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Em cartaz no Brasil, '3 Faces' é o melhor filme do iraniano Jafar Panahi

Condenado a passar 20 anos sem fazer filmes, diretor segue produzindo e mantendo sua liberdade de espírito e integridade; veja o trailer

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

12 de abril de 2019 | 03h00

No final, o júri presidido por Cate Blanchett outorgou a 3 Faces, de Jafar Panahi, o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes do ano passado. Desde que foi condenado pelo regime dos aiatolás, o cineasta não pode deixar o Irã, mas seus filmes têm circulado pelos grandes festivais. 3 Faces foi seu primeiro filme a participar da competição de Cannes, mas Isto Não É Um Filme, Cortinas Fechadas e Táxi Teerã passaram em Berlim, onde o terceiro ganhou o Urso de Ouro. 

Na coletiva de 3 Faces, sua cadeira ficou vazia e o lugar da fala foi ocupado por três mulheres, as atrizes Behnaz Jafari e Mariziyeh Rezaei e a montadora Mastaneh Mohajer. Por mais encanto que tenha Táxi Teerã, 3 Faces talvez seja o melhor filme dessa fase da vida (e trajetória) do grande diretor. Ele próprio é ator. Faz um diretor de cinema que acompanha uma atriz (Behnaz).

Viajam à região do Azerbaijão, na fronteira da Turquia, para tentar resolver o mistério do desaparecimento de uma garota. Antes de sumir, Mariziyeh gravou um vídeo dizendo que ia se matar, por não resistir à pressão familiar para impedir que ela se tornasse atriz.

Matou-se de verdade, ou foi só simulação – uma fake news para atrair a atenção de Behnaz (e Panahi)?

Em Cannes, as parceiras de Panahi cumpriram uma extensa agenda de entrevistas. Behnaz, que é uma estrela de TV no Irã, também representa o próprio papel. “Foi emocionante participar da sessão oficial do filme, marcada pelo aplauso caloroso do público para Jafar. E é impressionante constatar que, embora ele não esteja aqui, presente, sua figura e suas ideias estão integralmente na tela”, reflete Behnaz.

“O filme é dele, que mais uma vez dá seu testemunho sobre a sociedade iraniana. Todo esse movimento internacional para que seja libertado é muito forte, mas é necessário que, enquanto isso, Jafar continue produzindo. Sou das que acreditam que não podemos prescindir do ollhar generoso de Jafar. Mesmo na adversidade, ele faz um cinema solidário, para entender o mundo e as pessoas.”

Justamente pelo caráter de resistência que adquiriu seu cinema, Panahi foi premiado, na Mostra de 2018, com o Troféu Leon Cakoff, que leva o nome do criador do evento. Sua mulher e filha vieram para a premiação. Foram aplaudidíssimas, e o próprio Panahi gravou um vídeo de agradecimento.

3 Faces inscreve-se na vertente do road movie. Se em Táxi Teerã ele circulou pelo espaço urbano, dessa vez cai na estrada. No filme, as mulheres – todas atrizes – são três. Behnaz, a famosa, a garota que sofre com o preconceito familiar e uma terceira, mais velha, cujo rosto não é mostrado, e que se queixa de ter sido usada e abandonada pelos homens – os diretores – com quem trabalhou.

“Quando Jafar me propôs a personagem, conversamos bastante sobre as mudanças ocorridas no Irã. O país já foi muito moderno, referência no mundo islâmico, mas com os aiatolás o regime fechou-se para as mulheres. Por ser conhecida, recebo, por e-mail ou recados no celular, muitos relatos de mulheres que se queixam do machismo que persiste na sociedade”, disse Behnaz.

E a montadora – “Se você olhar para a obra dele, desde O Círculo e, depois, através de filmes como Fora do Jogo, verá que Jafar sempre foi um homem adiante do seu tempo na questão do fortalecimento da imagem da mulher no Irã. Mesmo um filme aparentemente leve como Fora do Jogo, sobre a garota que se veste de homem para poder entrar no estádio de futebol, está cheio de observações muito densas e profundas sobre a discriminação que as mulheres sofrem. Muito antes do #MeToo ele já contava histórias para discutir nosso papel (como mulheres) em todas as esferas da vida social. É uma referência mundial no tema da emancipação da mulher, e não apenas no Irã.”

A acusação que pesa contra Panahi é a de que ele faz propaganda anti-islâmica. Pela sentença, está condenado a passar 20 anos sem fazer filmes. Ele não só tem desafiado as autoridades iranianas, filmando, como tem conseguido enviar suas obras para o exterior. As novas tecnologias digitais facilitaram muito a feitura e a exibição. Hoje bastam um link ou um pen-drive.

“Meu trabalho como montadora é muito facilitado porque Jafar já filma com economia, pensando no lugar que a cena terá no filme e como será editada”, contou Mastaneh Mohajer . E ela acrescentou – “Mesmo com as restrições que pesam sobre ele, Jafar mantém sua liberdade de espírito e integridade. Seu Instragram é uma inspiração. Todos os dias ele o alimenta com reflexões sobre a vida, e o cinema.”

 

 

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