Em ´A Última Noite´, Altman volta ao universo country

Em 1975, Robert Altman, já consagrado por MASH, que havia recebido a Palma de Ouro, cinco anos antes realizou sua obra-prima, Nashville. Também foi o filme em que ele estabeleceu a fórmula que vem desenvolvendo desde então, e que consiste em soltar a câmera entre diversos personagens, adaptando-os, nos filmes seguintes, a diferentes contextos históricos e sociais. Altman, aos 81 anos, volta ao universo da música country em A Última Noite, seu novo filme, que estréia nesta quinta-feira, logo após ter sido exibido na 30.ª Mostra. Em vez do templo de Nashville, Altman volta-se agora para o programa A Prairie Home Companion, transmitido ao vivo, de um teatro em Minnesota, por centenas de emissoras para os EUA até para o exterior. A Última Noite do título brasileiro é fictícia. Altman filma uma hipotética apresentação final, mas o programa permanece no ar. O elenco é cheio de astros e estrelas - Meryl Streep, Lily Tomlin, Woody Harrelson, John C. Reilly, Kevin Kline e Lindsay Lohan. Trabalham no limite da ficção e do documentário, improvisando, cantando e até compondo as canções. Por conta deles, A Última Noite pode ser uma experiência fascinante, mas convém não exagerar. Altman se acomodou tanto no próprio estilo que levanta uma dúvida - o que ele faz no filme atual (menos ruim que o precedente De Corpo e Alma, é verdade) é a depuração ou a diluição de Nashville? É uma diluição, claro, como Assassinato em Gosford Park, uma espécie de Jean Renoir filtrado por Agatha Christie, também era a diluição de A Regra do Jogo. O problema é que Altman parece estar perdendo o rigor - ou será que existe muita gente disposta a defender a participação de Virginia Madsen na pele daquele anjo da morte? Conceitualmente, até que faz sentido Altman está falando da morte de uma certa tradição americana, quer criticar a maneira como ela é manipulada. A Última Noite é, metaforicamente, os EUA sob George W. Bush. Em Berlim, em fevereiro, o filme participou da competição, recebendo uma bela ovação porque, afinal de contas, Altman e Meryl Streep estavam presentes (e ela é maravilhosa, como sempre). Mas o próprio Altman parecia cansado. Não se interessou muito pela discussão política proporcionada pelo próprio filme. Não parecia mais o autor combativo de antes. Alguém já disse que o velho Altman ficou mais relaxado. Talvez, e Virginia é a prova de que tenha ficado relaxado em outro sentido. A Última Noite(105 min.) - Comédia. Livre. HSBC Belas Artes 1 - 14h30, 16h40, 18h50, 21h. Jardim Sul 1 - 22h10. Kinoplex 3 - 21h30. Metrô Santa Cruz 6 - 11h, 13h25, 15h55, 18h20, 20h50, 23h15. Pátio Higienópolis 4 - 11h50, 14h15, 16h40, 19h10, 21h40, 0h10. Cotação: Regular

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