WARNER BROS. PICTURES
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Em 'A Mula', Clint Eastwood traz a leveza crítica de um mestre

Filme fala da história real de floricultor falido que trabalha para o tráfico de drogas

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

14 Fevereiro 2019 | 03h00

A Mula, novo opus de Clint Eastwood, de 88 anos, é surpreendente. Clint dirige o filme e interpreta o protagonista Earl Stone, floricultor que vai à falência e se torna um nonagenário transportador de drogas pelas estradas americanas. 

Narrada em estilo clássico e sereno, o que perturba na história é a ambivalência moral do personagem. Earl, visto em dois tempos da trama, é descrito como alguém dedicado em tempo integral ao trabalho, descurando-se da família, mulher e filha. Mais tarde, o próprio Earl fará uma autocrítica, afirmando para outros personagens que nada de mais importante existe que vida em família. A esse discurso, altamente convencional (não interessa se verdadeiro ou não), Clint contrapõe essa outra vertente da personagem – a de membro, ainda que secundário, de uma gangue de criminosos sanguinários.

Clint constrói esse personagem ambíguo à medida dos desencontros contemporâneos. Em sua aparente simplicidade, A Mula abre-se para uma série de questões inquietantes. A velha moral ainda se sustenta ou é apenas capa ideológica confortável, porém desprovida de sentido? Como são vistos os negros, latinos e minorias nesse modelo mundial de democracia que são os Estados Unidos? Quais os reais objetivos políticos no combate às drogas, tão tenaz quanto ineficiente? Que mundo as gerações atuais legarão aos seus filhos e netos? 

São perguntas – sem respostas simples – que nos acompanham quando termina esse filme de perfil límpido, construído com uma noção de ritmo impecável, contido, sem derramamentos emocionais, um vinho seco em meio a tantas beberagens açucaradas servidas nos cinemas. 

Em A Mula, Clint reencontra-se consigo mesmo após as derrapadas patrioteiras de Sniper Americano e 15h7 para Paris. Mantém, ainda e sempre, sua crença em valores sólidos, como a dignidade, em especial a dos vencidos e fracassados, herança de John Ford e da ética mítica da conquista do Oeste. Mas esses valores parecem mais uma luz bruxuleante que um farol seguro a nos guiar em nossas incertezas. 

Este homem, conservador a ponto de haver apoiado Trump, é, no entanto, capaz de detectar em modo crítico o mundo fluído (líquido, diria Zygmunt Bauman) que construímos. E o faz com extraordinária leveza, esse privilégio dos velhos mestres. 

 

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