Em Berlim, Clint Eastwood ainda se diz um principiante

Sharon Stone na manhã de segunda-feira, 12. Clint Eastwood na noite anterior. O grande Clint veio mostrar Cartas de Iwo Jima fora de concurso; o filme estréia sexta-feira nos cinemas brasileiros. Clint teve uma recepção real. Uma multidão esperava na lateral do Hotel Hyatt, que abriga as coletivas, só para vê-lo passar. Ninguém vira mito impunemente. Clint inspira respeito e admiração. Sharon veio também para mostrar seu filme When a Man Falls in the Forest, de Ryan Eslinger. De manhã, Sharon estava linda, ao contrário do filme, em que faz uma mulher depressiva e infeliz no casamento. À noite, Sharon participou do jantar de gala de Cinema for Peace, evento que, aqui em Berlim, é chamado de Oscar with Brains, o Oscar com cérebro. Richard Gere e Catherine Deneuve foram parceiros de Sharon na iniciativa da Unicef.Sharon chegou disposta a falar do filme de Ryan Eslinger. Os jornalistas queriam lembrar Instinto Selvagem e Cassino, até como forma de introduzir o assunto que interessava à maioria - ela acha que Martin Scorsese vai ganhar o Oscar por Os Infiltrados? E, se ganhar, será merecido? A estrela meio que se irritou e respondeu do jeito que quis. Ou seja, usando Scorsese para falar de Rzan Eslinger. A atriz disse que Scorsese tem um estilo parecido de dirigir os atores e deixá-los livres para experimentar. When a Man Falls in the Forest acompanha uma série de vidas vazias. Gente malcasada, mal-amada e que sobrevive precariamente em empregos que não as gratificam emocionalmente. No final, é preciso o sacrifício de um para que os demais despertem para a vida. Jovens espectadores talvez não tenham o registro, mas o que Ryan Eslinger quer fazer Irwin Kershner fazia melhor nos anos 60, com filmes como O Amor É Tudo e O Magnífico Farsante, com George C. Scott, que Sharon disse que foi o ator que mais a impressionou na vida. Ele sabia escutar. Sua personagem quase não fala em When a Man Falls in the Forest. Tudo o que sabemos dela é pelos gestos e pela fala dos outros. O filme tem certa graça ao falar da impossibilidade de comunicação. Fornece material para boas atuações, não apenas a de Sharon, mas também Timothy Hutton e Dylan Baker.Clint EastwoodGoodbye, Sharon. Clint é o homem - o maior mito do cinema americano atual. Aos 77 anos (nasceu em 1930), ele diz que está muito velho para fazer concessões, mas não tão velho que ainda não esteja em condições de aprender.O ator e diretor lembrou que, aos 20 e poucos anos, quando começava na TV, ele morava em Los Angeles e havia perto de sua casa um cinema que mostrava filmes japoneses. Foi lá que conheceu os filmes de Akira Kurosawa com Toshiro Mifune - Rashomon, Os Sete Samurais e Yojimbo, cujo remake, como spaghetti western, fez na Itália com Sergio Leone. Clint acrescentou que conheceu Kurosawa em Cannes. Foi identidade à primeira vista. Conversaram durante horas sobre cinema, mas principalmente sobre vida. Ele ironiza - foi um logo caminho até se tornar um diretor japonês com Letters from Iwo Jima.O que o levou a consagrar dois filmes ao mesmo tema da batalha de Iwo Jima? "É sempre a qualidade emocional do material que me atrai. Não sei de que outra maneira se pode escolher um projeto. Gostei de fazer A Conquista da Honra, mas o filme não me bastava e achei que seria interessante, como um contraponto, contar a história na versão do outro lado." A Conquista da Honra discute o heroísmo, Cartas humaniza o inimigo. Isso tem a ver com algum comentário sobre a era George W. Bush e a Guerra no Iraque? "Entendo que aproximações possam ser feitas, mas o que me interessava era a história de Iwo Jima."De onde vem esse respeito pelo outro, que o cinema, em geral, demoniza e ele prefere humanizar? "É uma coisa que começa com meu trabalho como ator. Tendo de entender os personagens que interpretava, acho que terminei me interessando pela psicologia dos outros. A cultura japonesa sempre me atraiu muito. Todos aqueles códigos de dignidade e honra. Aprendi bastante filmando no Japão." O que, por exemplo? "Coisas (things). Ao iniciar cada projeto, coloco-me sempre na posição de um principiante. Quero aprender com os personagens e a história que vou contar. O dia em que achar que já sei tudo, eu paro (I quit)."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.