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Eddie Redmayne espera que 'A Teoria de Tudo' faça justiça à história de Stephen Hawking

Longa pode faturar estatueta de melhor filme neste domingo

Ian Spelling - THE NEW YORK TIMES, O Estado de S. Paulo

22 de fevereiro de 2015 | 03h00

Interpretar personagens reais, mesmo aqueles ainda muito presentes entre nós é algo rotineiro para atores de cinema, mas, mesmo assim, Eddie Redmayne enfrentou uma tarefa monumental no caso do filme A Teoria de Tudo, que concorre ao Oscar em cinco categorias, hoje à noite, em Los Angeles.

Ele foi escalado para ser o professor Stephen Hawking, o físico teórico que não é somente considerado um dos homens mais brilhantes do mundo e cujos mais importantes trabalhos são incompreensíveis para os leigos, mas também é a pessoa com deficiência física mais famosa do mundo, confinado a uma cadeira de rodas, sem poder utilizar basicamente o corpo inteiro, por causa de uma doença, uma variante da esclerose lateral amiotrófica, a chamada doença de Lou Gehrig. 


Como um ator espera apreender essa figura icônica num filme, especialmente quando tem somente duas horas e três minutos para traçar a trajetória inteira de uma das vidas mais intensas do século 20? “Quando aceitei o papel, as apostas eram bem altas e por diversas razões. Em primeiro lugar, vai retratar um ser humano vivo que também é um ícone e contar sua história de família. Em segundo lugar, está retratando uma doença brutal e para me preparar passei vários meses me reunindo com pessoas que sofrem de esclerose lateral amiotrófica; e assim elas o convidam a participar das suas vidas e você quer ter certeza que vai retratá-las de maneira justa”, afirma o ator.

“E tem o aspecto da ciência, é preciso ser absolutamente fiel às descobertas, também”, conclui Redmayne, numa conversa com um pequeno grupo de jornalistas no Waldorf-Astoria Hotel em NY. “Em seguida, é preciso fazer um filme que seja agradável para o público. De modo que a resposta é um tanto assustadora.”


Eddie Redmayne tornou-se, repentinamente, uma commodity cuja demanda é forte, depois de anos atuando no teatro em Londres e na Broadway, participando de programas da BBC como Tess of D’Ubervilles (2008) e The Pillars of the Earth (Os Pilares da Terra, de 2008), coestrelando filmes como O Bom Pastor, de 2006, Sete Dias com Marilyn, de 2011, e Os Miseráveis, de 2012. 

Pessoalmente, ele parece mais jovem do que sua idade de fato - 33 anos - e, na verdade, tem uma surpreendente semelhança com o jovem Hawking. A Teoria de Tudo acompanha o renomado cosmólogo e astrofísico britânico por períodos chaves da sua vida: seus anos como estudante em Cambridge, o diagnóstico da doença quando tinha 21 anos, seu primeiro encontro com Jane Wilde (Felicity Jones), que se tornará sua mulher e mãe dos seus três filhos, e suas grandes descobertas científicas que resultaram no seu livro emblemático, Uma Breve História do Tempo (1988).


Por coincidência, Redmayne também estudou em Cambridge e em algumas ocasiões chegou a ver Hawking por lá.

“Estudei História da Arte em Cambridge e cheguei a vê-lo no campus. As pessoas costumavam ver sua famosa figura passando por uma das pontes e, às vezes, escutavam sua voz. Uma das grandes alegrias que tive, durante as filmagens, foi voltar àquele local. Senti uma grande nostalgia. Fui ao May Ball da universidade. Nenhum deles teve um espetáculo de fogos de artifício como no filme, mas foi bem interessante. E me trouxe muitas lembranças.”

O ator admite, contudo, que sabia muito pouco sobre Hawking quando começou seu trabalho em A Teoria de Tudo. Para ele, o cientista era “o sujeito que fez estudos sobre buracos negros”. Mesmo quando recebeu o roteiro, achou que seria um filme biográfico padrão, mas, pelo contrário, descobriu que era algo bem mais complexo.

“O roteiro superou todas as minhas expectativas. Tratava-se de uma história de amor, mas complicada, e eu realmente quis fazer o personagem. Sonhava com isso, contar histórias interessantes, de maneira que lutei muito para conseguir o papel”, lembra ele.


“O curioso é que há uma desconexão. Como em qualquer entrevista de trabalho, você chega, diz às pessoas que é ideal para o papel e expõe as razões, as pessoas aceitam e então o papel lhe é oferecido e você é surpreendido. Oh, não! E agora? Não tenho a mínima ideia de como fazer isso.”

“A verdade é que o medo e a expectativa me impulsionaram. Vi que havia muito potencial para fazer tudo errado, mas foi isso que me impeliu a seguir em frente, a pesquisar e trabalhar arduamente no papel.”

Redmayne leu tudo o que encontrou a respeito de Hawking, e o diretor James Marsh deu-lhe quatro meses para trabalhar o personagem, o declínio físico de Hawking e sua incapacidade de se expressar verbalmente, período em que o ator consultou bailarinos e especialistas em treinamento vocal. Mais tarde, cinco dias antes de a produção começar, ele se encontrou com o Hawking real. Ele e Felicity Jones também visitaram Jane e seu segundo marido, Jonathan Hellyer Jones.

Redmayne é o primeiro a reconhecer, porém, que grande parte do seu desempenho dependeu da interpretação de Felicity Jones no papel de Jane. “Simbiose é, provavelmente, o termo exato para explicar por que Jane e Stephen ficaram juntos por tanto tempo e foi o que ocorreu comigo e Felicity”, conta o ator. “Felicity é uma velha amiga. Michael Grandage, um grande diretor de teatro, nos apoiou muito e eu a admirava demais. Quando descobri que ela faria o papel foi ótimo, por que já nos conhecíamos de Londres.”

“Foi muito duro para Felicity, porque em cada cena havia limitações. Não podia me mexer nem fazer várias coisas e grande parte do trabalho pesado ficava com ela”, recorda. 

Eddie Redmayne observa todo o alvoroço sobre a possibilidade de o filme e ele ganharem o Oscar hoje à noite. “Muito interessante.” Mas está mais preocupado em saber como Hawking, Jane e os filhos reagirão ao filme e espera que o drama faça justiça à extraordinária história de amor do casal.

“Recebi algo por minha atuação no filme que vale mais do que qualquer prêmio. Aprendi, encontrando-me com pessoas sofrendo de esclerose lateral amiotrófica e suas famílias, e especificamente com Stephen Hawking, que, quando você é condenado a essa doença, sua noção do tempo muda. E ele decidiu viver cada minuto da sua vida da maneira mais plena e apaixonada que pudesse”, ressalta o ator. “Acho que, em minha vida, as preocupações e as fraquezas cotidianas que tomam conta da mente... Coloquei tudo em perspectiva e isso se tornou uma lembrança constante para desfrutar e viver a vida plenamente.”

Eddie Redmayne pode ser visto na ficção científica O Destino de Júpiter, dirigido por Andy e Lana Wachowski, coestrelado por Mila Kunis e Channing Tatum. Ele também deve se reunir com o diretor do filme Os Miseráveis, Tom Hoper, para o filme The Danish Girl, no qual vai interpretar Einar Wegener, pintor dinamarquês que, em 1931, fez cirurgia de mudança de sexo com autorização da sua mulher, Gerda Gottlieb, e se tornou Lili Elbe.

“É uma história extraordinária, também real, sobre um casal de Copenhague, nos anos 20. Uma história sobre identidade, similar à Teoria de Tudo. Fala também de como é complicado e difícil viver autenticamente e o quão corajosa é a decisão que muitas pessoas têm de tomar. Nessa época, ninguém ainda havia feito isto, ou seja, um homem mudar de sexo. Tenho lido o máximo que posso e me reunido com pessoas da comunidade transexual. Estou procurando me instruir a respeito, no momento”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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