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Em 'A Nação Que Não Esperou por Deus', diretora revê personagens de ficção de 1999

Documentário gira em torno da tribo indígena Kadiwéu

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2015 | 03h00

Em 2009, Lúcia Murat voltou à aldeia dos cadiveus, para tentar retomar o contato com os índios que filmara dez anos antes, durante a realização de Brava Gente Brasileira. Surpreendeu-se duplamente, e até faz uma referência a Claude Lévi-Strauss, que, quando conheceu os cadiveus, eles estavam reduzidos a duas centenas. “Tive, como ele, a sensação de que estava assistindo ao fim de uma cultura. Ao voltar, encontrei um número muito maior, cerca de 2 mil, e a aldeia tinha eletricidade. Com ela vieram a TV, o BBB e as novelas, e muita coisa mudou.” A extensão dessas mudanças é o tema de A Nação Que Não Esperou por Deus, documentário que Lúcia correalizou com Rodrigo Hinrichsen e que está em cartaz na cidade.

Existe um aspecto Cabra Marcado para Morrer muito interessante. Como Eduardo Coutinho, que retomou uma ficção interrompida (pela ditadura militar) e se reinventou, criando um tipo de documentário de bordas, Lúcia faz um movimento parecido. Usa a ficção de 1999 para uma viagem muito pessoal. “O que eu queria era acompanhar/redescobrir os personagens de meu filme anterior, ver o que havia ocorrido com eles.” O resultado é tão surpreendente quanto desconcertante. Lúcia e Rodrigo observam os efeitos da globalização. Os cadiveus sempre foram ótimos cavaleiros e ela retoma a tradição mostrando um índio que doma um cavalo selvagem. Depois, outro índio monta no lombo da motocicleta e a lava no mesmo rio onde o anterior deu de beber ao potro. “Na verdade, é o mesmo índio”, esclarece ainda.

Dentro da aparente simplicidade dessas ações existe uma grande complexidade. Você pode dizer - a globalização está acabando com a cultura tradicional dos cadiveus. A transformação de uma menina em mulher, o rito de passagem, vira quase um baile de debutante e ela veste, como Cinderela, um sapato prateado. Os evangélicos avançaram no território dos índios, os pecuaristas também. “Mas há uma diferença, um dos índios diz que virou evangélico por gratidão, porque num passado não muito distante só uma missionária estendeu a mão para ele”, observa a diretora. O filme é feito de observações - outro diretor, ou diretora, teria feito um filme diferente. Esse segue meio errático, com muitas pontas, querendo falar de muita coisa. Lúcia discorda - “Estou seguindo o meu pessoal de Brava Gente. Era essa a ideia e foi cumprida.”

Quando ela voltou, em 2009, não foi só a luz que encontrou. Em 2013, quando finalmente filmou, havia um movimento de retomada das terras indígenas, os cadiveus haviam renovado seu espírito belicoso na luta por direitos - de volta à guerra contra os patrícios, como chamam os brancos, de Brava Gente. Inclusive, no final, um letreiro informa o que ocorreu com um dos líderes (o líder?) dessa movimentação toda, após a filmagem. Poderiam ser muitos filmes. Lúcia e Rodrigo fizeram o menos impositivo, o menos narrativo. “Não somos nós que temos de resolver os problemas dos índios, até podemos aprender com o espírito de resistência que eles têm.” É um filme pequeno e que talvez tenha um interesse ‘limitado’, do ponto de vista do mercado. Mas Lúcia Murat tem se sentido gratificada.

“Temos feito muitos debates. Em Porto Alegre, no Cine Bancários, no Rio, no Museu do Índio, e em São Paulo, no Caixa Belas Artes. Tenho discutido com críticos, antropólogos e índios, com índios que são antropólogos. A gente tem de acabar com essa coisa de querer o filme mais objetivo, de achar que tem de apontar um caminho, e que sabe qual é esse caminho. Você me citou Francesco Rosi e eu concordo que ele teria feito outro filme com base no letreiro final, uma investigação policial, quem sabe, mas seria ficção. O mais bacana é descobrir o outro, se abrir para o outro. Estou bem feliz com A Nação Que Não Esperou por Deus.”

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