REUTERS/Handout/Files
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Elijah Wood: 'O que faz de Frodo alguém único é sua maneira de ver o mundo sem qualquer cinismo'

Ator reflete sobre fazer ‘O Senhor dos Anéis’ aos 20 anos e ser Frodo pelo resto da vida

Entrevista com

Elijah Wood

Carlos Aguilar, The New York Times

22 de dezembro de 2021 | 10h00

Por mais de duas décadas, o ator Elijah Wood manteve um par de pés peludos de hobbit na mesma caixa em que os recebera de presente.

Foi logo depois da fotografia principal da trilogia O Senhor dos Anéis de Peter Jackson, filmada na Nova Zelândia, e ele não consegue se lembrar se os pés são novos ou os que ele usava na tela como Frodo, o valente herói de baixa estatura a quem se confia a destruição de um anel dourado e malévolo.

“Tenho certeza de que com o tempo eles vão estragar, porque não acho que o látex dure para sempre”, disse Wood por telefone, direto de Los Angeles. “Mas estavam em boa forma da última vez que os vi”.



O souvenir peculiar continua sendo um lembrete tangível da produção extraordinária em que os três épicos de fantasia, adaptados dos romances de J.R.R. Tolkien, foram filmados consecutivamente por dezesseis meses, seguidos por três anos de sessões de fotografia ocasionais e turnês publicitárias.

A sensação de fim só veio em 2004, quando o terceiro filme, O Retorno do Rei, arrebatou o Oscar, ganhando onze troféus, entre eles o de melhor filme.

Não foi o primeiro contato da trilogia com Oscar. A primeira parte, A Sociedade do Anel, que recentemente entrou para o Registro Nacional de Filmes da Biblioteca do Congresso, ganhou quatro estatuetas após seu lançamento em 19 de dezembro de 2001. Vinte anos depois, Wood, agora aos 40, compartilhou suas lembranças sobre essa monumental aventura do cinema. Mais abaixo vão alguns trechos editados da conversa.

 


 

Quando você pensa nos filmes 'O Senhor dos Anéis' e como eles redefiniram sua carreira, quais são as memórias que continuam mais vivas?

Muitas vezes penso nos momentos intermediários, não apenas os cenários incríveis com centenas de extras em trajes de orcs, o que sem dúvida é uma coisa extraordinária, mas os momentos aparentemente mundanos, como tirar nossos pés de hobbit porque tínhamos que sair do set quando começava a nevar. A gente no hotel, do lado da lavadora e da secadora, tirando os pés peludos e tomando um copo de uísque. Ou então viajar para surfar no fim de semana com os outros hobbits e Orlando [Bloom, que interpretou o elfo Legolas] e a camaradagem e a vida cotidiana que a gente vivia. Todos nós tínhamos deixado os vários lugares de onde viemos para viver juntos na Nova Zelândia. Vinte anos depois, ainda estamos conectados dessa forma, mesmo que não nos vejamos há muito tempo.


 

Em que ponto você sentiu que esse episódio da sua vida tinha terminado? Foi difícil deixar para trás um feito tão transformador?

O momento mais profundo em que senti que estava me afastando de tudo isso e me perguntando o que faria da vida dali em diante veio depois da fotografia principal. Foi quando todos nós estávamos mais exaustos. Tínhamos investido intensamente no mundo do filme que estávamos fazendo e, de repente, não estávamos mais naquele mundo, o que costuma acontecer quando você faz um filme: você está naquele microcosmo e, depois, é empurrado para fora. Aí você está de volta à realidade. Essa experiência foi multiplicada. Minha experiência de vida foi tão definida por estar na Nova Zelândia com aquelas pessoas que a mudança repentina de estar de novo em casa foi muito abrupta. Eu só queria trabalhar em coisas que eram pequenas e muito diferentes de O Senhor dos Anéis. Fiquei muito triste quando vi tudo chegar ao fim, mas também pronto para seguir com minha vida e ter novas experiências.


 

Relações fraternas próximas entre homens como a que Frodo e Sam têm na trilogia agora estão mais comuns na mídia. O que você achava da amizade entre esses dois personagens naquela época?

Minha ideia é de um companheirismo incrível. Embora meu personagem Frodo seja visto como um herói, existe ainda mais heroísmo verdadeiro em Sam [o hobbit interpretado por Sean Astin] e na maneira como ele recolhe os cacos e segue adiante quando Frodo não consegue mais. Esses dois precisam um do outro, sem dúvida Frodo precisa de Sam. Acho que havia uma verdadeira compreensão disso. Quando conheci Sean, nós dois estávamos entrando num hotel de Los Angeles. Imediatamente dei um abraço nele e só disse “Ei!”, porque eu sabia quem ele era. Nós nos abraçamos porque sabíamos que estávamos prestes a embarcar juntos nessa jornada incrível, como atores junto com outros atores, mas também havia aquela intuição de “Você e eu vamos viver essa jornada juntos”. Era uma coisa extremamente verdadeira. Muito do que vemos no filme, tanto no nosso relacionamento quanto no dos outros, reflete a realidade do que estávamos experimentando. O poder da narrativa está na nossa própria relação com o que está sendo expresso. Ouvi muitas abordagens diferentes sobre Sam e Frodo da comunidade LGBTQ, mas também ouvi pessoas que tiveram problemas com o vício dizendo que se conectaram com Gollum.


 

Frodo é uma criatura bastante vulnerável com um peso inimaginável nos ombros. O que você aprendeu por interpretá-lo por tanto tempo?

Uma das grandes mensagens dos livros no que diz respeito a Frodo e aos hobbits em geral é a sensação de que até mesmo a menor pessoa - não apenas em estatura, mas em termos do que se sente ser capaz de fazer - pode fazer coisas grandiosas, por fazer uma mudança de verdade, ter um impacto real. O que Frodo estava enfrentando parecia intransponível, mas ele conseguiu em grande parte por causa da bondade, da gentileza, da pureza de coração e talvez até da inocência. São coisas que os hobbits incorporam inerentemente, porque eles conseguem resistir à corrupção do Anel por mais tempo do que os humanos. Mas o que faz de Frodo alguém único é sua maneira de ver o mundo sem qualquer tipo de cinismo. Também há uma coragem, talvez até mesmo uma coragem cega, de não necessariamente saber o que está por vir e, portanto, não se permitir ter medo. Se devo aprender uma coisa com tudo isso, é que há uma firmeza que torna tudo possível.


 

Você acha que esses filmes poderiam ser feitos hoje do jeito que foram feitos naquela época?

Havia uma grande sensação de falta de supervisão. Peter e a equipe tinham permissão para fazer os filmes do jeito que eles queriam, sem muita perspectiva externa. Isso não significa que o estúdio não estivesse com medo. Eles sabiam do risco de fazer os filmes numa sequência só. Não sei se ele conseguiria fazer do mesmo jeito agora. Olha, a internet também muda tudo. Havia menos escrutínio sobre os filmes. Havia menos informações sobre eles. Conseguimos fazer os filmes numa bolha. Tínhamos uns problemas estranhos, como fotógrafos no alto de uma colina, mas era pouca coisa [risos]. Não sei se isso seria possível hoje. Agora o mundo está online e há uma grande quantidade de acesso a praticamente qualquer pessoa sobre qualquer coisa.


 

Estar perpetuamente associado a ‘O Senhor dos Anéis’ já foi uma coisa sufocante?

Muito tempo atrás aceitei que estaria para sempre ligado a Frodo, então isso não me incomoda. Honestamente, seria um fardo muito triste se me incomodasse [risos]. Estou bem acostumado com as pessoas me chamando de Frodo na rua, não me chamando pelo meu nome. É representativo de uma das maiores experiências da minha vida, filmes que adoro e memórias que guardarei para sempre. No final dos meus dias, serei mais lembrado por isso do que por qualquer outra coisa. Só posso equiparar esse fato a coisas semelhantes que aconteceram com Mark Hamill ou Harrison Ford. Eles ainda são muito associados a seus personagens clássicos [em Star Wars]. Agora que estamos diante desse marco de vinte anos, que é uma coisa muito difícil de compreender, meu sentimento é de tanta gratidão e tanto amor que nunca ficarei chateado por ser lembrado por esses filmes ou por serem as maiores memórias de quem eu sou para as pessoas.


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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