Élodie Bouchez fala de "Louise (Take 2)"

O filme é bom e a atriz, melhor ainda. Louise (Take 2), de Siegfried, estreou na semana passada na cidade. É obra de um diretor um tanto marginal no cinema francês. Siegfried não se enquadra em nenhuma escola ou movimento, não se assemelha a ninguém, exceto talvez, ao lendário Jean Vigo, que revolucionou o cinema francês nos anos 30. Siegfried conta de forma totalmente anticonvencional (e até bastante radical) a história de uma garota das ruas. Louise é interpretada por Élodie Bouchez. Tem no currículo filmes como Rosas Selvagens, de André Techiné, e A Vida Sonhada dos Anjos, de Erick Zonca, que lhe valeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes.Élodie deu entrevista para a reportagem usando o mais moderno meio de comunicação que existe, o e-mail. Na verdade, houve uma troca de e-mails e ela foi sempre simpática, cordial, interessada. Falou sobre cinema, o Dogma (interpreta a trilogia co-realizada na França pelo ator Jean-Marc Barr) e disse que, apesar do que afirmam os críticos e jornalistas, não se considera uma antiestrela. Lamenta, até, que não exista mais glamour no cinema francês.Ela conta como conheceu o diretor Siegfried: "Foi há três anos, totalmente ao acaso; estava na rua, em Montmartre, conversamos rapidamente; dois ou três meses mais tarde, ele me chamou para fazer seu segundo curta, C´Est Noel Déjà, com Roschdy Zem, e meio ano depois veio o convite para Louise". Ela diz que teria muito o que contar sobre a rodagem do filme. "Formávamos uma equipe bem reduzida; Siegfried era o câmera e nós rodávamos como um comando especial, à camicase". Acrescenta que muitos planos foram "roubados" e explica: "Rodávamos na maior parte do tempo sem autorização nenhuma, mesmo em locais públicos; foi uma rodagem muito excitante, mas também exaustiva, porque vivíamos sobressaltados, sem saber direito o que viria a seguir".Sobre o diretor, Élodie se derrama em elogios. "É muito talentoso, possui um universo particular que o distancia de tudo o que se faz na França, no momento". Define-o como "diferente" e, mais do que isso, "desconcertante". Espera que Siegfried, que dá mais importância à música que ao cinema em sua vida, reconsidere suas prioridades e continue a filmar. "Espero mesmo é que ele obtenha o reconhecimento que seu talento merece", diz, lamentando que, até hoje, ele ainda seja meio desconhecido, mesmo no ambiente cinematográfico da França.Embora Louise não seja ela, identificou-se muito com a sede de liberdade da personagem. E conta que um sentimento parecido de liberdade é a lembrança que guarda da rodagem de Rosas Selvagens. "Fizemos o filme num verão sufocante, na província, no sudoeste da França, num sentimento de grande liberdade". Admira o diretor Techiné, um dos mais prestigiados da França na atualidade, e acrescenta que, de todos os filmes dele, esse foi o realizado com mais espontaneidade. Garante que Techiné teve um grande prazer fazendo Rosas Selvagens e explica por que: "No fundo, estava falando dele mesmo, a narrativa tem muito de autobiográfica".O personagem com quem Techiné mais se identificava - e que era ele - era interpretado por Gael Morel, um jovem que descobria sua homossexualidade. Gael é um grande amigo. "É como se fosse da família", diz Élodie. Morel tornou-se diretor e já fez três filmes - um curta, um longa e um telefilme. Élodie trabalhou no longa, À Toute Vitesse, e no telefilme, Premires Neiges. Define o trabalho do amigo: "Seus temas giram sempre em torno da juventude sem concessões nem compromissos". E acrescenta: "Sua marca é a sinceridade". Espontânea e calma - Talvez seja justamente essa a característica mais forte da própria Élodie - a sinceridade com que ela se joga a fundo no que faz. Adorou interpretar Isa em A Vida Sonhada dos Anjos. "É uma personagem com a qual eu posso dizer que me identifico profundamente". Diz que Isa é um exemplo de bondade e amizade. Conta que, a partir do momento em que entrou na pele de Isa e encontrou sua maneira de se comportar, mover-se e falar, tudo ficou mais fácil. "Tudo o que tive de fazer nesse filme me deu grande prazer", resume. Diz que o diretor Zonca tinha confiança nela e, embora os diálogos em momento algum tenham sido improvisados (foram todos escritos), ele a deixava fazer o que queria. O resultado foi o prêmio em Cannes. "Tenho muita satisfação e muito orgulho de ter recebido esse prêmio", diz Élodie. Ressalta que é um dos prêmios mais sérios e prestigiados do mundo. Mas acha que foi sua interpretação, mais que o prêmio, que criou para ela uma situação nova e mais respeitada no cinema francês. "A Vida Sonhada dos Anjos mudou minha percepção do cinema, ouso dizer que mudou até a minha vida, foi muito importante para mim; o prêmio foi conseqüência, a causa de tudo foi o filme". Considerada a mulher do Dogma na França, Élodie encara com muita simpatia o movimento dos monges-cineastas da Dinamarca. "O Dogma é, para mim, uma maneira lúdica e diferente de fazer cinema", diz. Acha sempre interessante experimentar novas técnicas e formas, diz que sem ousadia não se faz nada. Sobre Dancer in the Dark, o filme de Lars Von Trier que ganhou a Palma de Ouro deste ano, é definitiva. "Obra-prima pura e absoluta." Tem carinho pela trilogia de filmes que Jean-Marc Barr co-realizou em vídeo (com Pascal Arnold), usando os ensinamentos do Dogma. Ela está em todos - Lovers, Toomuchflesh e Being Light. Diz, genericamente, que tratam do tema da liberdade e foram experiências "gratificantes".Lamenta que não existam mais estrelas na França, que estejam desaparecendo o glamour, a loucura do público pelos mitos. Seu sonho é participar de um cinema europeu, "sem fronteiras", e reconhece que suas escolhas de papéis são muito pessoais. Escolhe segundo seu instinto. "Vou aonde minhas emoções me levam, de maneira espontânea e calma", explica. Acha que a vida é mais importante que o cinema, mas o cinema oferece muito prazer e pode ser um instrumento profundo para diminuir o fosso que separa as pessoas. Parte dessa idéia para selecionar os filmes que faz. Roda atualmente Le Petit Poucet, de Olivier Dahan. Diz que quer continuar o que vem fazendo, o que fez até agora. "Com prazer e paixão". Seu público agradece. A paixão que a inspira faz dela uma das melhores e mais corajosas atrizes de sua geração, e não apenas na França.

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