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Em 'Entre Idas e Vindas' há a delicadeza do amor, mas o risco é o tom ‘menor’ não ser aceito

No filme, quatro mulheres estão numa viagem de despedida, porque uma delas vai se casar, mas justamente agora bate a indecisão.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

17 Julho 2016 | 06h00

Na entrevista acima, Ingrid Guimarães diz que o Brasil não tem tradição de fazer comédias românticas e que Entre Idas e Vindas, o novo longa de José Eduardo Belmonte, é uma espécie de comédia on the road, sobre encontros e desencontros amorosos. O filme é uma ‘espécie de’, sim, mas qualquer tentativa de lhe aplicar rótulos cairia no reducionismo. Desde A Concepção, de 2005, Belmonte não apenas tem mantido uma regularidade impressionante em sua trajetória, em termos de cinema brasileiro – fez seis filmes desde então –, como tem mudado o registro e feito coisas novas.

A ideia de Entre Idas e Vindas veio de seu filho, mas Belmonte desenvolveu o roteiro com Cláudia Jouvin, com quem trabalhou em O Gorila, de 2012. Mas, na verdade, o projeto é anterior e demorou muito para ser concretizado. Virou um filme mítico. Quatro mulheres na estrada, numa viagem de despedida, porque uma delas vai se casar, mas justamente agora, quase a caminho do altar, bate a indecisão. A perspectiva feminina (feminista?) sofre um abalo quando entram em cena pai e filho, a quem elas dão carona.

O homem desestabiliza o universo dessas mulheres.

Cria-se um clima entre Fábio Assunção e Amanda, a personagem de Ingrid. Quando a coisa parece que vai rolar, ele dá um passo em falso, com outra das garotas. Todo mundo já sofreu de dores de amores. A noivinha está furiosa porque o quase marido foi para a cama com sua prima. Outra garota nunca ouviu uma declaração de amor na vida e Amanda... Ela tem um segredo, que termina por revelar.

Mesmo não querendo, as pessoas se fazem mal. Ferem-se. A pergunta que atormenta Fábio Assunção e não quer calar: por que sua ex-mulher o abandonou e ao filho. O reencontro, quando as coisas, enfim, são ditas, dá todo o sentido aos conflitos até então esboçados e incompletos de Entre Idas e Vindas. Mas ainda não é o fim da história, até porque, se é de estrada, a metáfora é de vida e só vai terminar na morte, que está fora dos limites do universo de Belmonte, nesse filme, pelo menos.

Entre Idas e Vindas é sobre perdão e, embora venha sendo gestado há muito tempo pelo autor – longos anos –, o fato de chegar aos cinemas justamente agora, numa fase de polarização (ainda) da vida brasileira, dá-lhe ares de filme político, mesmo que os conflitos sejam íntimos e afetivos. Fale com todas, e com cada uma das atrizes, e elas dirão que fizeram o filme pelo ‘processo’. O filme on the road foi sendo parcialmente inventado na estrada, pelo diretor e seu elenco.

Dentro do trailer, Belmonte colocou a câmera na mãos das atrizes para que elas captassem imagens que ele depois integrou ao relato. Isso cria a sensação de improvisação, mesmo que o filme seja muito menos improvisado do que parece. É um belo filme sobre afetos, sentimentos, sobre amizade. Havia o risco de que nada desse certo. Tudo deu. O risco maior é agora, por causa de Ingrid, o público tomar por blockbuster o que é ‘menor’, por opção, e se decepcionar por isso.

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