"Edifício Master" é cinema de síntese

Eduardo Coutinho fez CabraMarcado para Morrer, que já foi eleito, com toda razão, omelhor documentário brasileiro de todos os tempos. Fica difícil,portanto, dizer que Edifício Master, que estréia nesta sexta-feira- em apenas uma sala -, seja a obra-prima do diretor. Mas o seufilme mais abrangente, com certeza, é. Coutinho conseguiuconcentrar num prédio de Copacabana uma idéia de cinema, de Paíse até um estudo sobre a solidão nos grandes centros urbanos.Nada mau para quem achava que seria difícil fazer um filme sobre"nada". Nada, quer dizer outra vez, como ocorre muitas vezes nocinema, exatamente o seu oposto - tudo. Num texto distribuídopela produção, Zuenir Ventura faz a pergunta que qualquer pessoaé inclinada a também fazer: "Como pode caber num simples prédioem Copacabana um universo tão rico e variado?" É o segredo deCoutinho: ele sabe como tirar leite de pedra. Admite que nuncaenfrentou desafio tão forte: "A rigor, este é um filme sobrenada. Não possui um tema, como Santo Forte, a religião, ouBabilônia 2000, a expectativa das pessoas diante do terceiromilênio. Aqui, entrei na casa das pessoas disposto a ouvir o queelas tinham para dizer. Poderia não ter resultado em nada.Felizmente resultou em algo." Coutinho conta isso numa conversa com a reportagem, numapart-hotel nos Jardins, em São Paulo, há coisa de duas semanas.Seus documentários, sempre tão elogiados pelos críticos, colhemnúmeros modestos de espectadores pagantes: 20 mil para SantoForte, e menos ainda, 17 mil, para Babilônia 2000. Elegostaria de atingir, desta vez, 30 mil espectadores pagantes.Está otimista: "Meus documentários anteriores não tiveram nemtrailer; este aqui tem, o que considero um progresso." Admite que roubou a idéia de Consuelo Lins. "Um dia, emfevereiro ou março do ano passado, caminhávamos ali porCopacabana quando ela me falou num tema de documentário que lheinteressava: queria fazer um filme sobre a vida dos moradores deum prédio em Copacabana. Senti um estalo e roubei a idéiadela." Mas foi um roubo consentido, Coutinho apressa-se emexplicar. De posse do tema, ele arranjou a produtora - a empresaVideofilmes, de Walter Salles e seu irmão João Moreira Salles,outro grande documentarista (e que reverencia Coutinho comomestre). O filme revela, claro, uma fatia da classe média, masCoutinho não o fez com essa intenção e, menos ainda, com aintenção de criticar a classe média. É avesso a esse tipo decoisa. Diz que seu maior dogma é não ter preconceitos em relaçãoaos entrevistados. Um exemplo é a mulher que diz que foiimperatriz em outra encarnação, em Santo Forte, porque gostade Beethoven. Algum diretor do Cinema Novo com certezacriticaria essa mulher como alienada, mostraria a própriareligião como alienante, não Coutinho. Seu primeiro desafio foiachar o prédio. Estava quase desistindo - nenhum síndico querialevar a conversa adiante - quando uma amiga lhe falou sobre oMaster. "Eu próprio já havia morado lá por um período. Ela medisse que lá o síndico resolvia sozinho e que não precisaria deautorização de ninguém. Cruzada essa primeira barreira, seria ocaso de negociar as entrevistas com os moradores." Justamente o síndico. É uma das figuras marcantes deEdifício Master. Transformou um cortiço num prédio respeitável.Explica como conseguiu isso: "Uso o método de Piaget; quandonão dá certo, passo para o Pinochet." Durante sete dias,Coutinho e sua equipe, com o aval do síndico, filmaram ocotidiano dos moradores do prédio, localizado a uma quadra daPraia de Copacabana. O Master tem 12 andares e 23 apartamentospor andar - são 276 apartamentos conjugados. Uma rápida sucessãode planos mostra diferentes decorações do mesmo tipo deapartamento. Essa diferença é essencial. O cenário revela ospersonagens - as casas já dão uma idéia das pessoas, que secompleta quando elas se abrem para o diretor. Há uma certa polêmica em relação ao método de Coutinho.Como ele possui pesquisadores, muita gente acredita que elesaiba tudo sobre as pessoas que vai entrevistar, apenas seresguardando de conhecê-las antes. Ele já chega para aentrevista, para manter o frescor do primeiro encontro. E nãorepete nunca as entrevistas. Ele admite que sabe alguma coisa -por exemplo, que a garota de programa não teria problemas emassumir isso diante da câmera. Mas descarta que saiba tudo. "Sesoubesse, qual seria a graça de entrevistar? A graça estájustamente na descoberta." Pode ser, se é o próprio Coutinho quem diz, que a graçaesteja na descoberta, mas ele próprio tem outra frase que jávirou máxima: "A pessoa não tem apenas de ter uma boa históriade vida para contar; tem de saber contar, diante da câmera,senão não adianta." A garota de programa termina sendo umafigura muito importante no filme. Ela fala de si mesma, da suasolidão e, num determinado momento, define-se como uma mentirosacompulsiva. Isso enseja uma discussão com o diretor sobre o quehá de verdade ou de mentira em seu depoimento. Está aí expressauma definição do próprio cinema. E o diretor jura que aquelahistória do McDonald´s, genial, surgiu inteiramente na hora. Sempre há, nos filmes de Coutinho, pessoas que cantam.Aqui há um homem que morou nos EUA, que conheceu Frank Sinatra eque canta My Way. Talvez exista ali um pouco de ridículo, namaneira como ele se expõe. Mas logo o ridículo vira sublime - acena é magnífica. Amigos diretores queriam que Coutinhoterminasse o filme com ela. Ele descartou. Costuma montar osfilmes cronologicamente, mas às vezes altera a ordem porsemelhanças de depoimentos, essas coisas. Atirou My Way maispara o meio - justamente para evitar a noção do ´clímax´. Intercalando os depoimentos, há cenas filmadas noscorredores do Master. A do menino que recolhe o gato e bate naporta para devolvê-lo à dona é um desses momentos em que a sorte,ou o azar, produz algo profundamente mágico. No último depoimento,uma garota, também mãe solteira (como a de programa), termina ofilme de maneira um tanto errática, dizendo que não sabe o quequer da vida. "Não sei." Essa idéia de identidade percorre ofilme e tem, afinal de contas, a ver com o momento que o Paísestá vivendo. Isso interessa particularmente a Coutinho porqueele acaba de fazer, com João Moreira Salles, um filme sobre acampanha de Lula no segundo turno das eleições. João filmou acampanha, Coutinho foi ao ABC entrevistar os peões que fizeram ahistórica greve de 1979 com o metalúrgico agora eleitopresidente. Boa parte do mundo que se expressa em EdifícioMaster é visto através das janelas, o que enseja umaassociação, um tanto óbvia, com o clássico Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock. O filme termina com uma janela que sefecha, um facho de luz que se extingue. Ricardo Dias, tambémdocumentarista (Fé), teve uma sacada brilhante num debate.Disse que o filme de Coutinho é o reverso do de Hitchcock e nãosó porque um é ficção e o outro documentário. A janela deCoutinho é ´discreta´ e nisso vai toda a diferença.Edifício Master - Documentário. Direção de EduardoCoutinho. Br/2002. Duração: 110 minutos. 12 anos

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