Maven Pictures
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'É preciso falar das engrenagens do ódio', diz Jamie Bell, que vive ex-supremacista branco em 'Skin'

Ator interpreta Bryon Widner, que removeu as tatuagens de cunho racista que tinha após desistir de defender a supremacia branca

Rodrigo Fonseca, Especial para o Estado

07 de janeiro de 2021 | 05h00

Ainda adolescente, com 14 anos, o inglês Andrew James Matfin Bell viu seu primeiro trabalho profissional como ator, Billy Elliot, ser indicado ao Oscar e ganhar elogios do mundo todo em uma batalha do cinema contra a incorreção política e contra todas as práticas da intolerância. Ali, ele passou a ser conhecido apenas como Jamie Bell e iniciou uma trajetória coroada por parcerias com Steven Spielberg, Lars von Trier, Peter Jackson, Thomas Vinterberg e Bong Joon-ho. Mas nada nessas duas décadas, entre sua coroação internacional no papel de um jovem aspirante a bailarino e seus projetos para 2021 (como o thriller Without Remorse, baseado no escritor mega-seller Tom Clancy), exigiu dele uma dedicação e uma transformação física tão intensas quanto Skin – À Flor da Pele.

Previsto para entrar em cartaz no cinema nesta quinta, 7, e, no dia 12, no serviço online da rede Telecine, o longa-metragem do israelense Guy Nattiv (de Mabul) foi uma das sensações do Festival de Berlim de 2019, onde chocou espectadores ao revisitar a história real do supremacista branco Bryon Widner, que cansou do ódio ao se apaixonar por uma mãe solteira, após anos das mais diversas violências raciais. Seu corpo era todo coberto de tatuagens, muitas delas de um explícito tom racista, removidas num doloroso processo dermatológico a laser. Essa remoção foi tornada pública por Bryon em 2011, nas redes sociais, quando rejeitou seu passado brutal e delatou o grupo de skinhead Vinlanders, do qual era parte. 

“Depois das manifestações de supremacistas em Charlottesville, há quatro anos, fiquei me perguntando qual era o sentido de se colocar pessoas que agiram como Bryon sob holofotes e dar voz a elas. Mas entendi que, para afirmar o amor, em um contexto político real, era necessário falar das engrenagens do ódio – não de uma maneira afirmativa, ingênua, e, sim, de uma forma mais questionadora. Será que uma pessoa que passou anos levantando a bandeira do ódio e depois enfrentou dois anos de tratamento, submetendo-se a dezenas de procedimentos cirúrgicos, a fim de se livrar de toda a tinta que tinha nas tatuagens em seu corpo, mudou mesmo?”, questiona Bell.

“Não conheci Bryon a fundo, mas vi que uma mulher fez ele tomar a decisão de abrir mão de toda a violência na qual cresceu. É essa escolha que me interessa, pois vem ligada à persistência de alguém em mudar”, continuou Bell na Berlinale de 2019, onde contou ao Estadão que enxerga semelhanças nos perfis de Bryon e o de Billy Elliot. “A resiliência é um ponto comum. Eu ainda era um menino quando fui escolhido para viver uma criança que queria dançar em um filme para adultos. Ouvi a proposta e aceitei. Dizer ‘sim’, ali, ainda tão jovem, mudou minha vida. E é isso o que busco entender na minha trajetória como ator. As decisões que os personagens tomam e suas consequências.”

Semanas depois de sua passagem por Berlim, Guy Nattiv ganhou um Oscar, o de melhor curta-metragem de ficção, por um filme também chamado Skin e também conectado a células de supremacismo, que nasceu como uma extensão do longa com Bell. Em ambos os projetos, o cineasta utiliza as memórias de Bryon que, ligado a um programa federal dos EUA de proteção a testemunhas, virou um pesquisador universitário, ajudando o FBI a acabar com células neonazistas. A versão longa de sua história surpreende pelo modo como a montagem, avessa a clichês, embaralha tempos narrativos distintos. Nas várias etapas da trajetória de redenção de Widner, o público percebe sua aversão aos crimes da família de racistas que o criou. Há um desejo de reintegração latente nele, que se amplia depois de seu encontro (apaixonado) com Julie Price (Danielle Macdonald, de Patti Cake$). 

“Pensei que pudesse morrer ao fazer o filme, por conta dos pensamentos ruins que me vinham daquela experiência de entrar em um território de intolerância absoluta. Cheguei a ficar assustado com as tatuagens no meu rosto, porque não me reconhecia”, disse Bell. “É claro que, como ator, você tem distanciamentos. E a questão ali não era ser assustador e, sim, criar uma figura quase sonâmbula, letárgica, que age à deriva nas águas do ódio alheio. O silêncio foi meu maior parceiro nessa construção.”

Em 2021, Bell vai rodar ainda o western Surrounded. Ele está cotado ainda para retornar ao papel do detetive Tintin, em uma nova animação baseada nas HQs de Hergé (1907-1983). As Aventuras de Tintim: Os Prisioneiros do Sol vai ser dirigida por Peter Jackson e trará o ator como a voz do lendário herói dos quadrinhos belgas. 

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