É da atriz a imagem emblemática do filme

Poucos artistas, neste País, podem se orgulhar de haver participado de um filme mítico. Olga Breno era uma delas. Atriz de Limite fazia uma das duas mulheres que naufragam junto com um homem. Não têm nome. São seres anônimos em seu sofrimento e em sua desesperança. Rememoram suas vidas enquanto esperam pela morte. Esse é o ?enredo? de Limite único longa-metragem de Mário Peixoto. Uma obra mítica, lançada em 1930, e que depois veio a correr como uma espécie de rio subterrâneo do cinema brasileiro. Era cultuado sem ter sido visto e durante algum tempo acreditava-se que nem mesmo existia. Finalmente ressurgiu, depois de um lento trabalho de recuperação técnica. Olga Breno não teve apenas o privilégio de participar de Limite. Ela fez mais: de vida à cena seminal, talvez a mais emblemática de todo o cinema brasileiro, um rosto de mulher ladeado por duas mãos algemadas. Foi essa imagem misteriosa que desencadeou toda a idéia do projeto. Pouco antes de morrer, Mário Peixoto contou a história em uma entrevista concedida a este jornalista. Jovem rico, ele morava na Europa e viu em uma banca de jornais um exemplar da revista francesa Vu. ?A foto de capa trazia uma mulher e duas mãos algemadas; aquela imagem me causou funda impressão e ficou em minha mente, sem que eu soubesse o motivo?, disse. Mário Peixoto era um jovem aristocrata. Vivendo na Europa, conhecia perfeitamente as vanguardas dos anos 20 ? talvez a década mais radical deste século, em termos estéticos. Essa vanguarda, batida pelas idéias da psicanálise, sabia da importância de certas imagens inconscientes na produção de obras de arte. Mário tinha problemas com o pai e com a família em geral. Debatia-se, também, com dilemas da sua própria sexualidade. Por algum motivo, aquela imagem calou fundo naquele quase adolescente, e despertou nele, talvez de maneira precoce, uma meditação sobre a precariedade da condição humana. Pelo menos era assim que ele mesmo interpretava o filme. Limite a começar por seu título, fala da finitude da espécie. É uma situação mínima, três personagens num barquinho à deriva, cercados pelo mar, acossados pela luz, recordando vidas que já têm um sabor de passado. São póstumos em relação a eles mesmos. Olga Breno, aliás, Alzira Alves, balconista de uma bombonière chamada Casa Globo, é a mulher número 1 de Limite. A número 2 foi interpretada por Taciana Rei, e o homem é Raul Schnoor. As filmagens transcorreram em ambiente doméstico. Tudo foi rodado em Mangaratiba, no litoral fluminense, onde o tio de Mário, Victor Breves, era prefeito. Mário chamou os amigos para colaborar no projeto e teve a sorte (ou o talento) de encontrar um fotógrafo de gênio, Edgard Brasil, que transformou em imagens deslumbrantes as suas idéias. Já se disse, com boa dose de razão, que ninguém filmou o mar como Edgard Brasil. São cenas que ficam na retina de qualquer cinéfilo digno deste nome. Olga Breno, que era uma moça simples, disse em várias ocasiões que não tinha a mínima idéia daquilo que estava fazendo. Deve ser a mais pura verdade. Limite é suficientemente intelectualizado para propor dificuldades até hoje. Além disso, como todo bom cinema produzido ainda no sistema mudo, é elaborado ao extremo na parte visual. Os ?diálogos?, apresentados por meio de intertítulos, são mínimos. Apenas situam algo que já está na fotografia, na música, na impressão física ? pois em boa parte é disso mesmo que se trata no caso, de impressionismo aplicado ao cinema. Olga não tinha mesmo por que saber aquilo que fazia. Havia alguém que sabia por ela, e esse alguém era Mário. Sabia tanto que provavelmente expressou nesse primeiro filme tudo o que podia. Nunca mais conseguiu fazer outro.

Agencia Estado,

21 de outubro de 2000 | 12h34

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