Em DVD, um outro Pearl Harbor

Hollywood ingressou nos anos 70 em guerra. Patton recebeu os Oscars de melhor filme e direção (Franklin J. Schaffner) daquele ano e, a estes prêmios, num total de sete, incorporou o de ator para George C. Scott, por sua interpretação do polêmico general sobre quem o título brasileiro lança a dúvida, pertinente, por sinal - Rebelde ou Herói? Patton não foi o único filme de guerra a brilhar no Oscar daquele ano - os efeitos visuais também renderam uma estatueta a Tora! Tora! Tora!, de Richard Fleischer, Toshio Masuda e Kinji Fukasuku. Os dois e mais O mais Longo dos Dias, o épico de Darryl Zanuch sobre a invasão da Normandia pelos aliados, integram o novo pacote de DVDs da Fox já nas locadoras e lojas especializadas. Cada um deles oferece, entre os extras, além das tradicionais seleção de cenas e escolha de legendas, os trailers dos outros dois e o disco duplo de O mais Longo dos Dias ainda traz um documentário sobre o Dia D. Por melhor que seja o filme produzido por Zanuch, Tora! Tora! Tora! merece destaque pelo simples fato de reconstituir o mesmo evento que está no centro de Pearl Harbor, a megaprodução que estréia amanhã em 300 salas de todo o País.Com O mais Longo dos Dias, de 1962, o superprodutor Darryl Zanuch quis reconstituir, com realismo documental, o célebre Dia D. Três diretores revezaram-se sob a orientação do próprio Zanuch (Bernhard Wicki, Ken Annakin e Andrew Marton) e o filme recriou os acontecimentos do ângulo dos alemães e das forças conjugadas contra o Eixo. Por mais impressionante que seja a abertura de O Resgate do Soldado Ryan, o parque temático de Steven Spielberg, com todo o seu show pirotécnico, perde para a reconstituição de Zanuch, muito mais intensa no verismo do seu realismo em preto-e-branco. É um dos últimos grandes épicos sobre a 2.ª Guerra e, embora episódico, com diversos astros em pequenas participações, totaliza uma idéia do homem no mundo (e no contexto bélico): John Wayne como o soldado-guerreiro, Henry Fonda como o burocrata e Richard Burton como o guerreiro-Hamlet, que reflete sobre o ser ou não ser da guerra, transformam O mais Longo dos Dias em algo mais que um show de efeitos visuais e fotografia (os dois Oscars que o filme recebeu).Tora! Tora! Tora! surgiu, quase dez anos depois, nas pegadas de "O mais Longo dos Dias". Depois de investir pesado na reconstituição do Dia D, a Fox investiu em outra reconstituição dramática - a do ataque japonês a Pearl Harbor. Ao contrário da nova versão, a anterior procura recriar os fatos da forma mais acurada (e menos partidária) possível. Um diretor americano (Fleischer) encarregou-se da parte ocidental, dois diretores japoneses (Matsuda e Fukasuku) da oriental. O próprio Akira Kurosawa deveria reconstituir a parte japonesa desta epopéia, mas o mestre abandonou o projeto, alegadamente por motivos de saúde, após dois meses de preparativos.Até por essa duplicidade da equipe artística, Tora! Tora! Tora! não tem o tom patriótico e ufanista de Pearl Harbor, que segue a trilha de Apollo 13, de Ron Howard, transformando outra derrota americana em trampolim para a vitória dos EUA no chamado "concerto das nações". O filme é bem-feito, possui forte tensão e as cenas do ataque, que ocupam os 40 minutos finais dos 142 da produção, chegam a ser assustadoras no seu realismo, no fundo, antibélico. Tora! Tora! Tora! não poupa críticas ao despreparo, à falta de planejamento e aos erros estratégicos dos americanos no teatro de operações do Pacífico. Pearl Harbor também faz essas críticas, mas elas ficam comprometidas pelo partidarismo da análise, que só leva em conta o lado americano da questão. Acentuam o caráter de vítima da América.Tora! Tora! Tora! põe mais ambigüidade nas relações entre personagens de cada lado. O filme foi tão bem planejado que a rodagem durou menos (11 dias) que o previsto no cronograma e o custo também foi inferior ao budget inicial, ridículo em relação aos US$ 140 milhões que a produção de Bay consumiu (e ainda foram inchados por mais e mais milhões dispendidos na vultosa campanha de comercialização de Pearl Harbor). Ou seja: tudo aquilo que não funciona na megalômana Hollywood de hoje, onde estourar prazos e orçamentos virou ponto de honra do cinemão. Seria um problema deles se Hollywood não dominasse os mercados mundiais e o brasileiro, em particular, usando esse espaço para veicular mensagens patrióticas que são da América do Norte, não do Sul.Fleischer, que defende seu filme como "autoral", disse que no caso de Tora! Tora! Tora!, a Fox deixou que ele fizesse como queria, ouvindo todos os lados para garantir uma visão multifacetada de um episódio tão sujeito à polêmica. Foi o que a Fox não deixou que ele fizesse em Che!, seu épico sobre o guerrilheiro argentino-cubano que morreu na Bolívia. Fleischer é o primeiro a dizer que não tem do que se envergonhar com seu filme sobre Pearl Harbor. A imagem e o som perfeitos do DVD são um estímulo para que você veja o filme e compare com o de Bay.O mais Longo dos Dias, Tora! Tora! Tora! e Patton, Rebelde ou Herói?. Todos lançamentos da Fox. Nas lojas e locadoras, R$ 55 (o primeiro e o terceiro), R$ 38,50 (o segundo).

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