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'É meu filme mais difícil', diz Anna Muylaert sobre 'Que Horas Ela Volta?'

No longa, Regina Casé interpreta empregada que reencontra a filha deixada na infância

Flávia Guerra, O Estado de S. Paulo

21 Fevereiro 2014 | 20h49

A cineasta Anna Muylaert tem vontade de filmar Que Horas Ela Volta? há quase duas décadas. E até chegou a escrever o roteiro do longa mesmo antes de rodar Durval Discos, seu primeiro longa, que, em 2002, deu a ela sete prêmios no Festival de Gramado. “Este é meu filme mais difícil, pelo tema, pela intensidade da história, tão atual e simbólica das mudanças por que estamos passando”, disse a diretora em conversa com o Estado durante um dia de filmagens na semana passada em um casarão de Pinheiros. “Este filme é simples em questão de locação. Passa-se quase todo na casa dos patrões da Val (interpretada por Regina Casé). Mas é mais difícil por ter também mais personagens e pela personagem principal ser uma empregada doméstica, uma figura arquetípica, coisa que eu nunca fiz”, explica Anna, que precisou ganhar experiência (além de Durval, dirigiu também outro longa premiado, É Proibido Fumar, e Chamada a Cobrar) e reescrever o roteiro. “A Regina vem com uma carga antropológica que carrega o personagem com o que ele é. A Val é um amálgama de muitas mulheres que a Regina conheceu pelo Brasil.”

Por se tratar de um filme que, apesar de ficcional, tem um pé bem fincado na realidade, Anna sentiu a responsabilidade de praticamente contar a história de alguém que existe. “E existe mesmo. Sei que existem pessoas como o Durval, por exemplo. Mas a Val nasce da minha observação como roteirista, da Regina como profunda conhecedora das periferias do Brasil. A responsabilidade é maior.”  O longa narra a história de uma empregada doméstica que, depois de mudar-se para São Paulo, reencontra a filha deixada na infância.

Para não cair na caricatura de uma figura tão simbólica da sociedade brasileira, que passa atualmente por profundas transformações, a diretora e os produtores Caio e Fabiano Gullane sempre estiveram atentos aos fatos recentes, como a própria Lei das Empregadas Domésticas (a Emenda Constitucional n° 66/2012), que mobilizou a opinião pública em 2013.

“Quando se fala de classes sociais, todo mundo tem opiniões políticas. A gente precisava falar deste assunto com verdade”, comenta Caio Gullane. “E isso se acentuou depois do PEC das Empregadas. É muito diferente das opiniões dramáticas. E este filme tira muita mesquinharia debaixo do tapete”, acrescenta Anna, que até chegar ao roteiro filmado preparou três grandes versões. “A primeira versão chamava-se Porta da Cozinha e tinha mais realismo fantástico que o Durval. Depois uma outra versão tratava de uma babá que deixava a filha na Bahia. Foi uma história que aconteceu comigo. Tive uma babá que veio cuidar do meu filho de dois anos”, relembra ela. “Um dia a gente foi para um resort em Itaparica. E lá ela descobriu que estava a 30 minutos da filha que havia deixado para trás. Assim como Val, ela tinha uma culpa imensa. Eu disse a ela para ver a filha. Mas ela não conseguiu. Este episódio foi marcante.”

É o embate fictício entre esta filha que ficou e a mãe que escolheu partir que revela o embate entre o Brasil contemporâneo e o arcaico. “Exatamente. Este é um filme que registra as mudanças por quais nossa sociedade passa. Mas não é só isso. Ele fala de relações humanas. Da Val com a filha, com os patrões, com o filho dos patrões”, pondera Anna. Quando questionada sobre para quem ela fez Que Horas, ela responde: “Não sei ainda quem vai vê-lo. E ter a Regina pode atrair o grande público. Mas definitivamente este é um filme que a classe C chora e a classe B e A discutem."

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