Victoria Will/Invision/AP
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E só sobraram um casaco e a pose

Cate Blanchett é uma socialite falida em ‘Jasmim Azul’, que traz Woody Allen de volta a NY

Mary Milliken , Reuters / Los Angeles

29 de julho de 2013 | 11h51

A virada da sorte da protagonista feminina do último filme de Woody Allen, Jasmim Azul, é tão radical que as posses da socialite de Manhattan ficam reduzidas a um tênue eco: um casaco Chanel, malas de grife, uma penca de antidepressivos. Ela consegue conservar a atitude altiva e um sotaque grã-fino.

Mas, no geral, Jasmine, interpretada pela atriz ganhadora do Oscar Cate Blanchett, perdeu tudo, até mesmo a cabeça, graças às pilantragens financeiras e maritais do marido e os próprios modos infelizes.

Após fazer alguns filmes na Europa, Allen não precisou ir longe para encontrar a inspiração para Jasmim Azul, que estreou sexta-feira nos cinemas americanos. Como diz Blanchett, após a crise financeira e a série de casos de fraude como o golpe épico de Bernie Madoff, há muitas Jasmines perambulando pelas ruas da Manhattan de Allen.

“Achei a história toda surpreendente e dolorosa e, no entanto, não surpreendente em absoluto, considerando o que aconteceu psicologicamente e financeiramente com uma porção de pessoas”, comenta. “Quem sentar num parque invariavelmente verá alguém murmurando sozinho e, às vezes, são pessoas de aparência próspera.” Jasmim Azul é o primeiro filme da atriz australiana com o prolífico diretor, conhecido por criar personagens femininos memoráveis como a Annie Hall de Diane Keaton.

Embora Jasmine possa ser memorável, e Blanchett, de 44 anos, tenha recebido críticas favoráveis pelo papel, ela está longe de ser uma heroína ou mesmo uma personagem agradável. Jasmine é antes uma história moralizante do que acontece quando uma mulher constrói sua vida em torno de um marido rico sem atentar para o castelo de cartas onde vive.

Em flashbacks, Allen oferece vislumbres suntuosos de sua vida pregressa: um belo apartamento com paredes verde-bandeira, uma enorme casa de praia, jantares elegantes com roupas de grife. Por sua vez, o marido Hal, interpretado por Alec Baldwin, se envolve com mulheres jovens e negociatas, enquanto Jasmine olha para o outro lado até que tudo desmorona rapidamente, deixando-a na pior.

O filme começa com Jasmine viajando para São Francisco após a prisão do marido por fraude financeira e o confisco de seus bens. Ela é um traste balbuciante sem nenhum lugar para ir exceto a casa humilde de sua irmã operária, Ginger, interpretada pela atriz britânica Sally Hawkins.

“Acho que ela vive algumas situações horríveis e se pode dizer que se colocou nelas, mas não tem nenhuma estrutura de amparo, ou aliados, ou noção da própria situação, por isso está lutando por sua identidade”, comentou Blanchett.

Jasmine envereda para o que Cate chama de um comportamento “realmente intragável”. Ela desaprova a vida de Ginger e suas escolhas masculinas, mas depois se agarra a um diplomata suave interpretado por Peter Sarsgaard para montar seu retorno à sociedade. Ela mente, manipula, e se dá ares, bolsinha de grife e longos sempre à mão.

Jasmim Azul da Sony Pictures Classic é o retorno de Allen a seu país natal, após excursões europeias em seus três últimos filmes, incluindo Meia-noite em Paris, de 2011, e Para Roma com Amor, de 2012. Enquanto esses eram ambos cartas de amor a cidades e personagens românticos, Jasmim Azul tem sugestões de tragédia grega.

Blanchett contou ter-se inspirado para o papel em personagens reais e ficcionais, mas Jasmine é fruto, sobretudo, da imaginação de Allen. “As personagens são particularmente desenhadas no texto”, conta ela. “A maior parte de sua direção está no roteiro.” Mas ela se aventurou a fazer sugestões, incluindo para uma cena inesquecível. A atriz decidiu que Jasmine, que parece muito polida por fora durante boa parte do filme, sairia em público com seu casaco Chanel, mas com o cabelo úmido e sem maquiagem para mostrar que “há sempre alguma coisa um pouco errada”. “Isso foi, provavelmente, um estraga carreira”, disse Blanchett dando risada. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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