Elza Soares também vai ganhar filme

A cantora Elza Soares também vai virarfilme. Ela acaba de lançar seu novo disco, Do Cóccix até oPescoço, tem uma agenda de shows de lançamento, mas seu agente, José Gonzaga, já pensa no documentário sobre ela a ser dirigido, em 2003, por Kátia Lund, contando sua trajetória da Vila Vintém favela da zona oeste do Rio, à consagração como Cantora doMilênio, em 2000, pela BBC de Londres. "A idéia surgiu quandovieram nos consultar sobre a adaptação para cinema de A EstrelaSolitária, biografia do Mané Garrincha", conta Gonzaga. "AElza não tinha nenhuma objeção, mas achei que a história delatambém daria um filme." Mais atenta ao presente do que ao ano que vem, ElzaSoares prefere falar do disco atual, no qual se cercou da natada música popular brasileira. Juntou compositores veteranos(como Caetano Veloso, Jorge Benjor e Chico Buarque) e novatos(ABM Aguiar, do grupo Nós do Morro, e a atriz Letícia Sabatella), músicas inéditas (Dura na Queda, de Chico, e Hoje É Diade Festa, de Benjor) e muito antigas (o choro Bambino, deErnesto Nazareth, letrado por José Miguel Wisnik), além de terdado sua versão para clássicos (Haiti, de Caetano Veloso, eFadas, de Luiz Melodia). O resultado são 14 faixas degêneros e estilos diversos, com a voz rouca e o suingue deElza. O disco vem sendo feito há um ano com José Miguel Wisnike Alê Siqueira (seu produtor). "Pela primeira vez, em muitosanos, dei opinião em tudo, do repertório aos arranjos e aindative o luxo de palpites dos amigos e da programação visual deGringo Cardia", conta Elza, enquanto presta atenção na cabeçaraspada da garçonete que passa. "Sabe que eu fui a primeiramulher no Brasil a fazer isso, ainda nos anos 80? Foi umescândalo, mas até hoje acho bonito. Ainda vou tirar a peruca emum show e mostrar minha cara ao público." Elza é assim mesmo. Fala de vários assuntos e prestaatenção em tudo. Comenta pouco o passado e não planeja o futuro.Mistura banalidades com assertivas profundas e pede como umalady, sendo atendida como rainha. Foi assim que ganhou músicasinéditas dos compositores mais requisitados da atualidade, masque atendem a poucas solicitações. Chico Buarque lhe mandouDura na Queda, que abre o disco, um samba exaltação feitopara a peça Crioula, biografia levada aos palcos por StellaMiranda, a mesma que hoje vive Carmem Miranda. Caetanocompareceu com Dor de Cotovelo, um samba-canção de cortar ospulsos, do qual saiu o título do disco e que ela canta como quemjá viveu. E Benjor apareceu com Hoje É Dia de Festa, querecebeu arranjo de metais à la Tim Maia. "Não foi proposital. Nem tinha reparado, mas agora achoque foi homenagem. A idéia é balançar mesmo, encher pistas dedança", avisa Elza. Intenção diferente das regravações às quaisacrescentou dramaticidade. A Carne (de Marcelo Yuka, SeuJorge e Wailson Capellete) era um samba do grupo Farofa Carioca,que fazia o público sambar. Haiti ficou mais violento eFadas, uma canção dos anos 70, virou um tango. "Essasmúsicas têm letras muito sérias, mas os arranjos davam ênfase aoritmo. Cantei mais lentamente para as pessoas prestarem atençãono que esses compositores dizem. Já a do Melodia sempre foi umtango para mim e para homenagear Astor Piazzolla, que abençoouminha voz." Wisnik foi ao passado colocar letra no choro Bambinoe voltou musicando Flores Horizontais, poema de Oswald deAndrade, enquanto Marcos Suzano refez com ela standardsbrasileiros, no pot-pourri só de pandeiro e voz, que elesintitularam Quebra Lá, que Eu Quebro Cá. É virtuosismo puro,supreendente mesmo para quem conhece as habilidades rítmicas dosdois. As novidades ficam por conta de Todo Dia, dodesconhecido ABM, do grupo de teatro Nós do Morro, da favelado Vidigal, na zona sul do Rio, e A Cigarra, ponto decandomblé, entoado com surpreendente afinação por LetíciaSabatella. Para fechar, o óbvio cotidiano que abre a novelaDesejo de Mulher, da Rede Globo: o dueto com Chico Buarque,em Vamos Amar, gravado num disco de versões de Cole Porter. Segundo Elza, a qualidade do disco resulta da boa faseque atravessa desde 1999, quando se apresentou para a rainha daInglaterra, convidada pela BBC de Londres, como a melhor cantorabrasileira do milênio. Não parou mais e Gonzaga enumera osprojetos futuros. "Vamos estrear em agosto no Canecão e, emsetembro, no Sesc Pompéia, em São Paulo. Depois vem odocumentário da Kátia Lund e, em 2004, um filme ficcional sobreela", adianta ele. Elza ouve como se não fosse protagonista desses planos."Só consigo imaginar o que farei amanhã de manhã. Vou acordar emalhar muito para manter a forma que Deus me deu", brinca ela,cuja idade é segredo, mas a plástica dá inveja em balzaquianasrecentes. Segundo o Washington Post, que em uma recenteedição de domingo a anunciou como musa dos gays brasileiros,regula com Tina Turner, Gloria Gaynor ou Eartha Kitt, mas Elzanão está nem aí. Prefere comentar o trabalho que Kátia Lund (queacaba de lançar o filme Cidade de Deus) terá para resumirtoda sua vida em cerca de duas horas de filme. "Já pensou,contar tudo? Da Vila Vintém ao dólar americano?"

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