Efeito colateral

Avaliar o circuito nos transformou em cobaias de outro experimento: o que acontece com quem passa tanto tempo em salas de cinema? ‘Super Size Me’ na bonbonnièrePipoca, refrigerante, nuggets, cachorro-quente, nachos... Nossa alimentação em janeiro não foi das mais saudáveis. Como tínhamos de provar os itens da bonbonnière, criamos, sem querer, nossa própria versão de ‘Super Size Me’, documentário no qual o diretor Morgan Spurlock passou um mês comendo apenas no McDonald’s. Depois de duas semanas de comida gordurosa, nosso estômago começou a reclamar. Cólicas e azia foram uma constante nos dias seguintes.‘O Iluminado’ na saída da salaVer dois filmes todo dia faz você esquecer todo o romantismo que há no escurinho do cinema. Ao sair da sala, sua visão fica cada vez mais sensível à luz ambiente. Nunca havia nos ocorrido este problema de fotossensibilidade, que talvez só ocorra em quem compra a permanente da Mostra de Cinema de São Paulo. Nos últimos dias, começamos a levar óculos escuros, só para não ter de ficar tateando as paredes na hora de ir embora. Cogitamos até o aluguel de um cão-guia.‘E o Vento Levou’ (saúde!)"Síndrome do Edifício Doente" é o termo usado por especialistas para se referir a ambientes hermeticamente fechados que utilizam o ar condicionado de forma errada. Não temos conhecimento técnico para apontar os cinemas que não cuidam da manutenção do sistema de ventilação. Mas ir de sala em sala atacou nossa rinite. Com regulagens diferentes e talvez acumulando pó e bolor demais, o ar condicionado nos fez gastar verba extra com antigripais.‘O Sol É para Todos’ ou não?Os amigos foram os primeiros a reparar. Em pleno verão, nosso tradicional branco-escritório havia regredido para um, digamos, transparente-cinema. Pelo que parece, a luz do projetor não basta para pegar uma cor. Ficar a tarde toda em salas de cinema - todos os dias, até no fim de semana - nos deixou um pouco pálidos. Como resultado, aumentamos o fator de proteção do bronzeador assim que tivemos tempo para curtir uma piscininha de novo.‘Corcunda de Notre Dame’Assentos altos, baixos, largos, estreitos, com muito ou pouco espaço para as pernas. E, de repente, a coluna sentiu. Tudo indica que ficar muitas horas sentado pode prejudicar as costas. Travado, um de nossos repórteres recorreu a essas massagistas de shopping. Ainda faltava uma semana de visitas às salas de cinema. Para continuar, foi preciso adaptar exercícios de alongamento antes e depois das sessões. E, às vezes, dar uma esticada no meio do filme.Quase ‘Um Dia de Fúria’Ir ao cinema é para ser um programa agradável. Mas a falta de educação está se alastrando entre os espectadores. Falar durante a sessão, atender celular no meio do filme, furar fila sem a menor cerimônia, chutar a poltrona da frente... Visitar 46 cinemas nos fez perceber que o problema é crônico e generalizado. Há um limite que o sujeito pode suportar. Quando começaram os espasmos nos olhos, deu vontade de bancar o Michael Douglas de ‘Um Dia de Fúria’.

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