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‘Ela’ radicaliza a impossibilidade do contato humano

Diretor Spike Jonze expõe a crítica ao esfriamento das relações humanas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

13 de fevereiro de 2014 | 18h39

Pode não ter nada a ver, mas vale lembrar que num filme antigo – Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo – Woody Allen mostra Gene Wilder como um homem que se apaixonava por uma ovelha e, abandonado por ela, tornava-se alcoólatra e caía na sarjeta. Era divertido e bizarro, mas não mais que a história de Ela, sobre o homem que se apaixona pela voz feminina de seu sistema operacional em seu computador e em seu celular.

O longa de Spike Jonze com Joaquin Phoenix. que estreia hoje, concorre a várias categorias no Oscar 2014. Antes que você diga que não tem nada a ver comparar zoofilia com sexo virtual – o segundo é mais clean –, o traço comum entre Woody Allen, há 40 anos, e Spike Jonze, hoje, é que ambos falam da dificuldade de comunicação entre as pessoas. De preconceito, também.

Descoberta a zoofilia, Gene Wilder era tratado como um caso e rejeitado pelos amigos de ontem. O casal de amigos de Joaquin pode até aceitar ir à praia com seu celular e ele. Fazer sexo com uma voz que geme e sussurra, afinal, não é mais estranho do que todos aqueles jogos interativos em que a ex-mulher atira na cara do que foi seu marido que ele não tem jeito, nunca vai amadurecer.

A verdade é que, por absurda (bizarra) que pareça a história de Ela, reflete uma característica (problema?) contemporânea(o). As pessoas estão passando mais tempo navegando na internet ou com seus celulares e iPads do que com seus entes queridos.

Spike Jonze nem sempre acerta o tom, mas é um dos diretores/autores mais talentosos de sua geração. E ele tem ideias originais – Quero Ser John Malkovich era sobre um sujeito que descobria, em seu escritório, uma passagem para a mente do ator; Adaptação, com roteiro de Charlie e Donald Kaufman, era sobre a dificuldade de adaptação de um livro etc.

Jonze agora radicaliza uma crítica ao comportamento humano face à (r)evolução dos costumes provocada pela internet e suas redes sociais. Joaquin até que tenta se relacionar, mas nada parece dar certo, e ele afunda no mal-estar. É verdade que isso ajuda em sua atividade, porque o solitário é um profissional que escreve e responde a cartas e cartões de amor. É bom com as palavras e uma editora até quer publicar um livro com uma seleção de seus textos.

Quem lhe dá forças é a mulher dentro de seu sistema operacional. A voz da mulher. Tudo começa meio inocente, quando vê a publicidade desse novo lançamento. Tudo na mulher desejada – dentro do computador – pode ser personalizado, ou assim parece. E como a voz sedutora é de ninguém menos que a de Scarlett Johansson, não surpreende que logo logo o herói esteja caidinho pela nova “namorada”.

Seu bem-estar é tão flagrante que desperta inveja e até ciúme na amiga que se separou do marido e talvez esteja interessada nele.

Por maluca que pareça a história, Jonze quer que o espectador acredite nela e a narra com o pé no real. O problema é a perda dos limites entre o que é real e o que não é. Ela é muito bem feito, muito bem fotografado. 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen – um artista que veio das artes visuais –, pode ser melhor (e é), mas certamente, pela próprias natureza do tema, não é tão bonito. O trabalho de cor e cenografia – nos ambientes, nas roupas – compõe um primor de elegância.

Há algo de futurista, e tudo, ao mesmo tempo, é perfeitamente viável. O futuro já chegou. A arquitetura dramática converge para o momento desmistificador, em que Joaquin, falando com sua amada, descobre que não é o único amante.

Phoenix é maravilhoso no papel. No limite, o que Jonze está querendo dizer pode até parecer banal – nada substitui as relações humanas. Mas é um sinal dos tempos que seja necessária uma fábula para nos lembrar disso. É um belíssimo filme, dos melhores deste Oscar.

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