VALERY HACHE|AFP
VALERY HACHE|AFP

Em dia de protesto contra impeachment, 'Aquarius' e 'Julieta' são exibidos em Cannes

Filmes de Kleber Mendonça Filho e de Pedro Almodóvar têm chance de levar a Palma de Ouro

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

18 de maio de 2016 | 04h00

CANNES - Na terça, 17, Aquarius, o longa de Kleber Mendonça Filho que concorre à Palma de Ouro, no Festival de Cannes, foi muito aplaudido na sessão de imprensa. À tarde, antes da sessão oficial, o destaque foi o protesto promovido pela equipe do filme, que cruzou o glamouroso tapete vermelho empunhando cartazes com dizeres como “Um golpe ocorreu no Brasil”, “Dilma, vamos resistir com você”, “54 milhões de votos foram queimados” e ainda “O Brasil não é mais uma democracia”. 

Ao entrar na sala de exibição, o grupo, que aproveitou a vitrine do maior festival do mundo para protestar contra o impeachment, abriu uma faixa na qual se lia “Parem o golpe no Brasil”. Pelo Twitter, a presidente afastada Dilma Rousseff agradeceu às manifestações de solidariedade. 

Segundo o diretor Kleber Mendonça Filho, “Aquarius também é um gesto em defesa do humanismo, contra a exploração do capital”. 

Foram belas sessões, para um belo filme. Kleber Mendonça Filho realizou com Aquarius um dos mais influentes filmes brasileiros recentes. Sua análise das relações sociais em O Som ao Redor terminou repercutindo em Casa Grande, de Fellipe Barbosa, e Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert. A tensão social continua presente em Aquarius, mas agora o foco está no redesenho urbano do Recife. 

Quem visita a capital pernambucana constata que a orla – a praia de Boa Viagem – virou reduto de espigões. Na ficção de Aquarius, Sonia Braga faz Clara. Ela é a última residente de um velho prédio que a incorporadora quer botar abaixo para construir uma torre. Clara sofre todo tipo de pressão, mas resiste. A pressão aumenta, mas ela tem um último gesto de guerreira.

Há três anos, Kleber vinha trabalhando no projeto, que esperava filmar no Aquarius, um dos últimos prédios antigos de Boa Viagem. Mas o Aquarius foi demolido e Kleber filmou no Oceania, último remanescente de uma Boa Viagem mais humana, menos americanizada (hoje todos os prédios se chamam Garden ou Tower alguma coisa). Roteiro escrito, Kleber reuniu-se com amigos e colaboradores para avaliar o projeto. Surgiu a pergunta que não queria calar. Quem vai fazer Clara? Um amigo sugeriu na lata – Sonia Braga. “Sonia Braga”, concordou o diretor. Ela topou e na terça, pela sexta vez, pisou no tapete vermelho de Cannes. Sonia já esteve aqui com os filmes Eu Te Amo, de Arnaldo Jabor, O Beijo da Mulher Aranha, de Hector Babenco, e Rebelião em Milagro, de Robert Redford. “Voltei depois como jurada e quando Mulher Aranha passou em Cannes Classics. Sou a única atriz que se tornou clássica em Cannes, mostrando o mesmo filme duas vezes”, brinca ainda a atriz. 

Se os aplausos servem como termômetro, Aquarius tem toda chance de integrar a premiação, que o júri presidido pelo cineasta George Miller, da série Mad Max, anuncia no próximo domingo, dia 22.

Comparativamente, os aplausos para o novo Pedro Almodóvar, Julieta, foram mais protocolares, mas o filme é belíssimo. Do ponto de vista do público, o espanhol já ganhou. Almodóvar compete há anos pela Palma. O autor como pop star. Ele pisa no tapete vermelho e o público imenso que se reúne em frente ao Palais para ver astros e estrelas grita seu nome como se fosse Tom Cruise. A cena repetiu-se com o elenco de Julieta. Almodóvar integra novas atrizes ao seu panteão – Emma Suárez, a belíssima Julieta Ugarte. Julieta é adaptado de histórias de Alice Munro, da coletânea Fugitives

O curioso é que, com as diferenças que possam ter, e têm, os filmes de Almodóvar e Kleber Mendonça Filho irmanam-se na celebração das mulheres. A Julieta de Pedro passa pelo filme escrevendo uma carta para a filha, que sumiu de sua vida há mais de dez anos. Sonia Braga/Clara atravessa um período bem maior – três décadas.

Julieta quer a filha. Clara quer a casa e isso significa resistir à modernidade do espigão capitalista. Esse gesto de Clara é a oferta do diretor para quem quiser entender o Brasil. Almodóvar centra-se nas questões afetivas e familiares. O filme é impregnado por influências/referências do diretor britânico Alfred Hitchcock. O trem, a trilha, as relações venenosas entre mães e filhas (ou filhos, em Hitchcock). Almodóvar cria suspense. Julieta sente-se responsável por duas mortes, mas, como não ocorrem assassinatos na trama, o thriller é muito mais um melodrama subvertido pelo suspense.

Godard. Também é curioso que, num festival cujo cartaz celebra O Desprezo – o filme mais clássico de Jean-Luc Godard, sobre um velho diretor (Fritz Lang) que quer fazer uma versão da Odisseia com estátuas –, Almodóvar faça de sua protagonista uma professora de literatura grega obcecada por Ulisses e seu encontro com a ninfa Calipso. É um momento da Odisseia em que Ulisses ameaça se perder e nunca voltar para Penélope. Clara conserva sua casa, Julieta troca a dela várias vezes, mas sempre na busca da filha. Julieta é uma particular (e feminina) versão da Odisseia. Seu tema é a culpa, e talvez o recomeço. O próprio Pedro Almodóvar veio confirmar o que se intui em seu filme – é chegado o tempo da reflexão. Julieta é um dos mais maduros (e dolorosos) do autor.

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