EFE/Melinda Sue Gordon/Warner Bros
EFE/Melinda Sue Gordon/Warner Bros

Em 'Dunkirk', Christopher Nolan faz da catástrofe militar de Dunquerque uma epopeia digna de Ford

Estrutura circular realça enormidade da tragédia que diretor escolheu recriar no longa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

27 Julho 2017 | 06h00

Em agosto de 2015, Joshua Levine conta em seu livro Dunkirk - A História Real por Trás do Filme, Christopher Nolan marcou um encontro com o desenhista de produção Nathan Crowley na praia de Dunquerque. Andaram por ali, (re)conhecendo o espaço. Nathan disse a Levine - “Já estávamos meio cansados, mas a caminhada foi essencial para a compreensão do filme.” A definição do espaço. O filme começa sob o signo da urgência. Um grupo de soldados avança pelo perímetro urbano. Torna-se alvos de um inimigo que Nolan não mostra. O tiroteio é intenso. Cai um, caem dois, três. Tommy corre desenfreadamente. Chega à barreira dos aliados, que transpõe. Avança e é através do seu olhar que Nolan descortina a praia a perder de vista. O teatro de operações.

Nathan definiu para Levine o sentido de Dunkirk - “O movimento circular do filme, o eterno ‘dia da marmota’ para os soldados que saíam da praia, mas tinham seus barcos afundados e tinham de voltar.” O molhe, o mar e o ar. O mar sem navios, os soldados acuados, vítimas fáceis para o bombardeio aéreo dos alemães. Alguns poucos Spitfires, os aviões dos britânicos. Tommy na praia. Mark Rylance e o filho no barco civil e Tom Hardy no ar. Não sabemos muito, quase nada, sobre nenhum desses personagens, mas sabemos o essencial sobre o papel que cada um terá nessa verdadeira epopeia. Um casal, Nolan e a mulher, a produtora Emma Thomas, armou todo esse circo. A ideia foi dela, mas coube a ele ter a visão do que poderia ser o filme.

Dunquerque já apareceu pontualmente em alguns filmes, mais recentemente em Desejo e Reparação, que Joe Wright adaptou do romance de Ian McEwan. Além de pouco conhecido, na ‘América’, o episódio carrega o peso de uma derrota, uma catástrofe militar. Dois elementos praticamente impossíveis para uma empresa cinematográfica dos EUA. Nolan e Emma insistiram, convencidos da universalidade de sua história. Salvar aqueles homens, naquela praia, mudou o curso da 2.ª Guerra. Ninguém soube disso melhor que o próprio Winston Churchill, que manipulou, no Parlamento, o estado de espírito do país ao receber seus rapazes de volta. As retiradas, com certeza, não foram vitórias militares, mas conseguiram o milagre de uma ‘libertação’.

Para muitos historiadores, Dunquerque virou uma experiência quase religiosa para o povo britânico. Numa guerra que parecia perdida, e dentro da maior adversidade - uma derrota -, aquele foi o momento em que as coisas começaram a andar bem. Malgrado o caos, centenas de milhares de vidas foram salvas. O roteiro não fantasia. Mistura histórias de covardia com outras que inspiram compaixão. Mostra isso por meio das ações de Tommy e dos personagens de Mark Rylance e Tom Hardy. E ainda existe o almirante na ponte do molhe - o majestoso Kenneth Branagh. Ele olha, e Nolan não corta para o que está vendo. Momentos de angústia e relaxamento. Três tempos, um espaço. Três espaços, um tempo. Nolan já jogou com a perspectiva na criação do labirinto à M.C. Escher de A Origem. Faz isso de novo na complexidade da estrutura espaço/temporal de Dunkirk. É um grande filme. Estreia no mesmo dia de outro grande filme, completamente diverso - Em Ritmo de Fuga, de Edgar Wright. O cinéfilo só tem de se regozijar por isso.

 

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