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Em 'Colo', cineasta portuguesa encara a crise econômica e mostra como ela corrói o afeto

Teresa Villaverde disse, em entrevista ao 'Estado', que fez este filme para Teresa para dar seu testemunho

Luiz Carlos Merten, Impresso

17 Dezembro 2017 | 06h00

Em cartaz em apenas uma sala da cidade, no Cine Segall, o longa Colo, da cineasta portuguesa Teresa Villaverde, é uma pérola rara. Como seu compatriota Miguel Gomes, Teresa encara a crise. Mas se Gomes buscou na fabulação de As Mil e Uma Noites sua forma de reinventar a crise econômica e o próprio cinema, Teresa vai na contracorrente da fantasia. Ambos os filmes têm pássaros, mas é só. O de Teresa constrói-se, espartanamente – minimalisticamente –, primeiro em torno de três personagens. Pai, mãe e filha. Depois agrega mais dois. O namorado e um estranho.

É um filme sobre uma família em crise, e a crise, na verdade, é a do país. O pai perdeu o emprego, a mãe tem dois empregos, com os quais sustenta a casa, e a filha fica no meio dos dois. A convivência é difícil, até forçada. O pai envergonha-se da sua situação, a mãe está sobrecarregada. E a filha só pensa em sair de casa. Justamente a casa. O apartamento vira um espaço desolado. Uma gaiola, como a do pássaro da garota.

Numa breve entrevista por telefone, Teresa contou sua intenção. “Para o bem de todos, os gritos de depressão e angústia deveriam vir como pedidos de socorro, mas não vêm. São silêncios, eu diria que em expansão. Foi isso que filmei.” O pai desespera-se e se envolve numa canhestra tentativa de roubo. Antes disso, colocou um balde na cabeça. E, depois, na cena da praia, entra sem roupa no mar. O abandono é patético.

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Para e espectador em busca de diversão, Colo não é o filme mais indicado. Vai descer mal com pipoca e refrigerante. Tamanho silêncio não combina com o barulho dos sacos de pipoca. Mas é uma experiência e tanto penetrar na miséria dessas pequenas vidas. A música entra pontualmente – num show, por exemplo. Há algo dessa desolação em Pobres Diabos, o também belo longa brasileiro de Rosemberg Cariry, mas esse se passa num circo mambembe, no sertão, e tem uma acurada pesquisa musical. Em Teresa ouve-se o som do silêncio. É um filme sobre fantasmas. A falta de dinheiro corrói a dignidade e o afeto. A trama desvitaliza-se e a falta de perspectivas futuras paralisa as pessoas.

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Tudo isso pode parecer cansativo, desanimador, mas é aí que entram o mistério e a poesia do cinema. Teresa Villaverde filma com rigor, e ousadia. Seus movimentos de câmera são elegantes e precisos, mas ela nunca se preocupa em embelezar a cena. As cores são mortas, o céu cinzento. Um sentimento parecido de esgotamento atinge o garoto do russo Loveless, de Andrey Svyagintsev, que acaba de ser pré-selecionado para o Oscar, e lá ele desaparece. Aqui, malgrado as dificuldades, os personagens permanecem. No desfecho, a casa – outra casa – torna-se decisiva. Não é um fim tradicional, que venha a resolver o drama. Abre outra lacuna, mas esse olhar da câmera sobre a casa, como se a investigasse, abraçasse, é feito de profunda compaixão. Teresa entende a dor humana. É seu material, que ela trabalha com sensibilidade.

‘As pessoas da minha geração são as que mais sofrem’

Teresa Morais Villaverde Cabral, ou simplesmente Teresa Villaverde, como assina seus filmes, tornou-se conhecida com Três Irmãos, de 1994, com Maria de Medeiros, Laura del Sol, Luiz Miguel Cintra e o russo Yevgeny Sidikhin. Maria foi melhor atriz em Veneza – Taça Volpi – pelo papel. Teresa dirigiu depois Os Mutantes, Transe, As Pontes de Sarajevo.

Seus filmes possuem todos a mesma pegada – vidas tristes, desoladas. Numa entrevista por telefone, de Lisboa, Teresa disse que não fez Colo para discutir o que é certo ou errado, na vida das pessoas e das famílias. O que ela quis foi dar seu testemunho.

“Nossa economia melhorou um pouco, mas os jovens que se formam ainda tem dificuldade para conseguir emprego. E a situação é muito pior para pessoas na faixa dos 40, 50 anos – tenho 51 –, porque com essas o mercado é cruel. As pessoas que veem Colo não me dizem que é a história delas, talvez por vergonha, mas todo mundo conhece alguém assim. Mas eu não quero passar um sentimento de derrota.”

A diretora acrescenta que Portugal é um país muito bonito, e caloroso. “Muita gente, inclusive aí do Brasil, vem para cá para construir a vida, e consegue. O que me preocupa é a minha geração. Bem ou mal, faço meus filmes. O importante é refletir.” 

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