Em cartaz, o cinema da boca do lixo

Bastante raras são hoje em dia as oportunidades para comentar e assistir ao cinema de Ozualdo Candeias. Menos (muito menos, diga-se) por alguma falta de seus filmes (como se estes não fossem dignos de interesse), claro, mas antes porque, como se sabe, o cinema brasileiro é pródigo em desperdiçar (há uma década Candeias não consegue realizar um longa-metragem) e esquecer seus talentos.No entanto, quando surgiu A Margem, em 1967 - e não muito depois, Meu Nome É Tonho, A Herança, isto é, o início da carreira - tudo parecia confirmar que estava criado e estabelecido um novo paradigma de filme brasileiro: com o Cinema Novo em crise, aparecia agora o cinema barato e experimental da Boca do Lixo, mais tarde chamado marginal - e logo em seguida Sganzerla, Reichenbach, Callegaro e outros tantos rodariam seus primeiros filmes. Não por acaso Jairo Ferreira - em seu livro Cinema de Invenção, o inventário crítico mais completo do "movimento" - situou Candeias como um "ponto de partida avançado".Havia nos filmes de Candeias a criatividade, certa improvisação e a observação social na melhor onda do cinema de ponta da época - mas essas impressões generalizantes só podem fornecer uma imagem pálida do que são seus filmes. Havia ali também algo que o fazia muito diferente dos demais diretores - seu estilo intenso e radicalmente despojado de filmar é de fato impossível de imitar, e não houve mesmo quem o tentasse - num sentido fascinante.Ocasião talvez única para tentar descobrir esse segredo é a Retrospectiva Ozualdo Candeias - 80 Anos, que começa hoje e prossegue até 11 de agosto ocupa as salas de cinema e vídeo do Centro Cultural Banco do Brasil. De A Margem, momento fundante do cada vez mais revalorizado cinema dito marginal (lembremos da ampla mostra Cinema Marginal e Suas Fronteiras, ocorrida em junho de 2001 também no CCBB), a O Vigilante (1992), serão exibidos dez longas, três médias e uma penca de curtas-metragens e vídeos. Trata-se de nada menos que a primeira mostra completa de Candeias, o que já constituiria um dado notável.Não convém, no entanto, esquecer da bela série de complementos às projeções, a começar pelo extenso livro-catálogo da mostra, Ozualdo R. Candeias. São cerca de 50 artigos de críticos e pesquisadores, uma extensa entrevista e diversos depoimentos inéditos de amigos e colaboradores nesses muitos anos à margem da estrada. Sem falar da exposição de fotografias feitas por Candeias na Boca do Lixo (muitas delas utilizadas no curta Uma Rua Chamada Triumpho), dos debates e das cópias novas e restauradas confeccionadas especialmente para o evento (com o apoio crucial da Cinemateca Brasileira e da Labo Cine). Tudo isso - a raridade e qualidade dos filmes exibidos, a curadoria esmerada - contribui para fazer da mostra programa obrigatório, principalmente para os espectadores sem preconceitos estéticos e cansados do cinema ornamental e acadêmico.Falar em poesia "menos", à maneira dos concretistas, a respeito de Candeias seria um caminho bastante claro e bastante rico para apre(e)nder seu cinema. Passando para o feijão com arroz - certamente mais ao gosto de Candeias -, digamos que talvez nenhum outro realizador nativo tenha levado tão a fundo o preceito do mestre Roberto Santos: "O cineasta brasileiro é obrigado a transformar a falta de condições em elemento de criação." Certamente estaríamos numa trilha muito mais interessante e frutífera do que citando um falso e suposto primitivismo (seja o que for que a expressão signifique além de esnobismo) muito atribuído a Candeias.A pecha um tanto equivocada, aliás, parece vir de uma intelligentsia muito alarmada com sua origem social: vindo de uma família pobre e tendo trabalhado anos como caminhoneiro, nada mais longe do arquétipo do intelectual de classe média do que Candeias (detalhes de sua biografia estão numa longa entrevista publicada no catálogo).A origem social, menos que empecilho (a pobreza, pensariam alguns, como sinônimo de ignorância), parece ser antes fonte de parte de sua originalidade. Candeias é um caso único no cinema brasileiro não apenas porque se ocupa em tentar registrar a margem da margem da sociedade: tantos outros diretores tentam o mesmo, quase sempre de maneira paternalista. Mas não aqui; há em suas imagens algo de muito particular, uma qualidade diferencial que de certa maneira só poderia emanar de um artista formado pela vida. Nesse sentido, é um cinema empírico (e não primitivo), fundado antes sobre a experiência (e na experimentação) do que em conceitos. Em suas fitas, os movimentos, as ações e personagens não apenas parecem - eles são. E ponto.Mas seu cinema, com essa textura de realidade intensa e incomum - não que seja estritamente realista, pelo contrário -, podia ao mesmo tempo ter também um pé em algo muito siderante, quase fantástico, de certa maneira até estranho. Vide A Margem, que conseguia a bela proeza de conjugar certa objetividade do olhar (o que o ambiente precário das margens do Tietê favorecia enormemente) com uma visão altamente estetizada, transcendental e mesmo, pode-se dizer, íntima (a primeira metade do filme é toda construída em lindos e nada simplórios planos subjetivos) que muito lembra o Limite de Mário Peixoto.Não que exista contradição; antes, chegamos a outro ponto fundamental para absorver este cinema: há uma liberdade total de tratamento que extrapola - desafia - todos modelos, todos preconceitos, todos critérios (inclusive e, talvez, principalmente, o de "bom" cinema). É uma aventura criativa - como também uma estratégia de subversão, uma vez que Candeias se recusa a cada fotograma a trabalhar dentro das normas. Ou melhor: porque trabalha exatamente no sentido contrário, invertendo as expectativas, desarrumando o que está arrumado demais.Dessa maneira, faz-se a redenção possível (isto é, na ordem da representação) de tudo aquilo que é considerado esteticamente menor e socialmente pouco importante. Trata-se de um cinema pobre de recursos, subdesenvolvido - sempre rejeitado pelos fetichistas da superfície e dos efeitos - mas sempre afirmativo. Pois se há uma baixa temperatura em recursos de produção, por outro lado a temperatura informacional e estética é das mais altas.Lembremos, por exemplo, de A Herança (1972), adaptação do Hamlet de Shakespeare (aliás, Omeleto) feita praticamente sem diálogos (há, porém, um To be or not to be antológico que faria Oswald de Andrade morrer de inveja), isto é, reduzida a um estado elementar de folha de parreira. Consta que assim A Herança ficou - sem falas e, em seu lugar, ruídos de animais - porque a dublagem era muito cara (!), mas pouco importa. Nem por isso se trata de um filme desprezível, pelo contrário: seria este o supra-sumo da simplificação criadora de Candeias? O tema da reforma agrária mais do que se insinua (Candeias disse uma vez que "livrou a cara do Hamlet"); e como não ver, nessa tartamudez dos camponeses, a mesma "metáfora lancinante" da falta de eloqüência um Vidas Secas?Ou lembremos ainda dos curtas Uma Rua Chamada Triumpho (em duas versões) e BocadoLixo/Cinema, espécies de quem é quem da nossa indústria de cinema precária que era a Boca do Lixo, feitos com pontas e sobras de negativos vencidos.Não esquecendo de Zézero, seu filme quintessencial - em apenas 40 minutos se faz um breviário de sua visão de cinema e de mundo - há que se reter talvez o maior de todos, Aopção ou As Rosas da Estrada - escrito assim mesmo, com a intenção clara de usar o prefixo "a" indicando uma "falta de" escolha total.Por fim, não se pode deixar de referir a O Vigilante, por enquanto a derradeira fita de Candeias e que sequer foi lançada no circuito comercial, trabalho obrigatório para todos que pretendem entender as origens sociais da violência urbana de nossos dias. Nesse sentido, se fosse para escolher uma imagem, seria preciso ficar com a simples e contundente sabedoria da cena em que o mal-feitor apresenta o próprio pai (honesto, muito trabalhador, mas não pouco miserável, diz ele, obviamente com um vocabulário bastante chulo) e resume sua escolha de vida: "Prefiro viver um dia de leão do que uma semana de cão."Outros filmes menos ou pouquíssimos vistos do diretor também são imperdíveis, como o raro documentário Tambaú - Cidade dos Milagres, a ser exibido em cópia restaurada. Há ainda na mostra filmes mais comerciais em que Candeias é ator, como o belo O Quarto, de Rubem Biáfora - e o leitor não se assuste deparar na programação com Dezenove Mulheres e Um Homem, inacreditável pornochanchada com e de David Cardoso.Retrospectiva Ozualdo Candeias - 80 Anos. Na Sala de Cinema - Terça, às 19 horas, quarta, às 13 horas, Tambaú - Cidade dos Milagres/55 e lançamento do livro Ozualdo R. Candeias - 80 Anos. Quarta, às 13 horas, A Margem/67; quarta, às 15 horas, Polícia Feminina/60, e Trilogia do Terror/68, Episódio 1: O Acordo, Episódio 2: Procissão de Mortos; quarta, às 17 horas, Ensino Industrial/62, e Meu Nome É Tonho/69; quarta, às 19 horas, Uma Rua Chamada Triunfo/69-70, e A Herança/71. Quinta, às 13 horas, Uma Rua Chamada Triunfo/71, e Caçada Sangrenta/74; quinta, às 15 horas, América do Sul/62, e Zézero/74, e Candinho/76; quinta, às 17 horas, A Visita do Velho Senhor/76, e A Opção ou As Rosas da Estrada/81. Na Sala de Vídeo - Terça, às 17 horas, quarta, às 15 horas, América do Sul/62; terça e quinta, às 17 horas, Lady Vaselina/80, e Bastidores de um Pornô/79-80. Quarta, às 14 horas, História da Arte no Brasil/79: Aleijadinho, o Profeta; quarta, às 16 horas, Marca para o Oeste, Campo Grande e Corumbá/60, Interlândia/60, e Jogos Nordestinos/60; quarta, às 17 horas, Casas André Luís/67, Rodovias/62, e Cinemateca Brasileira/93. Quinta, às 14 horas, História da Arte no Brasil/79: Os Ventos não Mudam; quinta, às 15 horas, O Desconhecido/72; quinta, às 16 horas, Pinturas Rupestres de Curitiba/70. De terça a domingo. Sala de Cinema - Cinepasse: R$ 8,00 e R$ 4,00 (estudantes) - válido por 30 dias. Sala de Vídeo - grátis. Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651. Até 11/8.

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