BIA LEFEVRE/DIVULGAÇÃO
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É na urgência da rua que novo filme com Lázaro Ramos cresce e se encontra

'Tudo Que Aprendemos Juntos', dirigido por Sérgio Machado, corria o risco de ficar no paternalismo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

06 de dezembro de 2015 | 06h00

É muito interessante a ponte que Lázaro Ramos faz entre Tudo Que Aprendemos Juntos e Central do Brasil, o longa de Walter Salles que adquiriu status de clássico do cinema brasileiro. Lázaro os vê como primos-irmãos no debate da questão ética. É tudo o que o Brasil anda precisando neste momento de incerteza. O próprio diretor Sérgio Machado desabafou para o repórter – durante a sessão do filme para a comunidade, em Heliópolis – que houve um momento em que chegou a pensar em desistir do projeto. Porque o Tudo... não nasceu como coisa dele. Foi um filme de encomenda, proposto pela produtora dos irmãos Gullane, que ele topou fazer.

Em plena rodagem, começaram as dúvidas. O bom-mocismo do projeto, dos personagens. A aposta num Brasil que dá certo. Tudo Que Aprendemos Juntos estava virando um filme hagiográfico no imaginário do diretor. E aí, um dia, caiu a ficha para Machado e ele se colocou na pele do personagem de Lázaro, estranho nesse mundo em que entra movido por necessidade de sobrevivência e com o qual começa a se comprometer.

Dora, em Central do Brasil – a personagem de Fernanda Montenegro –, não era simpática para o espectador. Mas, com o desenrolar do drama, e contaminada pela sua relação com o garoto, a mulher endurecida pela vida descobria valores – humanos, sociais, numa palavra: éticos – que há muito havia esquecido. Lázaro, em Tudo Que Aprendemos Juntos, também não é simpático. Ele começa o filme em crise. Violinista, ele tenta uma vaga na Orquestra Sinfônica de São Paulo. Fica paralisado diante da banca e perde o posto. Sem dinheiro, aceita a experiência de preparar garotos de uma orquestra de periferia para uma audição. Chega irritado, querendo brigar com Deus e o mundo. Mas termina por se comprometer.

A força de Tudo Que Aprendemos Juntos vem dessa passagem. Porque, se é verdade que os garotos e garotas aprendem com o violinista improvisado em professor, ele também aprende com eles, num processo de troca. O começo do filme aponta para suas debilidades – paternalismo, boa vontade, idealização. Não se pode esquecer que a origem de Tudo Que Aprendemos Juntos está na peça Acorda, Brasil, de Antônio Ermírio de Moraes. Se ficasse só no conflito interno do professor, ou nos clichês de periferia para retratar a garotada, o filme seria, talvez, insuportável. As coisas começam a mudar quando a realidade intervém, e a câmera de Sérgio Machado a captura.

O contato com os traficantes – a intimidação do professor pelos homens do ‘dono’ da comunidade – e a perseguição dos garotos pela polícia desestabilizam em definitivo o relato. E é aí, na urgência da rua, que o filme cresce. O diretor tem dado sucessivas entrevistas em que fala sobre seus sentimentos controversos ao longo do processo que agora culmina com o filme em cartaz. Teve um momento (recente) em que ele chegou a achar que o filme havia perdido sua hora. Face à movimentação das últimas semanas – e dos últimos dias, especialmente dos socos de policiais nos jovens que protestam contra a reorganização das escolas, capa do Estado de sexta-feira, 4, ele repensa e diz que, afinal, o Tudo... chega na hora certa para elevar a autoestima não só das comunidades, como do brasileiro em geral.

E, se o filme corria o risco de idealizar, o twist final, envolvendo o cartão de crédito e o concerto na Sala São Paulo, é um piscar de olhos cúmplice que mantém a ficção atrelada ao real. Elogiar o elenco é covardia. Não apenas Lázaro. Os garotos Kaique de Jesus e Elzio Vieira são ótimos.

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