Eça fez crítica feroz à sociedade

Com O Crime do Padre Amaro(1876), Eça de Queiroz iniciou o ciclo de críticas à sociedadeportuguesa do século 19 e seu alvo era a vida devota e ocelibato clerical. O diretor Carlos Carrera atualizou a históriae reteve o que julgou ser o maior pecado: o amor do padre poruma mulher, o que aproxima a trama de uma novela de tevê. No momento em que a Igreja sofre com casos de pedofilia,a decisão do diretor revelou-se oportunista, mas só passa deraspão na verdadeira intenção do escritor português, que apontaa estupidez humana, a mesquinhez da pequena burguesia e agrosseria dos clérigos com cores verdadeiras. Linhas queincomodam mais que cenas sensacionalistas como a do gatorecebendo a eucaristia ou a professora de catecismo que se cobrecom o manto de Nossa Senhora antes do sexo com o sacerdote. Carrera elegeu a estrutura de alguns personagensoriginais para recheá-los com sua psicologia. Amaro Vieira é, navisão de Eça, um sujeito acomodado, que termina no seminário porfalta de opção, psicologicamente resignado com seu destino. Nofilme, apesar de também acomodado, o padre revela mais ambição,transformando-se em um homem cínico, condição que o aproxima doalvo da crítica de Eça. Carrera transforma também o Abade Ferrão, personagemcoerente com seus ideais, no Padre Natalio, ligado à Teologia daLibertação e aos guerrilheiros que enfrentam os ricostraficantes. O vacilo espiritual sofrido por Amaro ao se depararcom esse homem justo seria o pulo do gato do filme, mas Carreraprefere a novela ao aprofundamento do abalo de convicções.

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