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'É fascinante se sentir no fio da navalha', diz Garret Hedlund

Ator vive Dean Moriarty em 'Na Estrada', que estreia nesta sexta-feira nos cinemas

Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo,

13 Julho 2012 | 13h18

Ele cresceu numa fazenda em Minnesota, ouvindo música country. Quando foi fazer o teste para Na Estrada, Garrett Hedlund tomou o ônibus e passou a noite lendo o livro de Jack Kerouac. Chegou com o livro na ponta da língua. Acima de tudo, ele captou a moralidade dúbia do personagem Dean Moriarty, que vive o presente e arrisca tudo, a todo momento. Central do Brasil, outro filme de estrada do diretor Walter Salles, era sobre a construção da ética num país que ainda era (no passado) miserável.

A ética está de novo no centro de Na Estrada. Quem são esses jovens que se lançam nessa viagem iniciática na América do fim dos anos 1940? Hedlund conversou com o repórter do Estado em Cannes. Atirado na tela, ele parece tímido na vida. Tem a tensão física de James Dean, o olhar ferido do jovem Marlon Brando. Reage com cautela aos elogios. "Quando me chamam para um papel quero ir fundo. Não se pode captar a essência de uma pessoa, mesmo na ficção, sendo superficial."

Como você se preparou para o papel de Dean Moriarty?

Li o livro e o roteiro, mas cheguei à conclusão de que a melhor preparação seria liberar a mente para encarar o desejo de liberdade de Dean. Por suas condições familiares, criado em reformatórios, Neal Cassady, que foi a inspiração de Jack (Kerouac), tinha moral própria. Queria viver o presente, e isso muitas vezes significava não se importar muito com o que as pessoas ao redor sentiam. Depois da audição, Walter (Salles) conversou muito com a gente sobre o livro e seus personagens. Na Estrada produziu um choque, quando surgiu, e isso se deveu ao desejo radical de liberdade dos personagens, mas também à narrativa influenciada pelo jazz e pelo bebop, ao uso das drogas como ferramenta para expandir os horizontes e do sexo na mesma perspectiva. Quando li Na Estrada, tive a sensação de que o livro era muito mais sobre o que aqueles jovens estavam dispostos a arriscar, a experimentar. Hoje, nós sabemos que a beat generation desencadeou uma revolução comportamental, que na sua cola veio a contracultura, mas isso foi depois. Na época, eram só jovens querendo viver do jeito deles. Estava na fazenda de minha família, no Minnesota, perto de Fargo, onde os irmãos Coen filmaram. Li muito durante a viagem de ônibus e escrevi um texto. Sobre o que a estrada representava para mim. Fiz meu teste e acho que não fui mal, mas pedi ao Walter para ler meu texto e foi aí que ele me escolheu. Acho que percebeu que poderia, incondicionalmente, contar comigo. É o que gosto de fazer, como ator. Vou fundo.

E você não teve medo de fazer aquelas cenas homoeróticas com Sam Riley? De que elas pudessem prejudicar sua carreira em Hollywood?

Qual é? Um ator que se preocupa muito com a própria imagem não chega a lugar nenhum. Tenho de estar disposto a experimentar, como aqueles personagens experimentaram. Mas teve um lance engraçado, que me fez sentir ridículo. Foi aquela cena de sexo a três, com o clima entre Sal e Dean. Quando a cena terminou, tudo o que eu queria era fumar um cigarro. Sam (Riley) ficou p... Disse que a gente não tinha feito sexo, não. (Risos.)

Antes de fazer o filme, Walter Salles fez um documentário, em busca do espírito de Kerouac e seus amigos. Viu esse material?

Na verdade, vimos e lemos muita coisa. Viggo (Mortensen) chegou completamente aparelhado para fazer seu papel. Sabia tudo sobre (William) Burroughs, trouxe o tipo de máquina de datilografar que ele usava. Esse tipo de realismo não é frequente em Hollywood. Em Tron, meu personagem vivia num mundo virtual, mas em Onde o Amor Está, o universo era country e a diretora Shana Feste também acreditava nesses pequenos toques. Na Estrada é, acima de tudo, uma história de filhos de imigrantes. Jack (Kerouac) era de Quebec, Allen (Ginsberg) da Europa Oriental e Dean, uma mistura de irlandês com alemão. Essa garotada não tinha seu lugar na América conservadora do pós-guerra, daí a colisão inevitável com seus valores e crenças, que não eram os deles. Walter deixou claro que as palavras de Jack e Allen se situavam ‘entre culturas’ e que o comportamento de Dean era a própria recusa de um padrão, como se todos eles quisessem ver o país de fora, mesmo estando dentro. Foi o mais difícil na experiência de Na Estrada e, ao mesmo tempo, o mais fascinante, essa sensação de estar nas bordas, no fio da navalha.

Vocês formam um grupo heterogêneo. Kristen Stewart é uma estrela. Isso criou alguma complicação no set?

Claro que a simples presença de Kristen provocava frisson e a simples ideia de que Robert (Pattinson) pudesse visitá-la já deixava os jovens excitados. Mas ela levou a sério o papel. Percebeu o que Marylou representava para sua carreira e se jogou na personagem sem pudor.

 
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