Paramount Pictures
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Em 'A Vigilante do Amanhã', Scarlett Johansson mostra disponibilidade física para o desejo e a ação

Filme estrelado pela atriz mostra como a automação vence a humanidade

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

30 Março 2017 | 05h00

Você não vai encontrar ninguém que tenha gostado muito de Branca de Neve e o Caçador, mas o diretor Rupert Sanders virou, instantaneamente, uma celebridade graças ao filme com a heroína dos irmãos Grimm. Sanders colocou sua então mulher, Felicity Ross, na pele da mãe de Branca e foi para a cama com Kristen Stewart, que fazia a bela. As feministas urraram - indiretamente, ele estava passando atestado de que Felicity era velha para ele. Talvez não fosse esse o recado - talvez não houvesse recado, a não ser, o que já sabemos, que a carne é fraca. Sanders é um feminista - e humanista - de coração.

Sua Branca de Neve já era guerreira, e agora a Major de A Vigilante do Futuro é outra guerreira futurista. Logo de cara ficamos sabendo que a personagem de Scarlett Johansson é produto de um experimento científico. Um cérebro humano num esqueleto cibernético. A dra. Oulet/Juliette Binoche comanda a experiência. Vive dizendo à Major que as ações, e não a memória, nos definem. A Major tem lapsos de memória, estranhas visões. Ao longo da trama descobrimos - olha o spoiler - sua verdadeira identidade. O segredo deflagra uma espiral de violência, custa muitas vidas.

No texto acima, você encontra todas as informações sobre Ghost in the Shell/A Vigilante do Futuro como anime (que é). Mas também há uma outra maneira de se olhar o filme, a partir da escolha de Scarlett e das escolhas do diretor para avançar sua narrativa. Primeiro, a atriz. Aos 32 anos, a escultural Scarlett - seu corpo, quando emerge daquela banheira, no começo, é uma loucura: o violão perfeito - transita com desenvoltura entre blockbusters e filmes de arte/de autor. Em anos recentes, Scarlett foi a Viúva Negra de Os Vingadores, virou objeto de desejo ao dar voz ao computador de Ela, foi a mulher que virou computador em Lucy e, last but not least, a alienígena predadora de Sob a Pele.

Há nela, na sua disponibilidade física para o desejo e a ação, algo de instinto animal, no que esse tem de mais brutal. Mas existem os lábios carnudos e os olhos, que traem a humanidade. Confrontada com a gueixa-robô que destrói na primeira ação dentro de A Vigilante do Amanhã, a Major se questiona. Ela é humana, ou ‘aquilo’? É o conflito que está no centro do filme de Rupert Sanders. Duas mulheres, a dra. Ouelet e a Vigilante. A criadora e a criatura. Mãe? e filha.

Tanto do ponto de vista visual quanto dramático, Sanders deve muito aos mestres da moderna ficção cientifica cinematográfica. Seu futuro é retrô como o de Ridley Scott em Blade Runner. Cidades avançadas, androides, projeções holográficas e becos escuros onde vivem, se escondem, os párias desse admirável (assustador?) mundo novo. A mente humana num corpo de máquina vem de RoboCop, de Paul Verhoeven. E as memórias implantadas vêm de outro Verhoeven, O Vingador do Futuro - adaptado, como Blade Runner, de Philip K. Dick.

A Major, como máquina, é desprovida de sexo - vemos isso quando ela aparece de corpo inteiro, na tomada frontal que a revela para o público. Mas ela nunca está sozinha. Reencontra o passado e tem sempre a seu lado, no presente e no futuro, Pitou/Pilou Asbaek. E Aramaki, o mítico Beat Kitano. Há toda uma mitologia no filme de Rupert Sanders. Dos mangás, do anime, da sci-fi. No centro de tudo, Scarlett e a lágrima da Major. Vence a humanidade.

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