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'Educação Sentimental' é uma fábula sobre a impossibilidade do ato amoroso

Diretor usa filosofia, arte, mitologia e psicanálise para fazer um filme de ideias

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

02 de dezembro de 2013 | 22h42

No plano inicial do filme, um rapaz banha-se numa piscina. Em seguida, estamos numa estradinha deserta, diante de um panorama magnífico – o Mirante Sétimo Céu, no Morro Dois Irmãos, no Rio de Janeiro. Estão lá o rapaz e uma mulher mais velha. Eles se apresentam: Áureo e Áurea. Ela recita (o termo é esse) uma passagem da mitologia. Endimião, jovem pastor, um dia foi admirado pela Lua. Ora, a Lua é um deus, ou deusa. Andrógino(a). Não pode se relacionar com um mortal. Como castigo, Zeus impõe a Endimião o sono eterno. Mas toda noite a Lua aparece para contemplá-lo.

Estamos portanto na atmosfera dos mitos, neste que é mais um filme de Júlio Bressane cheio de poesia, alusões, citações. A começar pelo título, Educação Sentimental, que um incauto pode referir à obra de Gustave Flaubert. É verdade que existe um ensaio desse processo entre o rapaz (Bernardo Marinho) e a mulher (Josie Antello). Na casa onde os dois passam a se encontrar dá-se um processo que se poderia chamar pedagógico não fosse o abuso do termo. Ela é uma mulher culta, que discorre sobre seus gostos literários, a família, a música, os romances que deixou inacabados. Estamos no reino da cultura, um epicurismo não estranho à própria persona estética de Bressane.

Mas daí a afirmar que se trata de uma pedagogia amorosa, seria dar um passo a mais. E talvez um mau passo, pois a proposta transcende a simples troca de ensinamentos eróticos entre um corpo e outro.

Mesmo porque a “relação” entre os dois será marcada pela impossibilidade. Será, portanto, uma não relação. E, nesse ponto, Bressane dialoga tanto com a mitologia quanto com a psicanálise lacaniana. “Não existe relação sexual”, dizia o psicanalista francês, simplesmente porque não se pode estabelecer um termo médio, de contato total entre um homem e uma mulher. Na tentativa de fusão imaginária, os amantes estão sempre condenados ao não encontro. Daí a fantasia recorrente de que a fusão perfeita só se dará com a morte. Isto é, com a aniquilação dos corpos físicos.

É nesse grau de profundidade que se arrisca o cinema de Júlio Bressane, sempre dançando na borda, equilibrando-se no vazio. Não é um cinema que imponha sentido, mas é um cinema que pede sentido. Enigmático, pois não se entrega de maneira imediata, funciona como verdadeira máquina de gerar interpretações. É preciso decodificar as notações eruditas espalhadas pela superfície da obra. Notar a maneira como são rearranjadas pelo artista, ganhando assim sentidos novos. E prestar atenção na maneira como são trabalhadas visualmente, porque um filme, por erudito que seja, não é um tratado de filosofia, filologia ou mitologia. É um complexo abraço entre palavras, sons e imagens que produz certa sensação em quem assiste.

Com esse estilo, Bressane vem, já há muito, ocupando posição excêntrica no contexto do cinema brasileiro. Seu diálogo com o saber universal e com a tradição brasileira é notável. Tudo conversa com tudo. Do mito helênico relido pela psicanálise ao samba refinado de Vassourinha.

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