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E se 'Star Wars' fosse japonês? Nove curtas reimaginam saga em anime

A obra de George Lucas influenciou e foi influenciada pela cultura japonesa, e esse intercâmbio dá origem a 'Star Wars: Visions'

Mike Hale, The New York Times

23 de setembro de 2021 | 20h00

“Propriedade intelectual” provavelmente não foi um termo que alguém pensou em usar para Star Wars quando o primeiro filme estreou em maio de 1977. Mais de 40 anos de filmes, livros, séries de televisão, brinquedos, jogos, figurinhas e passeios a parques temáticos depois, é difícil pensar na saga espacial de George Lucas como algo diferente do que é.

Isso deveria estar nas mentes dos executivos da Lucasfilm que criaram Star Wars: Visions, um conjunto de nove curtas-metragens de animação estreando quarta-feira na Disney+. É a última exploração calculada da marca, mas não vai deixá-lo cansado. É discreto, em pequena escala, e tem um toque original: Os filmes de 13 a 22 minutos foram criados por uma variedade de estúdios de animação japoneses, fazendo do projeto um exemplo de colaboração intercultural e homenagem mútua.

A animação tem sido um segmento significativo dos negócios e do enredo de Star Wars, primeiramente através dos filmes e séries Clone Wars, incluindo a atual série da Disney+ Star Wars: The Bad Batch. Mas nunca houve a beleza bidimensional e artesanal que você encontrará pelos capítulos de Visions, sem mencionar a variedade visual, o que facilita assistir aos filmes em uma única sessão de 2 hora e meia.

Os animadores japoneses tiveram total liberdade para inventar personagens e se afastar de enredos “canônicos” (com sorte evitando a indignação de fãs superprotetores). Os filmes independentes trazem uma série de novos heróis, embora ao menos um incorpore alguns personagens conhecidos: o caçador de recompensas Boba Fett aparece em Tatooine Rhapsody, de Taku Kimura (Studio Colorido), caçando um Hutt que fugiu dos negócios criminosos da família para entrar em uma banda.

O anime enquanto gênero e Star Wars enquanto franquia são mundos criativos isolados e altamente formalizados com tradições e expectativas que podem sufocar. Mas eles sempre influenciaram um ao outro, e há relações aparentes entre os filmes. O conceito central da Força, de Lucas, se alinha ao eco-romantismo marcante na ficção científica e nos animes de fantasia. Os cavaleiros Jedi, com suas vestes e sabres de luz, são samurais com outros nomes. E as duas tradições compartilham de um excessivo apreço por alegres ajudantes robôs.

Esses elementos aparecem em diversas configurações ao longo dos nove filmes. O que muda é a mistura: o grau em que os filmes parecem curtas de Star Wars que têm personagens de anime, ou curtas de anime que trazem temas de Star Wars.

Filmes do espectro de Star Wars incluem The Twins (dirigido por Hiroyuki Imaishi, Studio Trigger) sobre um irmão e uma irmã que são o lado negro de Luke e Leia, lutando em um destruidor estelar de casco duplo, e o ambicioso The Ninth Jedi, de Kenji Kamiyama (Production I.G) sobre um plano para reunir um grupo de Jedis caçados e armá-los novamente com seus sabres de luz.

Para aqueles que gostam mais de anime do que da Lucasfilm são interessantes os curtas que centram a ação em cenários japoneses que não são o padrão na paisagem de Star Wars. O planeta Tau em Lop & Ocho, de Yuki Igarashi (Geno Studio), um dos filmes mais excitantes, é um mundo urbano japonês extremamente detalhado. The Elder (Trigger), de Masahiko Otsuka e Akakiri, de Eunyoung Choi (Sciense SARU) evocam o mundo rural japonês como tradicionalmente retratado nos animes; Akakiri aumenta a conexão com aquarela e técnicas de caneta e tinta.

Akakiri também fecha o círculo da conexão anime-Star Wars: sua história sobre uma princesa e um samurai fazendo uma viagem perigosa na companhia de dois plebeus arrogantes é o enredo do filme A Fortaleza Escondida, de Akira Kurosawa, uma das primeiras inspirações de Lucas para o Star Wars original.

Os curtas mais interessantes são aqueles que se aprofundam nesse tipo de conexão. The Duel, o filme de Takanobu Mizuno praticamente em preto e branco também evoca Kurosawa, com um ronin errante estilo Yojimbo acompanhado de um robô R2-D2 com um tradicional chapéu de palha de fazendeiro. O encantador desenho animado “T0-B1” (Science SARU) de Abel Góngora, sobre um androide que quer ser humano é uma homenagem ao herói clássico de anime Astro Boy.

(A coleção coloca uma questão cultural e estética prática para os não falantes de  japonês: legendas ou dublagem. Legendas são sempre a resposta certa para animes, mas em Visions há vozes notáveis em inglês, incluindo Neil Patrick Harris, Alison Brie  e a estrela de Shang-Chi, Simu Liu. A dublagem soa muito artificial, mas vale a pena trocar de vez em quando, por exemplo, no momento em que George Takei dubla um dos plebeus em Akakiri)

Que Star Wars: Visions seja, enfim, mais uma diversão agradável que uma experiência gratificante não é uma questão de tempo de duração ou talento. É porque todos os filmes - e você perceberá isso com uma sensação de desânimo enquanto assiste - funcionam mais como testes para séries contínuas do que como conjuntos orgânicos; nenhum parece realmente autocentrado, e alguns até mesmo terminam com ganchos óbvios. Para parafrasear Yoda, o que fazer não há. Tente apenas para resíduos futuros. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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