Touchstone Pictures
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Elenco de '10 Coisas que Odeio em Você' comenta clássico dos anos 1990

Filme baseado em 'A Megera Domada' tem fortes raízes shakesperianas

Ilana Kaplan, The New York Times

03 de julho de 2019 | 18h26

Entre os muitos filmes de comédia romântica dos anos 1990 baseadas na literatura clássica, 10 Coisas que Odeio em Você se destaca pela fidelidade às raízes shakespearianas. Baseado em The Taming of Shrew (A Megera Domada) o filme tem por foco as garotas Stratford, cujo pai rigoroso não permite que Bianca (Larisa Oleynik) namore enquanto a irmã mais velha, Kat (Julia Stiles)  não arranjar um namorado. O problema é que Kat não está interessada em garotos, totalmente concentrada em entrar na faculdade. Esperando sair com Bianca o novo estudante Cameron James (Joseph Gordon-Levitt)  traça um plano complicado para conseguir que Patrick Verona (Heath Ledger) namore a espinhosa Kat. Naturalmente drama, romance e muitos momentos difíceis ocorrem.

O que se destaca 20 anos depois é a permanente relevância desse filme – as adolescentes de Seattle debatem política sexual – como também sua condição de comédia de adolescentes adorada por todos. Produzido por US$ 11,2 milhões, 10 Coisas que Odeio em Você foi lançado em 31 de março de 1999 instantaneamente transformou em estrelas Julia Stiles, Gordon-Levitt e Heath Ledger.

Mas as coisas poderiam ter sido diferentes porque vários atores que você conhece podiam ter sua carreira encerrada por aí.

Conversei recentemente com as estrelas do filme  (incluindo Gabrielle Union e David Krumholtz), o diretor Gil Junger e outros sobre os que escaparam por pouco do elenco, o traçado e suas lembranças de Ledger, que morreu devido a uma overdose acidental de remédios prescritos em 2008. Abaixo alguns trechos editados das conversas:

Kirsten Smith e Karen Mccullah escreveram o roteiro numa época em que comédias românticas de adolescentes baseadas em clássicos estavam em moda em Hollywood

Kirsten Smith: Filmes de adolescentes explodiram na época. Éramos jovens roteiristas que nunca tínhamos vendido um script antes e foi algo muito inusitado, sem falar nos seis meses de sinal verde depois de ter sido aprovado.

Julia Stiles: Lembro que achei muito bom o roteiro e adorava a figura de Kat. Estava louca para ter o papel. Estava lendo A Megera Domada na escola e era a primeira vez que lia um script de uma comédia romântica que captava a ansiedade dos adolescentes de maneira tão inteligente.

Larisa Oleynik: Lembro-me que fiquei apaixonada pela história imediatamente. O roteiro era abertamente feminista e realmente da era do Riot Grrrl (movimento feminista underground que emergiu em decorrência do movimento punk e alternativo nos anos 1990).

Kate Holmes e Kate Hudson estavam entre as diversas atrizes aptas para os papéis principais. Mesmo alguns membros do elenco final originalmente desejavam ficar com papéis diferentes

Marcia Ross: (diretora de elenco) – Nós fizemos testes com Josh Hartnett, Eliza Shku, Heath e Julia. Mas Julia e Heath mostraram que tinham uma melhor química juntos. Adorei Katie Holmes. Ela estava prestes a entrar para o elenco de Dawson’s Creek e tínhamos de decidir rapidamente. Outra pessoa que adorei foi Kate Hudson. Mas sua mãe (Goldie Hawn) não gostou do roteiro para ela, então Kate desistiu.

Joseph Gordon-Levitt: Honestamente, não desejava trabalhar numa comédia romântica sobre garotos  de escola secundária. O que eu queria era atuar em filmes de Sundance. Estou feliz por ter, cinco anos depois, trabalhado nesse filme. A verdade é que eu era um sujeito ingênuo ou um garoto de 17 anos presunçoso.

Oleynik: Fiz os testes para os papeis de Kat e Bianca até o final e realmente preferia o papel de Kat. Acho que fiquei tão obcecada em provar para eles que o meu papel era ela que, quando eles acabaram me dando o de Bianca, pensei; “bem, tanto faz”. E tenho certeza de que deu certo porque me senti bem descontraída nesse papel.

David Krumholtz: (que interpretou Michael, o melhor amigo neurótico de Cameron) – Eu queria interpretar Cameron, mas tinha trabalhado com Gil em alguns projetos de TV e ele sabia que eu conseguiria fazer o papel do Michael, ou seja, interpretar um garoto judeu neurótico. Sei que Joe também queria o papel.

Gordon - Levitt: Fiz teste para o meu papel e o de Krumholtz porque achava um papel divertido. Mas então Gil quis que eu interpretasse Cameron.

Gabrielle Union (Chastity, melhor amiga de Bianca): Eu tinha 10 anos mais do que os membros mais jovens do elenco, alguns deles ainda cursavam a escolar secundária. Assim, eu me perguntava, o quão perto isto está dos meus anos na escolar secundária? Será que estou louca interpretando uma garota de 15 anos de idade?

Heath Ledger achava que seria reprovado no teste, mas sua popularidade era inegável para todos.

Smith: Na gravação do seu teste, ele usou um terno branco com uma camisa preta com abotoadura. Ele estava vestido no estilo do John Travolta em Embalos de Sábado à Noite, um estilo de roupa amarrotado e rock, mas estava mais bem vestido que qualquer outro, o que foi fantástico porque ele conseguiu o papel.

Gil Junger: Heath entrou e, pensei comigo, este garoto sabe o que faz, vou colocá-lo no elenco. Ele tinha uma energia, uma sexualidade que era palpável. Quando acabou, literalmente, a primeira página do roteiro, eu lhe disse “OK, deixe de lado o script. Você está ótimo. Gostaria de fazer uma pequena improvisação com você”. Eu queria ver o quão rápido sua mente se adaptaria. Depois de 35 segundos, eu lhe disse: “OK. Fantástico’. Mas ele estava muito nervoso, achando que tinha estragado tudo, porque o teste foi muito rápido. Eu disse a ele: ”Você é um sujeito muito talentoso e agradeço por ter vindo”. Quando a porta se fechou eu me virei para as mulheres na sala e lhes disse: ”Senhoras, nunca quis dormir com um homem, mas, se tivesse de dormir com um, seria ele. Por favor coloquem-no imediatamente no elenco”.

McCullah:  A primeira música que eu tinha de cantar era I Think I Love You. Depois decidimos que seria I Touch Myself e  Heath achou que não era tão romântica e então escolheu a canção de Frankie Valli, que foi uma opção muito melhor.

Junger: Eu disse a Heath: “Corra em torno dos degraus quando os guardas começarem a persegui-lo”. Logo após a primeira tomada, a enfermeira no set correu para um dos guardas. Estavam com medo que tivesse uma parada cardíaca.  Heath estava correndo com tanta alegria que isso fisicamente levou os guardas à exaustão.

A dança de Kat bêbada numa cena da de uma festa teria ramificações na carreira de Stiles

Stiles: Eu nunca fiquei bêbada antes na vida real. Eu estava com 17 anos apenas, de modo que eu me lembro de Heath – ele era mais velho – me dando dicas sobre como é uma pessoa embriagada.

Junger:  Eu era amiga de Paula Abdul e mencionei para Julia que haveria uma excelente coreógrafa trabalhando com ela. Julia respondeu: “que ótimo, mas eu sei dançar”. Fui contra meus instintos e confiei nela.

Stiles: Jamais teria coragem de fazer isso agora. Quer dizer, eu adoro dançar, mas dançar provocativamente em cima de uma mesa? Ouvi dizer que foi essa cena que me deu o papel em Save the Last Dance. O diretor me disse que tinha visto aquela cena e percebeu que eu conseguia dançar hip-hop, não só balé.

Andrew Keegan, que interpreta o modelo masculino Joey Donner no filme, precisou de ajuda numa cena envolvendo um desenho obsceno

McCullah:  Essa cena veio de um amigo meu da faculdade. Ele estava passando por perto e seus colegas de quarto estavam desenhando um pênis no rosto de alguém, e depois saíram para as ruas da cidade.

Andrew Keegan: Francamente, não saberia como desenhar um pênis no rosto de uma pessoa e acho que David foi dos que ajudaram nisso, do ponto de vista criativo.

Krumholtz: Tive de ensinar Andrew. Eu me sentei com ele e ensaiamos. De certo modo eu dirigi meu próprio desenho do pênis no meu rosto.

Keegan: Ouvi as pessoas falando dessa cena durante toda minha vida adulta, por isso acho que fiz um bom trabalho.

Durante a cena mais comovente do filme, em que Kat lê o poema para Patrick, Stiles saiu do roteiro e chorou

Stiles:  Era um papel tão comovente e uma experiência tão maravilhosa que eu estava imensamente feliz e provavelmente triste porque ela estava chegando ao fim, mas também estava muito emocionada.

Junger: Basicamente o discurso todo era uma tomada.

Stiles: Lembro que Heath, quando foram gravar sua reação, disse alguma coisa como “não preciso fazer nada aqui porque não tem a ver comigo”. Muitas vezes um ator tem de chorar e o outro sente que tem de chorar também. E ele sabia ficar contido. Foi realmente muito bom.

Junger: Fiz todo o possível para cobrir minha boca e meu nariz porque estava chorando e muito. Foi uma atuação espetacular. Essa tomada (no filme) é a primeira. Dei um salto e abracei Stiles por um longo tempo.

O elenco recorda das filmagens como alguns dos melhores períodos das suas vidas, mas gostariam que Heath Ledger estivesse presente para comemorar o aniversário

Oleynik: É a projeção de uma fantasia de uma experiência na escola secundária, mas também baseada no que muitos jovens de 17 anos estão sentindo ainda, no que ainda estou sentindo como um indivíduo de 37 anos.

Gordon-Levitt:  Acho que aquela proximidade que todos nós tivemos naquele verão em grande parte é a razão pela qual as pessoas gostam desse filme, porque ele não é falso. Passei todo o verão rindo de Krumholtz e lentamente comecei a falar como ele. No fim daquela temporada, todos falavam como um judeu de Queens por causa do Krumholtz.

Krumholtz:  As pessoas ainda dizem, “tenho um pênis no meu rosto, não?” E tenho de responder, “ei, você me pegou”. Isso me persegue a vida toda. É maravilhoso.

Stiles: Foi um verão realmente divertido. Não havia ninguém insuportável no grupo. Lembro de Heath tocando  didjeridu (instrumento de sopro dos aborígenes australianos) e foi a primeira vez que ouvi esse instrumento.

Krumholtz: Sempre engulo com dificuldade quando sei que alguma coisa que digo sobre Heath vai me levar de volta para lá. Minha turma era Heath e seu adorável assistente e melhor amigo, Trevor (DiCarlo). Eu gostava muito de Heath. À medida que fiquei mais velho e o filme cresceu em relevância junto a novos públicos, é mais difícil imaginar que ele morreu daquela maneira. Eu adoraria que ele participasse deste artigo, se sentir valorizado por sua atuação no filme, porque ele trabalhou duro em 10 Coisas que Odeio em Você.

Union: Heath olhava para você e de um modo que você se sentia a Princesa Diana. Num ambiente tão abarrotado como Hollywood, ele fazia você se sentir especial. Era um dom especial que ele tinha e acho que não falamos muito sobre isso.

Krumholtz: No final da sua vida estive com ele, numa época em que ambos estávamos vulneráveis e tentando nos recuperar de alguma coisa que nos atormentava. Tive a oportunidade de dizer a ele o quanto eu o amava e tentar ajuda-lo. Ele ficou tão famoso e sua vida se tornou tão maluca que no momento em que deveria dizer algo não o fiz, o que lamento muito. Para os fãs ele é um astro do cinema que morreu. Para mim, ele era alguém de carne e osso, uma pessoa com alma, doce, e sei que estava em recuperação antes da sua morte, tentando ficar saudável.

Só quero que as pessoas saibam que ele era um indivíduo que sofria, que não havia um ser humano mais adorável. Prefiro lembrar Heath como o garoto de 20 anos fazendo seu primeiro papel principal com um largo sorriso no rosto, assumindo o comando como líder do grupo como qualquer bom líder de um ensemble deveria.

 

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