Em casa ou no cinema, a magia de Amélie Poulain

Pode ter sido vingança de Hollywoodcontra a Miramax, a França, mas o Oscar não veio coroar acarreira de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, que estásaindo em vídeo e DVD pelo selo Imagem e continua em cartaz emuma só sala em São Paulo. Era o que as revistas de cinema maispopulares da França anunciavam em março: e agora só falta oprêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas paraconsagrar a fantasia de Jean-Pierre Jeunet. O Oscar foi paraTerra de Ninguém, de Denis Tanovic. Os franceses podem ter-sedecepcionado, mas a premiação fez a festa, por exemplo, de LeonCakoff. O organizador da maior festa de cinema em São Paulo - aMostra Internacional - fez questão de lembrar a todo mundo que agênese daquele filme começou aqui mesmo, num encontro de juradosdo evento que promove.Não à Miramax, à França. A empresa com freqüência éacusada de manipular os votantes da academia. Teria feito istoquando Shakespeare Apaixonado levou a estatueta, mas não setrata de um bom caso para denunciar a capacidade de manipulaçãoda Miramax. Seus detratores alegam que Shakespeare roubou oOscar que era de Steven Spielberg, por O Resgate do SoldadoRyan. Ora viva a Miramax. Shakespeare Apaixonado é milvezes melhor do que o parque temático que Spielberg construiupara evocar o desembarque dos aliados na Normandia. Ao derrotarAmélie Poulain, a academia também teria feito uma desfeita àFrança, hoje em dia o país que mais contesta a hegemonia deHollywood (com exceção da Índia, claro).Hollywood domina os mercados de todo o mundo. A Françaresiste. A produção nacional chega a ocupar 40% do própriomercado e, no ano passado, graças ao sucesso de AméliePoulain e O Pacto dos Lobos, quase bateu nos 50%.Hollywood é sempre sensível ao sucesso de público dos filmesindicados para o Oscar de melhor produção estrangeira nos paísesde origem. Ignorou o fabuloso êxito de Amélie e preferiupremiar um filme miúra, um filme pequeno. Essa história devingança pode muito bem ser enganosa e a academia simplesmentevotou com decência - ou ainda impactada pelo efeito devastadordo 11 de setembro. Terra de Ninguém, afinal, trata da guerra, numa perspectiva crítica e humanista.Seja como for, o Oscar não veio coroar a carreiranotável de Amélie Poulain, que, na França, bateu a marca dos8 milhões de espectadores e, em toda a Europa, fez quase otriplo, estourando também num mercado tão distante quanto ojaponês. Pode-se discutir a estética publicitária que está nabase do trabalho do diretor Jeunet, desde que ele se iniciou emdupla com Marc Caro. Fizeram Delicatessen e Ladrão deSonhos, depois Jeunet foi cooptado por Hollywood e fez oquarto filme da série Alien, antes de tentar decifrar ofabuloso destino da pequena Amélie Poulain.Magia - É um filme que defende a necessidade de fantasiano cotidiano, como arma para evitar a banalização da própriavida. Como tese, é interessante, ainda mais que Jeunet nãodefende exatamente o mesmo tipo de fantasia que Hollywood, comomáquina de criar sonhos, tenta impor aos espectadores de todo omundo. Mas a demonstração da tese vem envolta numa realizaçãoque, sendo extravagante, não é da melhor qualidade. Mas convémnão ser excessivamente rigoroso com Amélie Poulain. É umfilme de mulheres, o que podia ser conferido quando o filme deJeunet arrastava multidões às salas do Unibanco Arteplex. Asmulheres constituíam o público mais numeroso, eram elas quearrastavam os companheiros e saíam do cinema de olhosbrilhantes. E é um filme iluminado por uma atriz. Sem os olhosde Audrey Tautou, que transmitem assombro e ingenuidade, nãoseria a mesma coisa.Amélie, a personagem, leva uma vida sem graçatrabalhando num café parisiense até o dias em que conhece Nino,o personagem interpretado por Mathieu Kassovitz, o ator ediretor de O Ódio. Nino trabalha numa sex shop. Vira apaixão de Amélie, mas a aproximação entre os dois é um tantodifícil. Para contar essa história, o diretor Jeunet poderia teradotado o formato da comédia romântica e o filme não deixa deser uma. Só que ele não a conta no estilo tradicional deHollywood. Por exemplo, ele recua no tempo até o momento em queAmélie era uma menina que sofria com a frieza do pai. Ele só seaproximava dela para medir a pressão, a temperatura. Como cadavez que ele se aproximava dela, o coração de Amélie disparava deemoção, criou-se o mito de que ela teria problemas cardíacos. Háuma profusão de personagens bizarros e excêntricos e há umavontade de mostrar a cosmopolita Paris filtrada com um encantoretrô, como se fosse (é) uma cidade de fantasia. Tirando osnoves fora, pode-se não gostar de Amélie Poulain, mas éforçoso reconhecer que o filme de Jeunet acrescenta alguma coisaàs pessoas. Se não fosse assim, como explicar seu fabulososucesso?O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le FabuleuxDestin de Amélie Poulain). França, 2001. Vídeo e DVD (R$ 50) daImagem, nas locadoras.

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