Universal Pictures
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Elisabeth Moss: 'Assistir a esse filme em casa é assustador'

Atriz de 'O Homem Invisível', um dos poucos filmes lançados pela Universal para serviços ‘on demand’, atriz fala que sempre quis ser vista nas casas das pessoas

Dave Itzkoff, THE NEW YORK TIMES

30 de março de 2020 | 06h00

Quando foi lançado nos cinemas, há menos de um mês, O Homem Invisível parecia um sucesso de público: a adaptação para os dias de hoje do romance de ficção científica de H.G.Wells conta a história de uma mulher da Área da Baía de São Francisco, interpretada por Elisabeth Moss, cujo ex-namorado abusivo (Oliver Jackson-Cohen) aparentemente se suicidou e deixou uma grande quantia em dinheiro para ela. Mas, quando ela tenta seguir a vida, não consegue convencer os outros de que seu ex invisível ainda a persegue.

Moss, estrela de The Handmaid’s Tale e vencedora do Emmy, foi muito elogiada por sua atuação em O Homem Invisível (escrita e dirigida por Leigh Whannell de Jogos Mortais e Sobrenatural), e o filme ganhou mais de US $ 122 milhões nas bilheterias de todo o mundo antes de a pandemia de coronavírus fechar boa parte dos cinemas. Agora, O Homem Invisível virou um dos poucos filmes lançados pela Universal Pictures em serviços on-demand, uma quebra de paradigma com as velhas tradições do setor. (Também estão disponíveis, a um custo de US $ 20 pelo aluguel de 48 horas, A Caçada e Emma).

Numa recente entrevista por telefone, Moss disse que apoiou esse experimento e esperava que a ideia ajudasse O Homem Invisível a alcançar mais espectadores. “É um território novo para todos nós, uma jogada inevitável e também muito corajosa”, disse ela. “Se pudermos oferecer algumas horas de fuga para as pessoas que estão em casa, e elas conseguirem esquecer as coisas por um segundo, vai ser ótimo”. Moss falou sobre os temas de O Homem Invisível e suas ideias a respeito da natureza do abuso. Falou também sobre as formas como os filmes de terror ainda podem oferecer alívio em tempos de ansiedade. Aqui vão alguns trechos editados dessa conversa.

Você assistia a muitos filmes de terror quando era mais nova?

Sempre fui fã de filmes de terror. Desde que tinha 11 ou 12 anos, juntava as amigas da escola de balé para fazer festa do pijama e ver filmes de terror. Era nosso ato subversivo.

Como surgiu a oportunidade de fazer ‘O Homem Invisível’?

Estava fazendo a terceira temporada de The Handmaid's Tale e já tinha feito Nós. Assim que li este roteiro, definitivamente entendi por que o papel tinha tudo a ver comigo. Era a convergência de uma nova adaptação de um filme de gênero com um estudo de personagem bem intenso e emocional. É assim que Jordan Peele aborda o gênero: pega algo que, aparentemente, é muito divertido, um filme para ver comendo pipoca, mas, ao mesmo tempo, passa uma mensagem mais profunda. Falei comigo mesma: beleza, entendi por que eles acham que o papel é para mim.

Você acha que a perspectiva feminista esteve ausente dos filmes de terror?

Há vários filmes com mulheres no papel principal, especialmente nos últimos anos, como Bird Box e Um Lugar Silencioso. Mas é algo que se vê desde os anos 1970 e 1980, quando você tinha O Iluminado e O Exorcista. Esses filmes falavam de algo que estava muito abaixo da superfície. Foi o Leigh Whannell que teve a ideia de abordar O Homem Invisível desse jeito, contar a história da perspectiva da vítima, transformando o filme numa analogia para as mulheres que são desacreditadas, mulheres que não são ouvidas – mulheres que só ouvem de todo mundo que são malucas ou histéricas quando tentam falar que estão sofrendo alguma coisa. O paralelo é incrivelmente óbvio e incrivelmente relevante.

Como você fez as cenas em que está contracenando com ninguém, mas precisa acreditar que tem outra pessoa ali?

Grande parte do meu trabalho tem a ver com imaginação – criar algo que não existe ou apagar coisas que existem. Então, não é um problema tão grande quanto você imagina. Nos bastidores da grande sequência de luta e em alguns momentos em que tive contato físico com o Homem Invisível, contracenei com o Ollie ou com um dublê. Teria sido impossível fazer essa luta sem uma pessoa de verdade lá. Mas a luta em que Aldis é espancado pelo Homem Invisível no corredor, ele fez tudo sozinho. É uma das maiores performances físicas que já vi na vida. Ele também é super sarado. Eu não conseguiria fazer o que ele fez.

Depois de passar tanto tempo imersa nos temas desse filme, você saiu do projeto se sentindo uma pessoa diferente?

Por causa dos papéis que já representei nas telas, sempre tive extrema consciência do patriarcado e da condição das mulheres submetidas a abusos e servidão sexual. O abuso mental e emocional é uma coisa muito mais difícil de quantificar. As pessoas têm muito mais dificuldade de acreditar nesse tipo de abuso e de demonstrar empatia. A gente pensa: se ela não está feliz, se está sendo abusada, por que não vai embora de uma vez? Leigh e eu tivemos muitas conversas sobre a necessidade de mostrar que uma mulher que sofre abuso não é fraca, não é burra. Muitas mulheres fortes e inteligentes por aí acabam em situações das quais é muito difícil de sair, e não é culpa delas. 

Como você se sente com o lançamento do filme on-demand assim logo de cara?

Sinceramente, estava torcendo muito para eles disponibilizarem o filme para as pessoas em casa mais cedo do que o planejado. É uma jogada incomum. Mas, ao mesmo tempo, estamos vivendo um momento incomum. Os filmes serão assim para sempre? Não faço ideia. 

Esse filme tem uma cena – não quero dar spoiler aqui – que chocou as pessoas que o viram nos cinemas. Será que vai acontecer a mesma coisa com quem estiver assistindo em casa e não puder ouvir as reações dos outros espectadores?

Acho que é uma experiência diferente. Assisti a muitos filmes de terror em casa e mesmo assim ficava apavorada. Claro, ver o filme no cinema é muito especial. Mas, ao mesmo tempo, acho a experiência de ver em casa igualmente assustadora. Na verdade, você está sozinha em casa, o que provavelmente é o jeito mais assustador de assistir a esse filme. Eu recomendaria apagar as luzes e aumentar o volume o máximo.

Muitos espectadores viram seu trabalho pela primeira vez em Mad Men, onde você interpretou Peggy, uma personagem muito mais contida. Era frustrante? Você sentia que o papel lhe permitia mostrar todo o seu talento?

Mad Men avançou muito mais devagar que O Homem Invisível ou The Handmaid's Tale, mas Peggy mudou muito da 1ª para a 7ª temporada. Eu sentia que ela era uma pessoa diferente a cada temporada. Atuar dentro das restrições de uma personagem também é muito desafiador. Interpretar uma pessoa que não consegue se expressar ou que vive sob patriarcado ou num ambiente de trabalho extremamente sexista e precisa lidar com isso é uma experiência muito humana e com que podemos nos identificar.

TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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