Em cartaz, o filme mais maduro de François Ozon

Uma mulher vai passar um fim de semana na praia com o marido. Ele vai tomar um banho de mar, elafica ao sol. Ele desaparece e nunca mais volta. Este é o fio de história de Sob a Areia, novo longa-metragem do francês François Ozon que estréia amanhã.O filme é todo centrado sobre a figura de Marie, aprotagonista, interpretada por Charlotte Rampling. Ela é a mulher que "perde" seu marido, Jean (Bruno Cremer) e vê-se forçada a realizar um insólito trabalho de luto. Insólito porquenão há corpo sobre o qual chorar. Jean desaparece, a polícia busca, nada é encontrado. Todo o filme se equilibra sobre uma dúvida cruel, que é a dúvida da própria personagem: Jean seafogou, fugiu para outra vida, perdeu-se no mar, vai reaparecer?Em entrevistas, Charlotte tem contado que não haviapropriamente um roteiro. Ela mesma não sabia o que iriaacontecer em seguida e então a história foi se inventando àmedida que ia sendo feita. Não era angustiante, garante.Simplesmente criativo. Quer dizer, ela deveria encarnar umamulher movida, ou às vezes paralisada, pela dúvida. Era natural,portanto, que a atriz avançasse nesse caminho como alguém quenão conhece a trilha. É o que se pode chamar de ignorânciaprodutiva.E que só daria certo com uma profissional tarimbada comoCharlotte, experiente, densa, suficientemente segura de si paraseguir adiante mesmo quando não pode prever o passo seguinte.Fazia como manda aquele verso de Machado sobre o caminhante quenão tem um caminho mas o constrói ao andar.O principal tema do filme é o luto não realizado.Experiência terrível que conhece todo aquele que não pôde chorarum morto querido. A ausência do corpo impede que o trabalho doluto (a expressão é de Freud) seja completado. Há os entravesburocráticos porque enquanto o corpo não aparece a pessoa nãopode ser declarada viúva. Ou, pelo menos, existe um prazo, longo, antes que a situação legal se resolva. Mas isso não é o pior. Omais grave é que as pequenas cerimônias da morte têm de ser adiadas. Não se pode doar as roupas ou os objetos de uso pessoaldo desaparecido. Esperam-se notícias, sinais. A esperança voltae, com ela, adia-se mais uma vez o retorno à vida normal.Esses são dados da realidade. Acontece de fato compessoas que passaram por essa experiência - e os casos maispungentes vêm dos parentes dos desaparecidos políticos. No planocinematográfico, Ozon consegue resolver a contento essa situaçãode impasse. Traduz em imagens o estado existencial de Marie, queé o de suspensão.Não que ela fique trancada em casa, esperando pela voltaimprovável do marido. Não. Ela trabalha, sai com os amigos, atéarranja um namorado. Mas há algumas interferências estranhas.Quando janta com os amigos, para espanto deles fala do maridocomo se este fosse chegar a qualquer momento. Vai para a camacom o namorado e estranha a leveza do corpo dele - de fato, Jeané (ou era?) um homem gordo, corpulento, sólido. Talvez essasolidez, que a protegia do mundo, seja aquilo que mais falta aMarie. Por isso, também, será difícil para ela desprender-se dafigura do marido. Tão difícil que a silhueta de Jean aparecerápara ela, naquela que é a cena mais fraca do filme. Se tudocorre no campo da sugestão por que inserir essa seqüência que secoloca entre o cinema fantástico e o reles filme de fantasmas?Mas enfim, é um pequeno tropeço num trabalho feito dedelicadezas, sutil, interiorizado.Sob a Areia é o trabalho mais maduro de FrançoisOzon, diretor ainda jovem. Ele ficou conhecido aqui no Brasilpor seu primeiro longa Sitcom, uma sátira implacável damoderna família francesa, devastada, do seu próprio interior,por um instinto de morte que não chega a compreender. Ok, temabom, que o colocava em sintonia com Festa de Família, deThomas Vinterberg, um dos signatários do Dogma 95. MasSitcom era aquele tipo de projeto conduzido mais pelo desejodo realizador do que com seu real controle dos meios. Em outraspalavras, Ozon sabia eleger o tema urgente, mas este excedia asua capacidade de momento como diretor. Acontece.Depois rodou Les Amants Criminels, thriller que nãochegou ao Brasil e a crítica francesa classifica de"decepcionante". Veio então o belo drama Gotas d´Água sobrePedras Escaldantes, feito a partir de um roteiro inédito deRainer Werner Fassbinder. Um filme gélido, bem realizado, densoe agudo sobre o relacionamento homossexual entre um rapaz e umhomem mais velho. Toda a teatralidade presente na obra deFassbinder passa pela realização de Ozon. Relações amorosas sãovistas como relações de dominação e, em Fassbinder, essemecanismo é desnudado. Por isso vem à luz de maneira tão crua eàs vezes tão esquemática.Sendo fiel a Fassbinder, Ozon havia feito aquele que era, até então, seu melhor filme. Sob a Areia o supera. Tudonele parece mais natural, mais fluido e contido e assim a obrasurge como um objeto mais cristalino, transparente ao olhar doespectador. Mesmo que a história, como já se disse, se equilibresobre uma ausência. Para chegar a esse resultado, Ozon escolheuesse procedimento de obra em progresso, com o roteiro seconstruindo na filmagem, opção que, quando dá certo, confere aoresultado uma leveza inigualável.O apoio que não tinha de um roteiro completamenteestruturado foi buscado na atriz. Há um momento exemplar, em queMarie é chamada para reconhecer um corpo que permaneceu trêsmeses no mar e pode ser o do seu marido. Nada é visto peloespectador, mas todo o horror da decomposição orgânica passaunicamente pelo olhar daquela mulher. Olhar inesquecível de umagrande atriz.Sob a Areia (Sous le Sable). Drama. Direção de François Ozon. Fr/2001. Duração: 96 minutos. 12 anos.

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