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'É Apenas o Fim do Mundo' é uma das obras imperdíveis da 24ª. edição do festival Mix Brasil

Filme do canadense Xavier Dolan discute a diversidade sexual

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

09 de novembro de 2016 | 04h00

Como todo filme do português João Pedro Rodrigues, O Ornitólogo, que abre nesta quarta, 9, o 24.º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, chega precedido de um perfume de escândalo. O filme, já exibido no Festival do Rio e premiado pela direção em Locarno, é sobre esse homem, estudioso da rara espécie das cegonhas negras, que participa de uma experiência transformadora. Ele cai num rio, é arrastado pela correnteza e salvo por um casal de peregrinos chineses no Caminho de Santiago de Compostela, perde-se numa floresta misteriosa, vive outras situações radicais e, no limite, emerge como um homem iluminado.

Tem gente que lembra até hoje da cena de sexo oral de O Fantasma, de 2000. Depois disso, Rodrigues já deu a medida de seu talento em Odete, Morrer Como Um Homem e chega agora a O Ornitólogo. O diretor estará presente no Mix Brasil para debater com o público. Por mais atraente que seja seu filme, o evento deste ano traz outros destaques imperdíveis e, entre eles, está É Apenas o Fim do Mundo, o novo longa do canadense Xavier Dolan. Aos 27 anos – nasceu em Montreal, 1989 –, Dolan já é autor de uma obra com seis títulos, e todos eles integraram diferentes seleções no Festival de Cannes. Com Mommy, há dois anos, ele ganhou o prêmio do júri, dividido com ninguém menos que Jean-Luc Godard, que era, em 2014, o mais velho dos diretores da competição. Em maio, o júri presidido por George Miller outorgou-lhe seu grande prêmio.

Jovem, talentoso, bonito. Em Cannes, Xavier Dolan é rei – como Sofia Coppola é rainha. O garoto virou ídolo pop, e faz propaganda de itens de luxo. Se você lhe pergunta como concilia o forte teor crítico de seus filmes com a imagem de garoto propaganda, ele dá de ombros. “Uma coisa não elimina a outra. Posso vender e pensar.” É Apenas o Fim do Mundo baseia-se na peça de Jean-Luc Lagarce. Reúne o elenco mais chique de Cannes neste ano – Marion Cotillard, Léa Seydoux, Nathalie Baye, Vincent Cassel, Gaspard Ulliel.

Lagarce, que morreu de aids, é considerado um revolucionário do teatro. Abraçou, como poucos, a diversidade. Dolan o honra – tudo a ver com o Mix Brasil. Embora não seja uma regra para ele, ama as adaptações de teatro – e os huis clos. Tom à la Ferme, Tom na Fazenda, já era baseado numa peça (de Michel Marc Bouchard) sobre homem que, indo enterrar o amante, provocava tumulto na família com sua simples presença. No novo filme, 12 anos depois, Gaspard Ulliel também ressurge na vida familiar. De novo, a morte faz parte do encontro, mas, como quase sempre no cinema de Dolan, o filme é sobre amores impossíveis, palavras não ditas – e agressões diretas. Gaspard Ulliel vem comunicar à mãe, aos irmãos, à cunhada, algo importante. Passa uma tarde em família. É demais. O irmão (Vincent Cassel) e ele não se bicam. Um é o bruto (Vincent), o outro é o delicado, o gay.

Dolan segue a máxima de Caetano Veloso e esmera-se em mostrar que, de perto, ninguém é normal. “Tenho de agradecer a Anne (Dorval, atriz de Mommy). Foi ela quem me carregou para ver a peça e me desafiou a fazer a adaptação. Fiquei impactado. É uma análise quase clínica sobre a loucura familiar.” O retorno do filho pródigo? “Com certeza, mas o que o texto, além de muito bem escrito, tem de mais forte é essa ideia de que a família toda, e de forma subliminar, transforma trânsfuga na origem de seus males.” O filme dura menos de 100 minutos, distribuídos numa dúzia de cenas. A mais longa dura 14 minutos. Dolan explica que, dada a natureza do drama, sua ideia foi ser incisivo como se câmera fosse um escalpelo – instrumento cirúrgico – “rasgando a carne dos personagens”. E ele acrescenta – “Nunca usei tantos planos-sequência, nem em Mommy. Só assim conseguiria penetrar na intimidade dessas pessoas.”

Ele também revela que nunca filmou tanto. “Como o filme estava dividido em poucas cenas e tinha esse elenco excepcional, deixei todo mundo à vontade para experimentar. E, às vezes, tentava mais uma e outra vez só pelo prazer de vê-los se digladiando com o texto.” E a montagem? “Não creio que se faça o filme na montagem. Eu faço os meus no set, com os atores. E, apesar do excesso de material, nem foi muito difícil. As melhores tomadas se impuseram.” Quando Dolan conversou com o repórter, já haviam saído as primeiras críticas a seu filme no festival. A maioria era negativa. Ele dizia que ‘faz parte’, mas terminou por admitir – “Por dentro, estou gritando.” Sua raiva era dirigida – para o crítico que deu uma estrela para É Apenas o Fim do Mundo e ainda considerou a grande Marion Cotillard ‘chata’, boring. Dolan – “O que um cara desses está fazendo aqui (em Cannes)? Isso, sim, me parece o fim do mundo.”

PÉROLAS

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As Mulheres Que Ele Despiu, de Gillian Armstrong

Ou como Orry Kelly, garoto de uma aldeia de pescadores da Austrália, chegou à Hollywood dos anos dourados, virou o estilista preferido dos grandes estúdios (e das maiores estrelas) e ganhou três Oscars

FESTIVAL MIX BRASIL DE CULTURA DA DIVERSIDADE

CCSP, Spcine Olido, Cinesesc e Espaço Itaú. Informações: www.mixbrasil.org.br. Até 20/11

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