Em DVD, o melhor do cinema checo

Foram os anos de glória do cinemacheco. Em 1965, A Pequena Loja da Rua Principal, de JanKadar e Elmar Klos, recebeu o Oscar de melhor filme estrangeiro.Dois anos depois, o cinema checo bisou o feito com TrensEstreitamente Vigiados, de Jiri Menzel. Não era só o prêmio daAcademia de Hollywood que se rendia ao brilho e inteligência docinema da Checoslováquia. Em todo o mundo, filmes como Um Dia,Um Gato, de Vojtech Jasny, e Os Amores de uma Loira, deMilos Forman, eram reverenciados pelos críticos e adorados pelopúblico. Tudo isso agora ficou para trás, mas é possível viajarno tempo em busca do encanto de uma cinematografia que marcou osanos 1960. Você pode fazê-lo graças ao pacote de DVDs daContinental que traz justamente a Loira e A PequenaLoja.Milos Forman se constitui num caso muito interessante.Já era o maior diretor da Checoslováquia, o mais importante danouvelle vague checa, quando, forçado pelas circunstânciaspolíticas, emigrou para os EUA, virando um grande cineastaamericano. O Big Five, a consagração dos cinco principais Oscars de Um Estranho no Ninho foi precedida pelo vigor crítico deProcura Insaciável e depois vieram Amadeus, Na Épocado Ragtime - o maior ataque ao racismo feito por Hollywood -,O Povo contra Larry Flint e O Mundo de Andy. Nenhumpasso em falso num currículo sempre brilhante. O relativoinsucesso de Valmont pode ser explicado pelo fato de que aversão de Forman para o romance epistolar de Choderlos de Laclos surgiu ao mesmo tempo que a de Stephen Frears - LigaçõesPerigosas - e sem o cinismo da outra, que o público preferiu.Em 1965, na época da Loira, Forman era um diretor de 33 anos (nasceu em 1932) que gostava de dizer que só fariafilmes sobre jovens, porque eles eram mais honestos e puros queos adultos. Loira foi precedida por Pedro, o Negro e emambos Forman colocou na tela, com realismo e humor (nãodesprovido de certa amargura), a rebeldia dos jovens checos dosanos 1960. A loira, interpretada por Hana Brejchova, trabalhanuma fábrica nos arredores de Praga. Não existem muitos homensno lugar. Não existe nenhum que se encaixe nos parâmetros queela estabeleceu para o seu homem ideal. E, então, chega à cidadeum destacamento de soldados. São velhos, mas entre eles há um, omais jovem, que toca piano na banda militar. Vira o amor daloira e Forman usa a relação da personagem de Hana com os homens, o trabalho, a família e a cidade para fazer um filme reveladorsobre a sociedade checa da época.A Pequena Loja é de outra inspiração. O tema dosdiretores Kadar e Klos é o colaboracionismo com os nazistas,durante a 2.ª Grande Guerra, quando a Checoslováquia foi ocupadapelos alemães. Há essa velha judia que possui a pequena loja narua principal. E há esse homem que colabora com os alemães,movido pelo secreto desejo (não tão secreto assim, você vai ver)de se apossar da loja. Kadar teve uma juventude difícil: foiobrigado a trabalhar num campo de concentração. Conheceu todo ohorror da guerra e o expressou, em parceria com Klos, em filmescomo O Anjo da Morte (ex-O Anjo da Morte se ChamaEngelchen), sobre comandante nazista que oprime os checos. Adupla filmava o horror da guerra, mas cultivava um humorpeculiar, o que faz de A Pequena Loja um dos precursores deA Vida É Bela, de Roberto Benigni.Hoje, a Checoslováquia se chama República Checa eEslováquia e ninguém mais dedica ao cinema checo a atenção queele merecia há 40 anos. Naquele tempo, mais do que qualqueroutro país do Leste Europeu, a Checoslováquia realizava naprática o sonho de um socialismo democrático, que terminouabruptamente quando os fascistas, vestidos de vermelho,invadiram Praga com seus tanques, em 1968. A chamada Primaverade Praga foi um sonho que durou pouco, mas permitiu que artistascomo Forman, bebendo na fonte da nouvelle vague francesa,fizesse um cinema libertário e crítico em relação à burocraciastalinista.Após a invasão soviética, Forman partiu para os EUA e sedeu bem no cinema americano. Kadar também foi para a América,mas não se deu tão bem. Morreu em 1979, depois de fazer doisfilmes, O Anjo Levine e Lembranças da Minha Infância: noprimeiro, um anjo negro baixa à Terra para redimir judeu queperdeu a fé; no segundo, a história de uma família judia, numbairro pobre, é vista pelos olhos de um garoto. E não se falouna animação checa, marcada pelas experiências de Jiri Trnka commarionetes, a partir de 1945. Esse é outro capítulo que vocêpode conferir em outro lançamento em DVD da Continental, odeslumbrante O Rouxinol do Imperador da China, que Trnka fezem 1948. Só para completar: os DVDs de A Pequena Loja e daLoira são enriquecidos com biografias, filmografias e osegundo ainda tem cenas inéditas.Os Amores de uma Loira. Checoslováquia, 65.A Pequena Loja da Rua Principal (Obchod na Korze). Checoslováquia, 65. Pacote de DVDs da Continental, R$ 64 (cada disco, R$ 33).

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