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Dzi Croquettes, num mundo de brilho e escracho

Documentário relembra o estilo do grupo que combinava teatro, música, dança, irreverência e escracho

15 de julho de 2010 | 20h16

Flavia Guerra

 

"Nem homem. Nem Mulher. Gente." Assim os Dzi Croquettes se definiam. Era uma gente extraordinária que, em plena ditadura militar, ousou quebrar a rigorosa censura vigente no Brasil com irreverência e graça. Pense em um bando de 13 homens peludos e escrachados que subiam ao palco em vestidinhos, meias-calças, saltos altíssimos, maquiagem pesada, piscando imensos cílios postiços em performances de dança, esquetes de comédia em espetáculo inclassificável, mas tão único que arrebatava fãs por onde passava.

 

video Trailer de "Dzi Croquettes"

 

 

Isso era Dzi Croquettes. Dzi de The, artigo de indicação em inglês. Croquettes porque eram feitos de carne, "feito gente". A irreverência foi tanta que por vezes foram proibidos de se apresentar no País. Mas caíram nas graças do público brasileiro e também do europeu, mais precisamente de Paris.

 

É a história desta gente extraordinária que Tatiana Issa e Raphael Alvarez resolveram contar quando começaram, há quase três anos, as filmagens de Dzi Croquettes, documentário que estreia hoje nos cinemas.

 

Misturando docudrama e cuidadosa pesquisa de arquivos com entrevistas inéditas e uma edição apurada, já integra a lista de um dos mais premiados e bem recebidos documentários brasileiros da História.

 

Por falar em brasileiros, vale lembrar que Tatiana e Alvarez vivem em Nova York e não contaram com o apoio de investidores brasileiros para realizar o filme. "Foi muito difícil explicar nosso objetivo aos possíveis patrocinadores. E mais ainda entender os motivos dos ‘nãos’. Afinal, queríamos contar uma parte da história recente do Pais que os mais velhos já estavam esquecendo e que os mais jovens talvez nunca conheceriam. No entanto, esbarramos muitas vezes no preconceito escondido em relação aos temas que o filme levanta, como liberdade sexual, aids. Só na fase de pós-produção conseguimos o apoio do Canal Brasil", comentam os diretores.

 

Prêmios, prêmios... Se os investidores não entenderam a proposta, o público entendeu e premiou. Dzi Croquettes estreou no Brasil no Festival do Rio, em outubro de 2009, e saiu de lá como o melhor documentário segundo o júri popular e o oficial. Levou também o prêmio do público na Mostra de São Paulo, no Cine Fest Goiânia, no Torino GLTB Film Festival, e no Los Angeles Brazilian Film Festival. "Para quem fez o filme em um esquema totalmente pessoal, com uma equipe reduzidíssima, depois do horário de trabalho, vê-lo estrear é já um prêmio", diz Tatiana, que é atriz com vasto currículo, mas hoje trabalha no mercado financeiro em Nova York.

 

Alvarez também é ator e hoje trabalha como corretor de imóveis. "Não vivemos só de cinema. Foi para contar histórias brasileiras que revelam que o Pais vai muito além dos clichês de carnaval, violência e futebol que fundamos a Tria.", diz o diretor, que com a parceira Tatiana trabalha atualmente em um documentário sobre a Festa de Parintins e já produziu o programa Nova York Underground, que ia ao ar na TV Bandeirantes.

 

Alvarez entrou no projeto por paixão ao cinema e às histórias do País. Já Tatiana carrega lembranças da época em que era a ‘bonequinha dos Dzi’. "Meu pai, Américo Issa, era cenógrafo e iluminador do grupo. A gente viajava com eles, morava com eles. Meu quarto era a coxia, minha casa era o teatro. Eles me maquiavam, vestiam, brincavam comigo. Eram meus palhacinhos."

 

‘Eles’, vale lembrar, são Wagner Ribeiro, Ciro Barcelos, Cláudio Gaya, Reginaldo di Poly, Rogério di Poly, Claudio Tovar, Paulo Bacellar, Carlinhos Machado, Benedito Lacerda, Eloy Simões, Bayard Tonelli, Roberto Rodrigues e Lennie Dale, o mais carioca dos norte-americanos.

 

Foi com sua visão de criança que Tatiana decidiu começar a contar a saga deles na tela. E é com sua visão de cria do grupo que ela revelou com ternura e humor a trajetória de um dos mais geniais e contraditórios talentos do show business brasileiro. "Tivemos dúvidas sobre começar ou não com minha voz em off, contando minhas lembranças. Hoje as pessoas entendem que não é gratuito, mas parte de mim. Só sou o que sou porque meu pai estava com os Dzi, porque me levava junto, porque testemunhei tudo. Sempre quis contar esta história."

 

Alvarez concorda. "Ela falava sempre dos Dzi. Estávamos com amigos e ela dizia: ‘Mas esta expressão foram os Dzi que inventaram.’ E tinha gente que pensava que ela inventava. Quando começamos a entrevistar pessoas e pesquisar, vi que ela não só tinha razão como o quadro todo era muito maior."

 

"Os Dzi estavam distantes e se reencontraram na pré-estreia do Rio. Adoraram o filme e agora estão nos ajudando a divulgá-lo. Se o filme valeu por isso, nosso dever já está cumprido."

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