Em cartaz a nova geração do cinema alemão

Talvez não seja simples coincidência. A 24.ª Mostra trouxe a São Paulo uma expressiva representação da Alemanha. Volker Schlondorff, um diretor que pertence à geração dos anos 60, assina seu melhor filme em muitos anos - A Lenda de Rita. Mas a ênfase está na novíssima geração do cinema alemão. Oskar Roehler, diretor de Nenhum Lugar para Ir, Sebastian Schipper, que assina Gigantic, e Hendrik Handloegten, que dirige Paul Está Morto. Os últimos foram produzidos pela X Film, a empresa de Tom Tykwer, que fez sensação na mostra do ano passado com Corra, Lola, Corra.A novíssima geração do cinema alemão. Handloegten tem 32 anos. Paul Está Morto é sua obra de graduação na Escola Superior de Cinema e TV da Alemanha, em Berlim. Handloegten faz sua estréia na mostra de São Paulo. Está adorando. Tem feito o que mais gosta - ver filmes. Ele acha importante ser situado na novíssima onda de diretores alemães. "O cinema alemão dos últimos anos desenvolveu uma má reputação, veja-se o filme Alta Fidelidade, em que o herói faz uma lista de cinco profissões que gostaria de seguir, cita a de cineasta, mas faz a ressalva - menos diretor alemão." Observa que Schlondorff, em Rita, revela o grande drama de sua geração - "Ele tem medo de soltar suas emoções, eu, não."Ele quer emocionar, comunicar-se, mas não por meio de um cinema de fórmula. Acha que, como seus colegas, quer fazer um cinema pessoal. E esclarece - "Pessoal, intimista, mas não privado, como o das gerações anteriores." Carregava Paul Está Mort há 20 anos, antes mesmo de pensar em ser cineasta. Handloegten tinha 12 anos quando John Lennon foi assassinado, em 1980. Foi sua primeira experiência com a morte, pois, como diz, "ele era como se fosse da família". À morte de Lennon, seguiu-se, uma ou duas semanas depois, a de um vizinho, o que trouxe a idéia da morte bem perto dele.Oito anos depois, ele ouviu no rádio a fantástica história da morte de Paul McCartney. Comemoravam-se os 20 anos da separação dos Beatles, uma rádio alemã fez uma série de quatro programas. O DJ contou então a fantástica história de que Paul teria morrido (ou sido morto) num acidente e substituído por outro sujeito. Os signos estavam todos na capa do álbum Abbey Road e em algumas questões. Handloegten ficou impressionado com a história. Discutiu-a longamente com o irmão, quatro anos mais novo e também beatlemaníaco. A família partiu em férias e ele nunca ouviu o último programa da série, que esclarecia os fatos. Paul, na verdade, não morreu.Para Handloegten foi como se tivesse morrido. A história o perseguiu durante anos, mesmo depois de ter acesso às informações sobre o caso. Desde que começou a fazer curtas, pensava no assunto, mas achava que merecia um longa. Não vacilou quando a idéia do longa finalmente se tornou viável. Pode-se fazer uma ponte entre o seu filme e Conta Comigo, de Rob Reiner. Handloegten concorda, mas pergunta de que maneira. A história do grupo de amigos, o mistério de um cadáver, o rito de passagem, que o filme de Reiner desenvolve de maneira mais tradicional.Ele concorda e diz que seu filme também trata do rito de passagem, apenas de forma menos tradicional. A maneira como garotos adquirem maturidade, tornam-se homens. Coloca isso na história do menino que tece toda uma fantasia, embarcando na viagem da morte de Paul McCartney, até mesmo caçando seu suposto assassino. A idéia do filme é essa - fantasia versus realidade. O que se ganha e o que se perde, em uma e outra, quando a gente se torna adulto. O filme fecha-se com a morte de John Lennon e o herói, antes mesmo de saber quem matou, já imagina quem seja."Quando a gente é criança, sempre acha que ninguém nos entende, que ninguém acredita na gente." Esse é um lado da questão - o outro é que o pré-adolescente também se acha dono da verdade. O filme trata disso. É inédito na Alemanha. Deve estrear na TV, em dezembro. Apesar do sucesso em festivais internacionais, não será exibido nos cinemas. Handloegten explica. Na Alemanha, a TV está desobrigada de pagar direitos autorais sobre músicas. Para passar nos cinemas, ele teria de pagar uma fortuna pelos direitos das músicas dos Beatles. É impensável, para um filme barato como o dele. Mas vai arriscar - quer mostrar o filme para Paul, o autêntico, na expectativa de que o ex-beatle lhe libere os direitos.

Agencia Estado,

24 de outubro de 2000 | 17h04

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