Egoyan humaniza serial-killer em "O Fio da Inocência"

Era um dos filmes mais aguardadosdo Festival de Cannes de 2000. Afinal, Felicia´s Journey, queestréia nesta sexta-feira no Brasil como O Fio daInocência, não era só um filme de Atom Egoyan, o talentosodiretor canadense de origem armênia, nascido no Egito, um dosgrandes do cinema atual. O Fio da Inocência é o primeirofilme do diretor após a indicação para o Oscar (por O DoceAmanhã). Egoyan teve carta branca da Icon, a produtora de MelGibson. Fez o filme que quis, com total apoio do astro dasséries Mad Max e Máquina Mortífera. O Fio da Inocência é tão perturbador quanto O DoceAmanhã. Decepcionou, mais do que desconcertou, em Cannes.Apenas dois anos depois, a vitória é de Egoyan. A estréia vaimostrar que, tudo bem, O Doce Amanhã pode ser melhor, masO Fio da Inocência não merecia a fria acolhida que teve. Éoutro belo filme do autor.Egoyan falou com a reportagem pelo telefone. Já haviaconversado com o repórter em Cannes. Lamenta que, no climaruidoso do festival, seu filme tenha sido mal compreendido. Masobserva: "Já fui premiado outras vezes, não posso reclamarporque não me premiaram." O Fio da Inocência conta ahistória de um serial killer. É o personagem interpretado porBob Hoskins. Mas a protagonista, a Felicia do título original, éElaine Cassidy. É uma jovem irlandesa que abandona seu país (e afamília) para procurar, na Inglaterra, o jovem que partiu embusca de oportunidade e trabalho. Felicia está grávida, a mãe dorapaz dificulta ao máximo seu contato com o filho. Ela seaproxima de Hilditch, o personagem de Hoskins.Ele mata mulheres solitárias. Atrai a garota à sua casa,cria-se uma relação perturbadora. Egoyan explica por que quisadaptar o romance do escritor irlandês William Trevor: "Ele éum dos maiores autores da nossa época; cria retratos complexos emuito reais de personagens multifacetados, mas o que mais meagrada em Trevor é que ele possui, no mais alto grau, compaixãopelos dramas das figuras que cria."Os personagens vivem nummundo atemporal. Hilditch no passado, assombrado pelaslembranças da mãe; Felicia, num estado de inocência que não émuito comum às garotas de sua idade. "Ambos temem a realidade,mais do que isso, encontram formas de negá-la; Trevor sugereisso através de climas que me esforcei por captar; não consideroque seja cabotinismo dizer que acho que consegui."É um filme sobre um serial killer sem violência. Egoyanexplica que Hilditch não se vê como homem violento; se criassecenas gráficas, estaria traindo a natureza do personagem. E,depois, a ambivalência, a própria dualidade em que ele vive, émais eficiente para revelar sua psicopatologia. "É claro que setrata de um monstro: é edipiano e tenta controlar, mais do queisso, destruir as mulheres das quais se aproxima, valendo-se davulnerabilidade delas, que entendem sua solicitude como algopaternal. Mas Hilditch, se incomoda, não desperta ódio nem eutento trabalhá-lo de forma a predispor o espectador contra ele.O maniqueísmo não me interessa. A vida não é feita de contrastesentre o bem e o mal. Prefiro as áreas nebulosas. Hilditch temalgo de comovente, merece compaixão; foi o sentimento com o qualquis trabalhar. E, depois, não existe o mal absoluto paraTrevor: para ele, o próprio Diabo poderia ser salvo pelabenevolência."Arsinée Khanjian é mulher do diretor. Trabalhou emExótica e O Doce Amanhã, os únicos (de seus 15 filmes)lançados nos cinemas brasileiros. Arsinée, numa criaçãodivertida, é a mãe de Hilditch, nos flash-backs que o mostram,menino, acompanhando Gala (é o nome dela) nas gravações de umprograma de culinária na TV. Adulto, Hilditch continuatrabalhando com comida. Adora cozinhar - e cozinha pratossaborosos para seduzir as mulheres que quer destruir. A naturezaedipiana do personagem, a figura da mãe, a importância daculinária, tudo isso sugere uma aproximação com o universo deAlfred Hitchcock. Basta citar Frenesi, com seu (anti)herói queestrangula mulheres com uma gravata fálica, sendo a culpaatribuída a um inocente atormentado pelos pratos da cozinhafrancesa que lhe impinge sua mãe.Hitchcock - Poderia ser um filme hitchcockiano, mas nãoé. "Admiro o refinamento de Hitchcock, mas queria esvaziar ofilme de todo conceito de suspense." Não é a menor das ousadiasdessa narrativa que integra o vídeo sem impor a captação emdigital - Egoyan admite que, desta vez, teve mais dinheiro parafazer experimentações estéticas - e ainda tenta organizar suahistória convencido de que o importante é aprofundar a formacomo os personagens se vêem ou vêem seu mundo particular.Egoyan faz isso convencido de que o cinema é uma forma nãoliteral de mostrar as coisas, avançando e retrocedendoexatamente como cada um de nós faz na mente. "Achoperfeitamente natural estruturar o relato dessa maneira nãoconvencional." Ele também cria planos muito complexos, tomadasem que mexe com diferentes lentes e sofisticados movimentos decâmera para mostrar a dupla que circula praticamente pelosmesmos espaços sem se encontrar. As cenas de Felicia e Hilditchnas ruas de Birmigham são, nesse sentido, preciosas. "É a minhamaneira de expressar a convicção de Trevor, de que, na vida,tudo ocorre por acaso."O Fio da Inocência (Felicia´s Jorney). Suspense.Direção de Atom Egoyan. Can-EUA/2001. Duração: 116 min.

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