pela cabeça dela. Devia achar que eu era prostituta. E me convidou gentilmente para sair de casa.” Cassia Kiss conta isso sem mágoa, com a certeza de que é hoje o produto da soma de todas as suas experiências. O fato de ter nascido pobre, de ter tido mãe doméstica, não a envergonha. O que ainda, e sempre, a incomoda é a ignorância. “Minha mãe era um produto de seu meio. Ignorante. De uns 20 anos para cá foi que começou a ler.” O pai já era mais aberto. Embora do mesmo meio, atiçava a curiosidade da filha. Incentivava-a a ler. Cássia Kiss virou uma leitora voraz.

Conta a novidade. “Estou voltando para o teatro. Inicio em março, no Rio, no Teatro Maison de France, uma série de leituras dramáticas.” Leituras? “É. Adoro ler, sempre adorei. Na minha casa, crio todo um clima. Fico meio sentada, meio deitada e me entrego ao prazer da leitura. Não sei viver sem isso.” Vai começar lendo Machado de Assis, Dom Casmurro. Walter Carvalho, com quem conversou sobre seu plano, teve algumas ideias para a luz. Quem vai dirigir? “Mas dirigir o quê? É leitura, e eu leio.” Ajudou muito na decisão de escolher Machado - “Meu filho se chama Joaquim Maria; quando pequeno, reclamava. “Pô, mãe, isso é nome? Por que o Maria?” E eu retrucava que ele ia entender quando crescesse” - a descoberta de que Paulo Rónai veio para o Brasil apaixonado por Machado de Assis, disposto a conhecer o país onde se falava a língua daquele escritor que tanto o apaixonava.

O repórter lembra o filme A Leitora, com Miou-Miou. “E eu não sei? Havia visto, anos atrás, e gostei muito. Agora revi, e gostei mais ainda. Tem tudo a ver com o que quero fazer. Dependendo do público, a coisa poderá crescer.” Cássia nem sabe se conseguirá ler o Dom Casmurro inteiro de uma vez, ou se o espetáculo que sonha será desdobrado em duas, três sessões.

Está encantada. Já foi casada com comunista, que fortaleceu sua crença na educação, na necessidade de mudança social. Anda triste pelo Brasil. “Choro todo dia.” Mas confessa que é uma otimista. “Ouvi dizer que o Sérgio Cabral chora muito na cadeia. Isso pode ser bom. Se ele se reavaliar direito, poderá mudar, virar um homem melhor, um homem grande.” Parece manual de autoajuda, mas não. “Estou em uma fase em que o que me interessa é o outro. Sentir compaixão, sair da minha zona de conforto.” Relata uma experiência. Em um dia particularmente frio do inverno passado, no Rio, estava atravessando a Cinelândia com um sobretudo inglês bem quentinho. Viu aquela garota grávida, de shortinho, encolhida numa marquise, com cara de infeliz. “A gente se olhou, elas me reconheceu, sorriu. Fui lá falar com ela. Conversamos muito, e no final eu pedi um abraço para ela. Eu é que estava precisando.”

O outro a interessa, até como ferramenta de trabalho. “Estou sempre olhando, observando. Agora mesmo, estou te observando, tentando saber quem você realmente é”, diz para o repórter. E ela, é uma estrela? “Estrela o quê, cara? Sou trabalhadora.” Anda muito de metrô. “Numa boa. Se a pessoa me reconhece e encara, retribuo. Sorrio. Se quer uma selfie, faço. Um abraço, dou.” Deve ser por isso que, à maneira de Fernanda Montenegro, nossa grande atriz, irradia tanta humanidade nas telas da TV e do cinema. No cinema brasileiro, ninguém faz uma mãe sofredora como ela. “Toda mãe é sofredora. Vivo preocupada com os filhos. Se o meu, que ainda estuda, demora para chegar em casa, já quero sair gritando. Mas isso é a cara do Brasil.” E dê-lhe chorar. Mas tem todo outro tipo de mãe, aquela que, no fim do ano, matou o filho gay. “Aí é outra coisa, a ignorância que já falamos. E não creio que não seja sofredora.”

Como se preparou para a mãe de Redemoinho? “Em primeiro lugar, lendo o roteiro. E, depois, indo atrás do Luis Ruffato, lendo o livro dele que inspirou o filme, lendo os outros livros para me impregnar do seu universo.” E, claro, com o Zé (Villamarim), sempre tem o trabalho de preparação, coordenado por Chico Accioly. “O Chico faz um trabalho muito bacana.” Ela conhece o ‘barracão’ de Luiz Fernando Carvalho - já visitou -, mas aqui é outra coisa. “O Chico constrói com a gente um altar. Você leva o que quer. Uma pedra, pode ser. E é sempre uma descoberta. Da gente, do personagem, dos outros.”

Ela ama o filme. “Senão, não estaria aqui. Estaria com minha filha.” O reencontro de dois amigos de infância, interpretados por Irandhir Santos e Júlio Andrade. Irandhir é filho dela na trama. Surgem as histórias mal resolvidas do passado. “É muito forte. Convida ao entendimento.” Nesta segunda, 6, Cássia começa a gravar, na Globo, o novo trabalho. “Estamos chamando de ‘Seriadão’. Uma história da repressão desde os anos 1970 até 1984. Faço outra mãe e na minha primeira cena vou estar visitando meu filho preso político. Vai ser uma mãe de classe. Quero fazê-la bem elegante.” Também na segunda, vai reunir em casa amigas como a grande Fernanda Montenegro. “Existe uma lei que permite que filhos de exilados venham para o Brasil, ao encontro dos pais. Mas existem essas 20 crianças sírias, órfãs de guerra, que não podem vir, porque não têm ninguém. Vamos nos encontrar para discutir o que fazer.” Cássia Kiss, Madre Teresa? “Mas tu tá implicando comigo”, e ela abre seu sorriso. É muito magra - veja as fotos -, mas isso tem sido assim desde que, há anos, parou com determinadas medicações. Magra, mas musculosa. “Não faço nada além de Pilates e meditação (ioga). Não vivo sem.”

ENTREVISTA - JOSÉ LUIZ VILLAMARIM

No ano passado, ele virou a unanimidade da TV brasileira. José Luiz Villamarim ganhou os maiores elogios pela minissérie Justiça, com texto de Manuela Dias. No Festival do Rio e na Mostra de São Paulo, outros tantos elogios por Redemoinho, que agora estreia - na quinta, 9. Uma rápida conversa com o diretor, na noite de pré-estreias do filme em Sampa.

Desde a mostra, como tem sido a vida de Redemoinho?

O filme passou em festivais internacionais e ainda não esgotou seu ciclo. Tem mais festivais para ir, no exterior. Fomos a Havana, Punta Del Este. Em Havana, foi uma loucura. Sessões lotadas, com milhares de espectadores. E lá vivi uma experiência curiosa. No final das sessões, muita gente vinha conversar. Enlouqueciam, quando sabiam que eu era da Globo, a tal ponto que amigos me aconselharam. Não fala mais da TV. Concentra no cinema. Guardei o que me disse um cubano. "Muy buena la película, pero muy fea."

Com um pouco de distância, o que você pode dizer hoje do filme?

Que foi o filme que quis fazer. Vânia (a produtora Vânia Cattani) e eu falávamos desse projeto há muitos anos. Foi bom que ele tenha amadurecido. Uma história muito forte (adaptada de Luiz Ruffato). George Moura foi fundamental no roteiro, tive esse elenco maravilhoso. Meu sonho inicial era ser arquiteto. Acho que vem daí o fato de ser tão formalista. E eu sou controlador. Crio um espaço, um tempo. E depois vou eliminando, cortando, reduzindo. Menos, até chegar à essência.

E os novos projetos?

Tenho um ou dois filmes em andamento, mas ainda não posso falar. Na TV, vou fazer o Super-sertão. Estamos chamando assim. Você viu o Cinema Novo, do Eryk (Rocha)? Quero buscar uma nova linguagem, uma nova forma para aquela representação do sertão. A Globo anda muito aberta para tudo o que ocorre na TV e no cinema. HBO e Netflix estão abrindo caminhos. Você tem de dominar a técnica, mas creio que o importante é ir contra a expectativa da indústria, contra a gramática dominante. Pra quem, cria, não tem nada melhor que essa febre.

 

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