Elias Merhige fala de seu novo filme

E se Max Schreck, o ator que fazia Nosferatu na obra-prima expressionista de Friedrich Wilhelm Murnau, nos anos 20, fosse mesmo um vampiro? É dessa interrogação que parte o diretor nova-iorquino Elias Merhige para tecer a ficção de The Shadow of the Vampire. O filme produzido pelo ator Nicolas Cage traz John Malkovich como Murnau e Willem Dafoe, irreconhecível, como Schreck. Foi lançado fora de concurso no Festival de Cannes, em maio. A Sombra do Vampiro ainda não tem distribuição assegurada no Brasil, mas há boas chances de que venha a integrar a programação da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.Não perca quando isso acontecer. O cinema vampiriza o cinema. Merhige é considerado diretor de vanguarda. O roteiro de A Sombra do Vampiro caiu-lhe nas mãos, enviado pela mulher de Cage, Patricia Arquette, amiga e admiradora do diretor. Merhige ficou imediatamente possuído pelo mistério Murnau. Há esse mistério. Vida, obra e morte do grande diretor contribuíram para esculpir um mito.Murnau não era apenas atraído por temas fantásticos, como o de Nosferatu, a sua adaptação, não-creditada, do Drácula de Bram Stocker (que ele não pôde filmar porque não tinha os direitos). Murnau viveu sempre envolvido nas brumas de sua homossexualidade. Sua morte, num acidente de carro, até hoje é objeto de controvérsia. Murnau é um personagem perfeito para o sutil estilo de interpretação de John Malkovich. É um ator que corre o risco de ser afetado e exagerar nas caras e bocas. Ele faz a sério o que Jim Carrey transforma em máscara de riso. Mas não há para ninguém, exceto para Malkovich, quando se trata de expressar ambigüidades na tela. Muito já se escreveu sobre a relação de Murnau e Shreck no set de Nosferatu. Formavam uma dupla obsessiva, meio no estilo de Werner Herzog e Klaus Kinski (que, por sinal, refilmaram Nosferatu). A tese de Merhige é que Schreck talvez fosse um vampiro de verdade. Ele a usa para tecer a metáfora de que se alimenta seu filme - o cinema que vampiriza o cinema. Em Cannes, Merhige recebeu reportagem para uma breve entrevista no Variety Pavillion. Estava relaxado com a boa recepção da crítica ao seu Vampiro. Acha que os jornalistas reunidos em Cannes entenderam o que ele quis dizer."Meu primeiro filme, Begotten, foi produzido com o dinheiro que meu avô me deu para que eu concluísse meus estudos de medicina", disse Merhige. "Lá, o desafio era criar um universo particular, porque era um filme permeado de metáforas; Patricia (Arquette) viu Begotten em vídeo, gostou e indicou meu nome para Nic (Nicolas Cage), quando o roteiro de Steven Katz chegou à produtora dele, a Saturn".Com A Sombra do Vampiro, Merhige disse que descobriu não apenas lugares, mas também emoções às quais não estava acostumado. "Com esse filme quis descrever o funcionamento do gênio e mostrar como ele pode se tornar monstruoso, se não for corretamente direcionado; minha idéia era criar um relato no qual o espectador penetrasse para se perder completamente".Vanguarda - A monstruosidade do gênio situa o filme de Merhige na vertente de Deuses e Monstros, de Bill Condon, grande êxito de crítica no ano passado, sobre o lendário diretor de filmes de terror James Whale. Merhige define-se mais influenciado pela pintura do que pelo próprio cinema. Emite uma idéia curiosa: "A forma como os pintores do Renascimento escolhiam suas cores e texturas me faz acreditar que eles foram a vanguarda do cinema atual". Para ele, o cinema é um amálgama de diversas artes - música, teatro, fotografia e pintura, que se combinam para propor uma experiência única, por meio da qual o espectador penetra num mundo pleno de significados, ao mesmo tempo metafísicos e emocionais. "Sempre pensei que a estilização natural dos filmes mudos seria reforçada se nós passássemos regularmente da cor para o preto-e-branco em A Sombra do Vampiro", explica o diretor. Ver as cores dissolverem-se durante as cenas da rodagem de Nosferatu no filme correspondem à idéia de vampirização do cinema que, segundo ele, está no centro do projeto. "Sou um artista que procura a beleza e a verdade", resume Merhige. Ele acha que, como manifestação artística, o cinema procura uma ressonância no espectador, mas não vê motivo de desespero se não encontrar ressonância alguma. "Não faço nenhuma distinção entre o cinema experimental e o comercial, entre os filmes de estúdio e a produção independente". Para ele, os caminhos do cinema são todos os caminhos e o importante é fazê-lo com paixão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.