Elenco promove "Cidade de Deus"

Eles chegaram atrasados, um tanto sem saber o que fazer. Cercados por fotógrafos, reagiram como garotos comuns, uns com timidez mal-disfarçada, outros com arrogância que também tentava mostrar uma fachada escondendo o jeito pouco à vontade. Eram os atores adolescentes do filme Cidade de Deus, que ali estavam, no Espaço Unibanco, ontem, para uma entrevista coletiva com os jornalistas especializados em cinema.Se, até então, os diretores Fernando Meirelles e Kátia Lund tinham dominado a mesa, respondendo a perguntas, a cena lhes foi roubada num segundo, por aqueles jovens de faixa no cabelo, trancinhas rastafári, bermudões e camisetas com a cara de Che Guevara. Além dos tênis de grife, claro. À sua maneira, estavam com os equivalentes dos smokings Armani das premières hollywoodianas.Mas, o que faz toda a diferença, é quando falam. Por exemplo, quando Alexandre Rodrigues, que faz o personagem narrador Buscapé, fala que "minha vida praticamente começou depois desse filme, apesar de saber que a luta de quem escolhe o caminho do bem é muito dura. Significou muito para mim, aprendi coisas que nunca pensei em aprender", dá um arrepio em quem ouve.Na entrevista sobre o filme, que estréia com 90 cópias em todo o Brasil no dia 30 (menos no Rio Grande do Sul, para não competir com a história regional de Paixão de Jacobina, de Fábio Barreto, que estréia lá na mesma data), o diretor Fernando Meirelles começou exatamente falando do seu estranhamento diante da realidade da favela e da cultura da violência em Cidade de Deus, subúrbio do Rio."A leitura do livro Cidade de Deus, de Paulo Lins, foi como uma revelação. A revelação de outro lado do meu próprio país que eu não conhecia", disse no site do filme, www.cidadededeus.com.br. Na entrevista, Meirelles, de 47 anos, comentou que o fato de ser paulistano diante dessa história de morro do Rio foi muito bom para fazer o filme. "Ser um paulistano", afirmou, "me fez enxergar isso de forma mais surpreendente. Tudo foi surpresa para mim. É um pouco como se eu tivesse um olhar de estrangeiro; essa surpresa me motivou a fazer o filme."Baseado no livro de 1997 de Paulo Lins, por sua vez alicerçado em oito anos de pesquisa para uma tese acadêmica da antropóloga Alba Zaluar, sobre pessoas e o narcotráfico na Cidade de Deus, o filme começou a ser desenvolvido em 1998. Meirelles, diretor de um filme adorado pela crítica, Domésticas, contou que decidiu trabalhar com atores não-profissionais da comunidade e, quando eles já fossem profissionais , fazer um laboratório com eles para tirar vícios e maneirismos. Como ele disse, "não queria alguém fazendo uma ótima interpretação do personagem Zé Pequeno, queria que o espectador visse o Zé Pequeno."O elenco foi tirado de 200 candidatos a ator, que Meirelles acabou escolhendo sobretudo por "carisma", como explicou. Em março de 2001, com a produção sendo levada adiante, colocou os escolhidos num trabalho de preparação com Fátima Toledo, que definiu a interpretação. Enquanto isso, revelou o diretor, junto com o roteirista Bráulio Mantovani cortava "dois terços do livro, juntava três personagens em um, compactando tudo".O quarto tratamento da história foi o definitivo (mais algumas pequenas mudanças, claro). O filme ficou pronto, já foi vendido para vários países, estréia em fevereiro nos Estados Unidos e se pagou, apenas com o dinheiro da lei de incentivos fiscais e as vendas ao Exterior.Agora, começa sua carreira no Brasil. Fernando Meirelles e Katia Lund irão para o Oscar de 2004? Ninguém fez essa pergunta na entrevista, mas ela está latente. Essa história de jovens num meio de marginalidade e brutalidade pode ser o Os Bons Companheiros que deu certo. Com licença de Martin Scorsese.

Agencia Estado,

21 de agosto de 2002 | 11h07

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.