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'O Silêncio do Céu' promove o efeito destrutivo das palavras não ditas

Longa é muito bem filmado e tem algumas cenas marcantes

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2016 | 06h00

O filme começa de maneira perturbadora, com um estupro. A sequência é para lá de bem filmada, o que só aumenta o incômodo da cena. Ela abre O Silêncio do Céu, novo filme de Marco Dutra. Diretor jovem, com bom currículo, é de sua autoria o ótimo Trabalhar Cansa (em parceria com Juliana Rojas) e Quando Eu Era Vivo (solo). Neste novo longa, Dutra opta por uma mescla internacional, com elenco misto (brasileiro e argentino), e diálogos em espanhol quase o tempo todo.

A mulher estuprada é Diana (Carolina Dieckmann). Acontece que o marido, Mario (Leonardo Sbaraglia, de Plata Quemada) estava presente, assistindo à cena pela janela e não interveio. A própria Diana não diz nada, e o silêncio se instala entre os dois. Por que Mario não tentou impedir que sua mulher sofresse a violência sexual? Bem, há uma narração em off na qual ele se declara fóbico. Tem medo de tudo, de altura, espaços fechados e velocidade. Diz que o avião concentra todas as suas fobias – viaja no céu, é claustrofóbico e veloz.

Claro que a primeira ideia é classificar Mario como um covarde, ou um pobre coitado. Ou doente. Mas o filme não faz qualquer juízo condenatório sobre o personagem. Procura entendê-lo. E compreender Diana e o que acontece na subjetividade de um casal quando, entre eles, se instala um silêncio dessa grandeza.

Sem criar spoilers, pode-se dizer que Mario não deseja permanecer em sua inércia e, tal como um Lorde Jim contemporâneo, busca sua segunda chance. Talvez não pelos caminhos convencionais, mas procura resgatar o que sente como uma falta, talvez do caráter, talvez da vontade. Ou da falta de oportunidade e capacidade de pensar rápido. Enfim, Mario é um homem em busca de vingança.

O Silêncio do Céu é muito bem filmado. Tem algumas cenas marcantes como aquela em que, a bordo do seu carro, o criminoso espreita sua vítima no interior de uma butique. O tom frio da imagem lembra o de uma tela de Hopper, enquanto uma edição de som esperta faz a trilha sonora crescer até se tornar demolidora. Nesta pequena sequência se resume a concepção do diretor de um thriller psicológico como este. Trabalha com o mal-estar provocado pela presença do mal, que se insinua de maneira sutil no mundo “normal”. É a presença do fantástico, essa irrupção do irracional na ordem estabelecida das coisas, e que está já presente nas outras obras do diretor.

Um diferencial de Dutra é não deixar sua paixão pelo fantástico bastar-se a si mesma. Está sempre a serviço de algumas ideias que subjazem à trama. No caso, o das palavras não ditas e seu efeito deletério sobre a subjetividade. E o tema da vingança, que implica a decadência psicológica de quem se vinga. O final aberto, no entanto, denota o desejo de dar tratamento não moralista a essas questões vitais.

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