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'...E o Vento Levou' e o cinema racista que incomoda

Na esteira da declaração de John Ridley, roteirista de '12 Anos de Escravidão', Luiz Carlos Merten seleciona filmes cujo racismo está, mais que nunca, 'totalmente out'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

11 de junho de 2020 | 14h50
Atualizado 11 de junho de 2020 | 22h24

Correções: 11/06/2020 | 19h24

Falando no funeral de George Floyd, a antiga professora lembrou o menino que queria ser magistrado. Ele não conseguiu, mas fez mais - “Está mudando a Justiça”, disse a emocionada mestra. A morte brutal de Floyd, sufocado por um policial branco, provocou o furacão que varre os EUA e o mundo. Por toda parte sucedem-se os protestos, as reivindicações. Em Londres, estátuas de líderes colonialistas/racistas foram derrubadas por multidões ernfurecidas. Nem os clássicos do cinema estão sendo poupados.

Em carta ao The Los Angeles Times, John Ridley, roteirista de 12 Anos de Escravidão – filme de Steve McQueen premiado com o Oscar – acrescentou combustível à fogueira. Disse que, no quadro do #BlackLivesMatter, Vidas Negras Importam, não pode mais haver espaço para um filme como ...E o Vento Levou, pela maneira como retrata os negros. Imediatamente, a HBO Max retirou o clássico produzido por David O' Selznick de sua plataforma de streaming. Certamente haverá polêmica, pois a obra reflete uma época e possui inquestionável importância histórica. Nem por isso é menos, qual é a palavra, intolerável? A seguir, uma pequena viagem por filmes cujo racismo está, mais que nunca, totalmente 'out'.

Nascimento de Uma Nação

O clássico de David W. Griffith, de 1915, também é considerado o nascimento da linguagem. Mas a história sobre o ex-escravo – um ator branco flackfaced – que tenta estuprar a mocinha e ela prefere se matar, por mais bem filmada que tenha sido, há 105 anos -, já na época provocou protestos. A Associação para o Progresso das Pessoas Negras, o presidente da Universidade Harvard, jornais importantes. Todo mundo reclamou, houve passeatas em Nova York, Chicago, Boston. Griffith ficou tão surpreso que decidiu mostrar que era liberal, fazendo Intolerância em 1916.

 

 

O Cantor de Jazz

O trabalho de Alan Crossland, de 1927, entrou para a história como o primeiro filme falado, mas hoje seria visto como piada, senão como aberração. Al Jolson faz cantor religioso judeu que pinta o rosto de preto, fazendo-se passar por negro para ser aceito como cantor de jazz. Sua primeira fala, 'Hello, mam', levava o público ao delírio, há 93 anos.

 

 

...E o Vento Levou

A adaptação do romance de Margaret Mitchell ganhou aquela penca de Oscars em 1939, incluindo melhor filme, diretor (Victor Fleming) e atriz (Vivien Leigh). Também fornece, até hoje, mais de 80 anos depois, uma grande lição de cinema narrativo. Mas é racista na evocação do Sul 'aristocrático' e no tratamento dispensado às personagens negras. Cúmulo do preconceito – Hattie MacDaniel ganhou o Oscar de coadjuvante pela sua Mammy, mas sequer pode assistir à estreia com o restante do elenco, porque as leis racistas da Georgia impediam que negros e brancos sentassem juntos.

 

 

Outras etnias

O Judeu Süss

Em 1940, o ministro da Propaganda de Adolf Hitler, Joseph Goebbels, publicou um decreto considerando esse filme “altamente recomendado por seu valor artístico e por servir à política de Estado, sendo recomendado para a juventude”. É outra aberração. Instigado pelo rabino satânico, seu discípulo torna-se ministro, persegue os arianos, estupra uma virgem e, ao cabo de outras atrocidades, termina queimado como castigo. O antissemitismo em todo o seu horror.

 

Correções
11/06/2020 | 19h24

Quem escreveu o texto ao Times foi John Ridley, e não Solomon Northup (1808-1863).

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