ap
ap

Em Cannes, animação ‘Inside Out’, de Pete Docter, recebe aplauso interminável

Hollywood dá as cartas em Festival com filmes fora de concurso; veja trailer do longa que conquistou a Croisette

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

18 de maio de 2015 | 18h35

CANNES - Vaias e aplausos têm sido tão frequentes nesse festival que The Hollywood Reporter publica hoje uma reportagem, para lembrar momentos históricos e avaliar quanto vale uma vaia em Cannes. Filmes que hoje fazem parte da histórias do cinema – A Aventura, de Michelangelo Antonioni; Taxi Driver, de Martin Scorsese; Sob o Sol de Satã, de Maurice Pialat – foram vaiados. A Palma de Ouro para Pietro Germi (Signora e Signore) foi recebida a pedradas. Num encontro com o repórter, Gus Van Sant quis saber se seu filme, The Sea of Trees, foi 100% vaiado ou se houve alguns aplausos. Os do repórter, pelo menos. Ele achou engraçado.

De qualquer maneira, a temperatura anda estranha. Todd Haynes recebeu aplausos por Carol e o filme é o candidato de muita gente à Palma de Ouro, embora, no quadro de cotações, esteja com menos estrelas que o Nanni Moretti, Mia Madre. O curioso é que, nas sessões de imprensa, Hollywood tem dado as cartas. Os filmes mais aplaudidos são produções de Hollywood que passam aqui fora de concurso, beneficiando-se da vitrine do maior festival do mundo para gerar expectativa. Mad Max – Estrada da Fúria, de George Miller, foi aplaudido em cena aberta. Inside Out, de Pete Docter, da Disney/Pixar, recebeu standing ovation, um aplauso que não terminava mais na manhã de hoje. Docter já esteve aqui com Up, que fez aquele sucesso. Se a reação a Inside Out sinalizar para alguma coisa, será para um sucesso maior ainda.

O filme acompanha o que se passa na cabeça de uma menina. Como funcionam os mecanismos de tristeza, alegria, como se criam os laços familiares, o que estimula a fraternidade? Como se produz a decepção? São temas que, não nessa chave fantasiosa, têm estado presentes em muitos candidatos à Palma de Ouro, ou em filmes apresentados nas demais seções. A França mandou um concorrente inusitado. La Loi du Marché, de Stéphane Brizé, é o terceiro filme do diretor com Vincent Lindon, um astro nos cinemas daqui. Foi feito em digital, em regime de cooperativa. Brizé e Lindon prescindiram de salário. A equipe ganhou o mínimo estipulado pelo sindicato. Forma e fundo casam-se na história do desempregado que vai trabalhar na segurança de uma empresa. O filme discute a imoralidade das demissões em massa e das reduções salariais para que executivos continuam tendo seus bônus (e altos salários).

Depois de conhecer o inferno da baixa estima dos desempregados – rejeitados pelo mercado, numa sociedade que se baseia no consumo –, até onde o personagem de Lindon vai manter seus princípios éticos ou vai fazer o que o “sistema” espera dele? A crise econômica também estás no centro do grandioso projeto de Miguel Gomes, As 1001 Noites, que integra a seleção da Quinzena dos Realizadores e, portanto, não concorre à Palma de Ouro. O sucesso de público e crítico de Tabu catapultou o autor a uma posição de destaque no panorama do cinema português (e europeu). Gomes planejava um filme no México, e já tinha roteiro e produção quando a crise atingiu Portugal. Na abertura do filme, um letreiro informa que não se trata de uma adaptação das 1001 Noites, mas de um relato que adota a estrutura do original para colocar na tela a desumanidade/indignidade de um sistema econômico e sociais que, em nome da austeridade, tratou a população como lixo, lançando a classe média abaixo de periclitantes índices de sobrevivência. A lei do mercado, mais uma vez. O filme de seis horas divide-se em três de duas horas, cada. É de um realismo duro, quase documentário, que Gomes quebra por meio de voos fantásticos no limite do surreal.

Esses capítulos chamam-se O Inquieto, O Desolado e O Encantado. No primeiro, uma cena impactou a plateia – a explosão das baleias, que você precisa ver para entender como e por quê. O segundo abre-se com duas histórias lindas, e a caçada ao fugitivo Simão sem Tripas é outra obra-prima. O restante sustenta-se mais no plano teórico que no encantamento. O repórter mal aguenta esperar para ver a terceira e última parte. O festival segue com seu circo midiático. A par dos debates estéticos, o mercado segue aquecido, com a compra e venda de novos filmes. Jake Gyllenhaal, que integra o júri, virou garoto propaganda de Tom Ford e, a cada noite, no tapete vermelho, exibe criações exclusivas do estilista. Na verdade, existe algo mais por trás dessa “fidelidade” – Ford está vendendo aqui seu novo filme e Noctural Animals virou um dos títulos mais quentes do mercado. O elenco anunciado pelo diretor ajuda: Amy Adams e, sim!, Jake Gyllenhaal.


Mais conteúdo sobre:
Festival de Cannes

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.