Em cartaz, um ácido retrato da sociedade americana

Com o circuito de cinema quase todotomado pela fantasia e pelo escapismo (Harry Potter, OSenhor dos Anéis, Monstros, Xuxa etc.) ficou só umafatiazinha para o real. Sorte que ela é bem ocupada, por umfilme-pancada como Histórias Proibidas, de Todd Solondz. Sevocê freqüenta a Mostra de Cinema de São Paulo, ou o circuitoalternativo da cidade, já conhece a figura. Solondz é um bad boydo cinema americano. Em filmes como Bem-vindo à Casa deBonecas, Felicidade e agora Histórias Proibidas, eleage como aquele tipo de artista que gosta de colocar água nochope alheio.Um estraga-prazeres? Não necessariamente. Simplesmenteum desses caras que acham que vale a pena captar o mal-estar nacivilização e colocá-lo sob forma de imagens. O alvopreferencial de Solondz continua sendo a família de classe médiaamericana, seus sonhos, suas hipocrisias, a intolerância malcontida sob o verniz do discurso politicamente correto. Ospersonagens são duvidosos, oblíquos. Alguns parecem cínicos,outros ingênuos, outros simplesmente abobalhados. Mas nenhumadas situações que encenam deixa de ser crível. Às vezes sãocríveis até demais, como numa tela hiper-realista.O olhar cruel de Solondz recai sobre a comunidade de NewJersey em dois segmentos distintos. A primeira história, umaespécie de prólogo, dura apenas 26 minutos. O diretor chama-o de"ficção". Mostra uma classe de estudantes de literatura,dirigida por um professor negro, Scott (Robert Wisdom), durão,mulherengo e vencedor de um prêmio Pulitzer. Um dos alunos,Marcus (Leo Pitzpatrick), sofre de paralisia cerebral, temesgares faciais e tenta ser escritor, como o mestre. Semsucesso. A namorada de Marcus, a loirinha Vi (Selma Blair),depois de lutar com suas tendências racistas, consegue seenvolver com o professor. Como a relação acaba sendo um tanto ouquanto traumática, ela procura exorcizá-la por meio de um textoescrito. Aprende então duas ou três coisas sobre a diferençaentre realidade e ficção. Esse prólogo é o aquecimento para oque virá a seguir, a história principal.Esta, a segunda parte, é chamada de "não-ficção". Ospersonagens principais são os integrantes de uma família de NewJersey, pai (John Goodman), mãe (Julie Hagerty), o "herói" dahistória, Scooby (Mark Webber), e seus irmãos, Brady (NoahFleiss) e Mikey (Jonathan Osser). Zela pela felicidade geral aindefectível governanta latina, Consuelo (Lupe Ontiveros), umasalvadorenha diligente e com cara de sofredora.Como Scooby se torna de fato o "herói" dessa história,ou pelo menos o seu protagonista? Simples: um cineasta inicianteresolve documentar um típico jovem norte-americano, com suasperplexidades e vacuidade, e Scooby veste direitinho oestereótipo. É o que se poderia chamar de idiota funcional,embrutecido pelo consumo e pela indiferença, talvez pela droga.Não sabe em que mundo vive, não pensa em escolher carreira, nãose liga a ninguém, sonha vagamente em ser famoso. Quer serapresentador de TV, ter um talk show, receber e-mails das fãs,essas coisas, como se caíssem do céu. Ou seja, vive no mundo dalua, como se dizia.Em entrevista, Todd Solondz disse certa vez que um dosseus filmes favoritos, e o que mais o influenciara em início decarreira, era Los Olvidados, um clássico de Luis Buñuel. Nãohá como comparar um cineasta com outro e uma influência é sóisso - uma afinação de registro com alguém a quem se admira. Mas enfim, esse filme de Buñuel, feito no México, acompanha umgrupo de garotos de rua, e mostra a vida deles com toda acrueza. O diretor tem compaixão por seus personagens, mas nãodeixa de notar a crueldade de alguns dos seus comportamentos. Oponto de vista humanista (mas não carola) não precisa ignorar acomplexidade dos personagens, sua ambigüidade, seus paradoxos.Nem o absurdo das situações em que se metem. Essa é uma lição dopeculiar surrealismo de Buñuel, provavelmente bem assimilada poresse longínquo discípulo norte-americano.Há uma verve ácida em Histórias Proibidas, e Solondznão deixa de notar os absurdos de uma sociedade intrinsecamenteviolenta, mas que disfarça seus instintos sob a polidez e oeufemismo. É, sobretudo, uma sociedade autocentrada, imperial,que se compraz com divagações em torno do seu umbigo. Porexemplo, uma das especialistas que depõem para o documentáriosobre a família de Scooby cita um estudo segundo o qual oadolescente norte-americano em fase de escolha de profissão ésubmetido a um estresse maior do que um habitante de Kosovo sobbombardeio. Não é interessante?Curiosamente, Histórias Proibidas causou polêmicanos Estados Unidos, mas por motivo inesperado. Sabia-se, antesdo seu lançamento, que uma rápida cena mostrava ao longe aimagem do World Trade Center. Houve pressão para que as torresgêmeas fossem apagadas digitalmente, mas o diretor se opôs. Deuuma declaração corajosa, deplorando, é claro, o atentado de 11de setembro, mas ponderando que achava nefasto esse tipo deexcesso de zelo. Garantiu que iria lutar para manter a imagem nofilme. Ganhou, pelo menos na cópia que chega ao Brasil. Quem forao cinema verá o WTC ao longe, numa cena relâmpago.Esse caso é emblemático. Mostra como se pode deslocaruma discussão e botar o principal para escanteio. Por maistraumático que seja o atentado, por que a imagem do WTC deveriaser apagada do filme? Sobretudo de um filme que discute coisastão importantes como a violência implícita numa famíliapatriarcal, a falta de alternativas para a juventude, amanipulação das imagens em proveito dos próprios realizadores?Sim, porque, para quem se interessa pelo assunto,Histórias Proibidas traz também uma discussão adicionalsobre o problema do roubo das imagens na sociedadecontemporânea. O bobalhão Scooby só vê uma coisa diante de si,em meio à névoa mental em que vive: quer ser famoso. Quer serimagem. Por isso é presa fácil de um cineasta que,bem-intencionado de início, não hesita em transformar seupersonagem em palhaço. Qualquer um pode estar contando sua vidaa sério para uma câmera de vídeo e depois ser transformado ematração de circo para um grupo de espectadores entediados epotencialmente cruéis. É o que acontece de maneira deliberadanos shows da vida, nos assim chamados reality shows, cujo maiortrunfo é o sadismo latente do público.Essa revelação só acontece para Scooby no final. E aindaassim sob a forma de engano, de equívoco, como o desfechoambíguo mostra ao espectador. "Histórias Proibidas" é um filmeincômodo e interessante. A crueldade de superfície não esconde avocação crítica do diretor. Uma vocação pouco estimulada e acada dia mais rara, convém lembrar.Histórias Proibidas (Storytelling).Drama. Direção de Todd Solondz. EUA/2001. Duração: 83 minutos.12 anos.

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