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Em 'A Floresta Que Se Move', Vinícius Coimbra faz adaptação de 'Macbeth'

Tragédia de Shakespeare serviu de inspiração para o longa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2015 | 21h14

Na sua monumental História da Literatura, Otto Maria Carpeaux cita De Quincey, quando ele diz que a chave para a interpretação de Macbeth, a tragédia de Shakespeare, é a cena do porteiro – knocking at the gate. “O sol da vulgaridade entra no inferno dos fantasmas irreais.” Da mesma forma, pode-se aplicar a Macbeth e a Rei Lear o verso imortal de Otelo, a primeira das grandes tragédias noturnas do bardo. “Chaos has come again.” O caos está de volta, se é que alguma vez ele deixou de rondar a humanidade.

Vinícius Coimbra sabe de todas essas coisas. E, depois de A Hora e a Vez de Augusto Matraga – um dos grandes filmes do ano, e não apenas brasileiros –, ele propõe o seu Macbeth. A Floresta Que Se Move pode não ser tão bom, mas é bom ver o filme, pelos desafios que encerra e pelas soluções plásticas e dramáticas propostas pelo cineasta, pelo ‘autor’. Coimbra transpõe a peça para a atualidade, e o meio financeiro. A luta é pelo poder num grande banco. Os combates são verbais, e um pouco físicos, mas nada que se compare à movimentação de exércitos. O espectador que conhece minimamente o texto fica na expectativa. Como o diretor vai resolver a cena das bruxas, que antecipam para Macbeth o seu triunfo e, depois, a sua queda. Como a floresta vai se mover?

São todas soluções inteligentes. As três bruxas viram uma só, uma bordadeira interpretada por Juliana Carneiro da Costa, que tem apenas duas cenas, mas elas são memoráveis, Juliana confirma, como se ainda fosse preciso, a grande atriz que é – e a estrela brasileira na companhia da francesa Ariane Mnouchkine. A floresta é ainda mais impactante e, posto que ela tem uma cena anterior que talvez sinalize para o que vai ocorrer, é bom deixar que o público faça suas descobertas. E há, claro, o ‘knocking at the gate’ e o porteiro de Emiliano Queiroz arrisca-se, por essa outra participação, arrombar as portas da genialidade do cinema brasileiro. É melhor que tudo que ele já fez, e se trata de um ator que tem uma extensa trajetória, com muitos e importantes papéis no teatro, cinema e TV.

Apesar das muitas biografias, pouco se sabe sobre a vida de William Shakespeare e isso, ao mesmo tempo que inibe as tentativas de explicar a obra pela vida, cria o movimento inverso, que é o de construir uma vida por meio da obra, como faz o filme Shakespeare Apaixonado, de John Maddow. Pouca gente duvida que ele seja o maior de todos – o maior poeta, dramaturgo, literato. Carpeux sustenta que, na criação de um universo autoral completo, ele só tem equivalente em Dante e nem a Divina Comédia consegue ser tão grande. Ao apresentar seu filme no Festival do Rio, Vinícius Coimbra disse que ele nasceu como um ato de teimosia. Diretor de TV, com sólida formação cultural, Coimbra tenta provar aos outros e a si mesmo que se pode fazer drama, e sólido, contra a maré de comedias e bobagens realistas que assola o ‘mercado’. O desafio é imenso, em termos de aposta de mercado. Shakespeare não facilita a vida do adaptador com sua riqueza de metáforas, reflexões, conteúdo e significados.

Ao longo dos 120 anos que o cinema festeja em dezembro, surgiram incontáveis adaptações de Shakespeare. Romeu e Julieta e Hamlet são as obras mais filmadas, mas ultimamente tem havido essa corrida por Macbeth. O caos do mundo as justifica, talvez. Além da montagem com Thiago Lacerda (em São Paulo) e a de Christiane Jatahy (no Rio), houve o filme do australiano Justin Kurzel com Michael Fassbender e Marion Cotillard que estreou em Cannes, em maio. A crítica caiu matando – é tentador dizer que não entendeu –, mas a maré mudou e o filme está sendo descoberto na Inglaterra e nos EUA. Kurzel toma suas liberdades e começa com o enterro do filho do casal Macbeth, apenas referido no texto original (e en passant por Vinícius Coimbra). Na versão de Kurzel, a nostalgia do filho vai fragilizar a lady num momento-chave. Coimbra foge desse tipo de ‘psicologização’.

Em conversa com o repórter, ele disse que quis ser moderno com um pé na tradição. Seus atores vestem-se impecavelmente, mas Gabriel Braga Nunes, que faz Elias, o Macbeth, tem a postura de um espadachim, como se, de repente, num filme de época, fosse sacar da espada e duelar. É um partido difícil, e tudo no filme desafia. McDuff vira o policial (Rui Ricardo Dias, o Lula de Fábio Barreto) que investiga a morte do banqueiro e começa a suspeitar do envolvimento de Elias e da mulher (Ana Paula Arósio). É, digamos, a aposta mais ousada do roteiro de Coimbra com Mariana Dias, que já adaptou com ele Matraga e também assina a transposição de Ligações Perigosas, o romance epistolar de Choderlos de Laclos para o formato de minissérie de TV.

Existe uma famosa interpretação de Freud para o processo autofágico em que Macbeth e a lady mergulham. No texto clássico, a ambição pelo trono e a loucura que surge dessa ambição desencadeiam o processo que o pai da psicanálise definiu como ‘arruinados pelo êxito’. No filme, a ambição pelo cargo de presidente do banco provoca a culpa. O roteiro cria cenas do cotidiano que se apoiam em cenas da peça, mas a opção pelo realismo nem sempre está bem resolvida. A forma como a floresta se desloca e o pernil sendo fatiado, na antecipação da morte de Heitor, o banqueiro – permitindo a reutilização das Bachianas, que já estava(m) em Matraga –, são muito fortes, mas nenhuma foge mais ao padrão realista que o banho de sangue sobre o casal, na cama. O desespero de Elias diante do espelho – da imagem de seu duplo – é outro achado, mas César/Ângelo Antônio, ensaguentado na cena do jantar, provoca um efeito que não é o desejado na plateia. No Rio, a plateia caiu na risada, mas podia ser um riso nervoso. É curioso que a lady se chame Clara, porque representa o lado escuro da trama e do marido. Ana Paula Arósio é poderosa no papel que o diretor Gabriel Villela já lhe oferecera no teatro, mas que, na época, não pôde aceitar. A trama policial, a investigação de Rui Ricardo Dias, faz avançar o relato (o ‘gênero’), mas enfraquece o simbolismo. Como consequência, Floresta não é perfeito, mas quantos filmes brasileiros recentes permitem esse grau de indagação dramatúrgica (e estética)? Com Vinícius Coimbra, ninguém, e muito menos o público, se acomoda.

 

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